O Globo - Mobilizações de tropas dos dois países fazem comunidade internacional temer guerra  
NOVA DÉLHI e ISLAMABAD -
O aumento do tom das declarações dos governos da Índia e do Paquistão - por causa dos ataques terroristas de novembro a Bombaim - e a mobilização militar nos dois lados da fronteira aumentaram o temor da comunidade internacional de uma guerra entre dois países, ambos detentores de armas nucleares. Em um sinal de que pode estar preparando um ataque, a Índia reuniu seus chefes militares e orientou seus cidadãos a não viajarem para o país vizinho. Já o Paquistão moveu tropas para a fronteira indiana e alertou Nova Délhi que revidará "qualquer tipo de ação" em seu território. Apesar de os dois lados descartarem oficialmente a hipótese de guerra, mediadores internacionais já se articulam para evitar uma escalada de tensão que termine em conflito.

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- Os cidadãos indianos estão avisados de que não é seguro viajar ou estar no Paquistão. Recomendamos que as viagens para aquele país sejam canceladas - disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia quando questionado sobre as prisões de cidadãos indianos após a explosão de uma bomba, na quinta-feira, na cidade paquistanesa de Lahore.


Diante dos novos episódios da crise iniciada após os ataques, atribuídos pela Índia a um grupo islâmico baseado no Paquistão, a Casa Branca fez um apelo aos dois países para que evitem quaisquer ações que intensifiquem as tensões entre os dois. Desde novembro, Washington mandou vários altos funcionários dos departamentos de Estado e de Defesa para os dois países, num esforço diplomático de evitar um conflito na região, que poderia ter conseqüências geopolíticas desastrosas, ainda mais em um momento em que o mundo enfrenta uma grave crise financeira. O governo chinês, outro interessado em evitar um conflito de grandes proporções próximo a sua fronteira, segundo fontes diplomáticas, também iniciou um trabalho de mediação entre os dois países.
 
Movimento aumenta na fronteira
Segundo uma autoridade do Gabinete do primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, a reunião de ontem com o alto comando militar foi para tratar da tensão com o Paquistão, mas não teria sido convocada de emergência.


- Foi uma reunião, que já estava programada, com os chefes do Exército, da Marinha e da Força Aérea, para analisar, entre outras coisas, capacidade de mobilização de tropas e pagamento dos militares - disse a fonte do Gabinete.


Reportagens nos dois países, em número cada vez maior, têm alimentado especulações de uma guerra, embora os líderes digam que um conflito não serviria aos interesses de ninguém. Muitos analistas, no entanto, acreditam que a hipótese de um conflito é remota. Os dois países estiveram por três vezes em guerra desde sua independência, em 1947, e quase chegaram ao quarto conflito em 2002, depois de um ataque terrorista ao Parlamento indiano.


Embora a movimentação militar nos dois lados da fronteira não tenha sido até agora significativa na visão de especialistas, fontes militares em Islamabad disseram que integrantes do Exército paquistanês que estavam de folga ou férias receberam ordens de se apresentarem nos quartéis.


- Um contingente de soldados de regiões mais remotas e consideradas menos vulneráveis foi deslocado, provavelmente para a fronteira com a Índia - disse uma autoridade do alto escalão da segurança paquistanesa.


Outras fontes afirmaram que tropas foram retiradas inclusive da fronteira com o Afeganistão, o que facilita a movimentação de grupos terroristas como a al-Qaeda e o Talibã. A informação, não confirmada oficialmente, foi recebida com irritação nos corredores da Casa Branca, preocupada com a guerra travada contra os talibãs no Afeganistão e com a movimentação de terroristas ligados a Osama bin Laden.


Índia, EUA e Reino Unido responsabilizaram pelos ataques de novembro a Bombaim o grupo islâmico Lashkar-e-Toiba, que tem sua base no Paquistão e se formou para combater o domínio indiano na região da Cachemira, disputada pelos dois países. O governo do Paquistão condenou os ataques a Bombaim e negou qualquer participação nessa ação, que atribuiu a "atores não ligados ao Estado". A Índia exige que o governo paquistanês prenda uma lista de suspeitos.

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