Por Jarbas Passarinho - Correio Braziliense
No começo do impacto da crise financeira, a Europa demonstrava preocupação. Temia os males que certamente o abalo da maior economia do mundo refletiria perigosamente sobre ela. Logo sentiu os efeitos deletérios. Os bancos centrais europeus reuniram-se analisando que medidas excepcionais a economia deviam adotar. Bilhões de euros foram aplicados para evitar a perda de liquidez dos bancos e garantir o crédito, a produção e o emprego. Lula, o sorriso desmentido pelo otimismo irrealístico, não cedia à conjuntura pessimista, o maremoto das finanças do Primeiro Mundo, criando vulto e espaço universal. Ocultava a preocupação com os fatos: produção industrial em queda, parques de montadoras repletos de automóveis sem venda, férias coletivas compulsórias para reduzir a produção estocada, cortes em projetos de investimento, retirada considerável de recursos estrangeiros da bolsa despencando em queda livre, juros na estratosfera, tudo isso não passaria de controlável marolinha. Não se revela quanto o Banco Central já gastou dos 207 bilhões de dólares de nossas reservas — uma conquista inédita em nossas finanças – para impedir o aumento progressivo do dólar e obrigado a socorrer os bancos para aumentar suas reservas e poder estimular os empréstimos.

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Lula tem o suporte da popularidade para manter a aparência otimista. Disse: “Quem for mais querido do povo que venha me criticar”. Aparentemente, só o ex-presidente Sarney poderia aceitar o desafio. Ultrapassou os 73% de Lula, mas medido quando o Plano Cruzado gerara os “fiscais do Sarney”, antes de desabar fragorosamente e nos deixar uma herança de desabastecimento e inflação de mais de 80% ao mês. Se a pesquisa fosse nos tempos do desencanto, o índice de popularidade poderia ter sido de 20% no máximo, como se deu com Lula, medida no auge do escândalo desmoralizante do mensalão. Cazuza, o polêmico compositor, numa de suas canções, desafiava: “Brasil, mostra a tua cara”. Lula, sagaz, viu a cara do Brasil.

Percebeu que a própria ira popular esmaeceria com o tempo somado à “esmola das bolsas”, como a chamava antes de ser presidente. Mesmo depois que o digno procurador-geral da República enquadrou os ladravares compradores de votos, Lula nega que tenha havido mensalão. Um jornalista perguntou a uma mulher pobre se não se envergonhava de receber a “esmola’ provinda de dinheiro mal-havido. Ela, mostrando um lado da face do Brasil, respondeu-lhe: “Sei que há ladrão, sei que há quadrilha, mas meus filhos não passam fome”. Lula não teme ser desmentido, pois sabe que os mensaleiros não serão condenados.

O STF iniciou o processo da “organização criminosa”. Será obra de Santa Engrácia. Só a obrigação de ouvir 50 testemunhas de defesa, espalhadas maliciosamente pelos quatro cantos do mundo, levará cerca de metade de 2009. Depois, virá a avalanche de recursos de criminalistas bem pagos. Os vendilhões de votos ainda jogarão nos nossos rostos: “Fomos absolvidos pelo STF!” Não será absolvição, mas favorecidos pelo tempo que os advogados conseguirão procrastinar o julgamento, a prescrição do crime ocorrerá e o processo será arquivado. Há, ainda, a reincidência mais cínica, como o do mensaleiro Quadrado, que acaba de ser preso em flagrante, ao desembarcar no aeroporto internacional de Guarulhos com 361 mil euros ( R$ 1,2 milhão) escondidos nas meias, presos à cintura e dentro da cueca.

Aí está a cara do Brasil, a dos Quadrados e Marcos Valérios, que ganham licitações fraudadas e com o furto, mancomunados com a “organização criminosa”, fazem do Legislativo um apêndice imundo do Tesouro. E o governo petista bradava insultos nos comícios, prometendo fazer da política um oásis da ética. Se o Legislativo tem os que traem seus eleitores, há no Judiciário os que traem a esperança de justiça e vendem sentenças chegando até a desembargadores. O presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, que tinha cúmplices no tribunal, preso em casa, seu gabinete revistado pelo Polícia Federal, é revoltante. Executivos estrangeiros, entrevistados por uma ONG internacional, servidos de sua experiência em negócios contratados, colocam o Brasil no 5º pior lugar na lista de propinas, “envolvendo relações com familiares de gente do Executivo para obter contratos públicos e subornando políticos de nível elevado para fazer negócios”.

Essa é a cara que o cantor Cazuza, polêmico, desafiou que fosse mostrada. É a que se vê nos fatos descritos na mídia. Não me rendo, porém, ao desespero, pois concordo com o poeta: “A esperança é a última que morre, no homem”. Confirma-se o que ensina o professor José Pastore: “Político que acabar ou diminuir a fome dos mais pobres e, ao mesmo tempo, abarrotar de vultosos lucros os bancos, ganhará de qualquer competidor”. O Orçamento da União, afinal votado, para viger em 2009, é a prova – segundo a mídia – de que Lula adota a receita do professor Pastore. São mais de R$ 100 bilhões para obras sociais e apenas R$ 20 para investimento federal, combinado com os juros mais elevados do mundo. Contando com as antigamente apelidadas de “esmolas”, não é pequeno o número de pais que se desinteressam de buscar emprego. Se as estradas foram abandonadas, quando se aproximou a reeleição, taparam-se os buracos e em cada um conserto fugaz Lula fazia um comício com discurso empolgante, na mesma linguagem com que conquistou a liderança da classe trabalhadora e agora conquista o povo.

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