Junto a Hillary, presidente pede ações humanitárias no território, reforça Abbas e defende solução de dois Estados - Marília Martins - O globo
WASHINGTON.
O presidente Barack Obama começou a imprimir sua direção para a política externa americana, comparecendo à posse de Hillary Clinton no Departamento de Estado. E pela primeira vez delineou as linhas gerais de seus esforços diplomáticos para buscar a paz no Oriente Médio e a estabilização de Afeganistão e Paquistão.

Texto completo

Obama reafirmou o compromisso com a defesa de Israel, reforçou o apoio à Autoridade Nacional Palestina (ANP) e ao presidente Mahmoud Abbas e declarou que a paz deve ser resultante da convivência de dois Estados independentes. Ele responsabilizou o Hamas pelo conflito e pediu que as fronteiras da Faixa de Gaza sejam abertas, permitindo a entrada de ajuda humanitária e o comércio. Obama citou a cooperação da Jordânia no treinamento das forças de segurança da ANP como um modelo a ser buscado pelos EUA.

No caso da luta contra o Talibã e a al-Qaeda, Obama prometeu reforçar as tropas americanas no Afeganistão, cortar o tráfico de ópio na região, caçar terroristas na fronteira e obter mais cooperação do governo do Paquistão no desmantelamento de redes de apoio a extremistas.

- O mundo precisa entender que os EUA serão implacáveis na defesa de sua segurança e incansáveis na perseguição dos que apóiam o terrorismo e ameaçam o nosso país - disse Obama.

 

Novos enviados para Oriente Médio e Afeganistão

O presidente disse que o exemplo moral dos EUA será a pedra de toque da nova política de segurança nacional e da busca para reconquistar a liderança americana.

- Nossas ações em defesa da liberdade serão tão justas quanto as nossas causas. Temos de reconhecer que nossa força vem não apenas do poder das armas ou da escala de nossa riqueza, mas dos nossos valores permanentes. E pelo bem da segurança nacional e das aspirações comuns dos povos do mundo, uma nova era deve começar agora.

Acompanhado do vice-presidente Joe Biden, Obama nomeou enviados especiais para as duas regiões em conflito: o ex-senador George Mitchell será o negociador americano no Oriente Médio, e o diplomata Richard Holbrooke ficará encarregado de Afeganistão e Paquistão.

- Não temos tempo a perder. Será política do meu governo buscar ativa e agressivamente uma paz duradoura entre israelenses e palestinos, assim como entre Israel e seus vizinhos árabes - disse.

Em seu primeiro pronunciamento sobre o assunto como presidente, Obama culpou o Hamas pelo conflito em Gaza e disse que Israel deveria completar a retirada de tropas:

- Por anos o Hamas lançou milhares de foguetes contra israelenses. Nenhuma democracia pode tolerar tal ameaça a seu povo - disse, acrescentando que o grupo deve reconhecer o direito de Israel existir e que ele sentia pelas mortes de palestinos e israelenses.

Mitchell e Holbrooke foram indicados por Hillary Clinton, que assumiu ontem o Departamento de Estado, falando em revitalizar a política externa americana com duas frentes de trabalho: diplomacia e desenvolvimento econômico.

- Há três pernas na política externa americana: defesa, diplomacia e desenvolvimento. E nós seremos responsáveis por duas delas. E vou deixar claro, à medida que trabalhamos, que diplomacia e desenvolvimento serão os instrumentos essenciais para atingir os objetivos a longo prazo - disse Hillary.

Hillary reafirmou que a segurança americana depende de uma combinação entre missões diplomáticas e parcerias na área econômica, deixando o uso do poderio militar como último recurso, política que ela define como smart power (poder inteligente), em oposição ao hard power da era Bush. Biden foi ainda mais claro. Diplomacia primeiro, ações militares como último recurso, numa completa reversão da guerra contra o terror de George W. Bush.

Os dois enviados especiais têm um currículo impressionante como negociadores de conflitos internacionais. Mitchell foi negociador de acordos de paz em 1998 entre o governo britânico e os separatistas da Irlanda do Norte.

- Conseguimos um acordo de paz entre Irlanda do Norte e Reino Unido, depois de um conflito que durou 800 anos. Quando estive em Jerusalém, mencionei que a dominação britânica na Irlanda do Norte tinha começado há 800 anos e eles me disseram: "Ah, mas isto é recente e por isto vocês conseguiram..." Mas ali eu aprendi que diplomacia paciente consegue terminar conflitos seculares - disse.

Ex-embaixador americano na ONU, Holbrooke garantiu que os esforços diplomáticos serão tratados como estratégia em comum traçada em parceria com o general David Petraeus, comandante-geral das forças americanas no Iraque e no Afeganistão:

- Agradeço a confiança para cumprir a missão de reordenar o hoje caótico programa de assistência àquela região - disse.

Hamas diz que Obama repetirá erros de antecessores

As missões não são fáceis, e à noite o porta-voz do Hamas em Beirute, Osama Hamdan, reagiu dizendo que a posição de Obama sobre os palestinos não representava mudança e que o presidente cometerá os mesmos erros dos antecessores.

- Ele está tentando trilhar o mesmo caminho que os outros presidentes americanos seguiram - disse.

Mais cedo, numa ligação telefônica, o premier israelense, Ehud Olmert, dissera a Hillary que o país pretendia garantir a ajuda humanitária à Faixa de Gaza e que ia fazer todo o possível para combater o terrorismo.

Adicionar comentário