enviado por Jorge Baptista Ribeiro em 09 de março de 2007
Resumo: Segundo Gramsci, praticamente não existem indivíduos totalmente canalhas. Os canalhas que encontramos no dia-a-dia, em verdade são semicanalhas.
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O cenário político e psicossocial, com o qual nos deparamos nos tempos da Nova República, vem mostrando uma chusma de velhacos como principais atores. Velhacos porque medeiam entre cargos que obrigam ao tratamento de excelência, quando de excelência não têm nada. Tanto não têm que fingem que não sabem que são sustentados pelo suor do excelentíssimo senhor povo. A quem vivem enganando e cinicamente surrupiando com omissões e ações de má-fé, fraudes e patifarias de toda ordem. Aliás, povo, cuja maioria os merece. Dentre outras óbvias coisas, merece em razão do noticiário diário que nunca deixa de nos dar conta da prisão de grandes quadrilhas de importantes e desimportantes brasileiros metidos em maracutaias. É todo dia bandalheira de norte a sul do País. Não há descanso.

 Observação do sitewww.averdadesufocada.com :Matéria antiga, mas muito adequada para os últimos  governantes  brasileiros


Embora partindo de um mor-embusteiro, faz sentido a denúncia do então inoperante deputado Lula da Silva de que na Câmara dos Deputados existiam cerca de trezentos picaretas. Um outro exemplo está estampado em manchete no jornal O Globo de 05/03/07: “Alerj: 55% dos deputados respondem a processos”. O que nos permite repetir Rui Barbosa, dizendo que o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e ter vergonha de ser honesto. Isto sem falarmos nos casos dos mensaleiros, sanguessugas e outras intermináveis bandalheiras, de domínio público que, cotidianamente, explodem por todo lado e todo canto, Brasil afora.

Da mesma forma que o mercado se vinga quando ofendidas são as suas tradicionais regras, a verve popular utiliza o humor negro para dar o seu recado: “nem todos são idiotas”.
É o caso dos anarquistas do Cassetta e Planeta, ao colocarem na boca do seu ímpio personagem Agamenon que, afinal, descobriram um santo no Brasil. Mas como o santo (aludindo à canonização de Frei Galvão) é brasileiro, vai acabar pedindo uma cervejinha para, junto à gente lá de cima que conhece, “quebrar o galho” dos pedintes. E tudo terminar em pizza!

No quarto volume dos “Cadernos do Cárcere”, lançado na praça tupiniquim em 2001, o ideólogo comunista Antônio Gramsci, até parece que estava escrevendo a História do Brasil dos nossos dias, indo às raízes do fenômeno da canalhice. Iniciou suas proféticas considerações, advertindo para o perigo que correm as criaturas lenientes com indignidades. Foi bem explícito nesse aspecto, dizendo que é fato freqüente as pessoas se referirem à canalhas, ressalvando que não são inteiramente sórdidos, pois possuem boas qualidades humanas que devem ser reconhecidas.
Ainda, segundo Gramsci, praticamente não existem indivíduos totalmente canalhas. Eles só aparecem em romances policiais ou nas novelas da TV. Os canalhas que encontramos no dia-a-dia, em verdade são semicanalhas.

Prosseguindo na sua fala, Gramsci assim define o perfil dos semicanalhas que aqui resumo:
“Os semicanalhas são os canalhas reais que nos enganam no dia-a-dia, nos exploram, nos oprimem, nos dão golpes, nos envenenam com suas intrigas e calunias. Não é raro que eles sejam sujeitos inteligentes, agradáveis e nos façam gentilezas, exibindo uma cativante simpatia que contribui para atenuar o nosso senso crítico em relação ao esvaziamento dos valores morais. Por serem desprezíveis, os semicanalhas encontram, paradoxalmente, facilidades para se multiplicarem, aproveitando a insuficiência da opinião pública e dos dirigentes do Estado que não se empenham em combater-lhes as falcatruas. Tornam-se, assim, uma das causas do agravamento da ética. São oportunistas. São avarentos capazes de atos generosos, sobretudo quando tais atos resultam em boa publicidade. São mais nocivos que o canalha total. São mais numerosos e, portanto, se disfarçam melhor. Quando se vêem alcançados pelos braços da Justiça, escapam mais facilmente às malhas da lei penal, porque suas ‘qualidades’ inspiram a indulgência e amolecem a disposição punitiva dos juízes. São mentirosos, mas vez por outra dizem verdades. Talvez até para terem maior credibilidade, por ocasião da próxima mentira”.

Fico por aqui para não mais cansar os meus leitores com um assunto já bastante explorado. Entretanto, creio que ao finalizar posso pedir ajuda: identifiquem neste Brasil varonil, quem se encaixa no perfil enunciado por Gramsci. Se sobrar muita gente, por favor, me avisem.

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