A história inspiradora de como um povo se rebelou e impediu os comunistas de tomarem conta de seu país. 
Raramente uma grande nação esteve mais perto do desastre e se recuperou do que o Brasil em seu triunfo  sobre subversão vermelha .
Os elementos  da campanha comunista  para dominação - propaganda , infiltração , terror - estavam em plena ação . 
A rendição total parecia iminente...e então o povo disse: NÃO

A Nação que se  salvou a si mesma - a história secreta da revolução do povo brasileiro - Parte II

 O Método “Enriqueça depressa”
As continuas investigações dos peritos de informação do IPES revelaram mais do que subversão. A corrupção generalizada – bem acima do comumente aceito como parte da vida política da América Latina – estendia-se do palácio presidencial para baixo. No momento em que Goulart e seus extremistas de esquerda atribuíam todas as dificuldades do Brasil aos “exploradores e sanguessugas norte-americanos”, havia gente do governo metendo as mãos no dinheiro público com a maior sem-cerimônia. Estava claro que qualquer auxílio a regiões empobrecidas, inclusive contribuições da Aliança para o Progresso, tinham de transpor uma pesada pista de obstáculos de mãos ávidas e dedos ágeis.

Com uma renda declarada de menos de 50 milhões de cruzeiros em 1963, Goulart, por exemplo, conforme documentos apreendidos pelo Conselho de Segurança Nacional depois que ele fugiu para o exílio – gastou 236 milhões de cruzeiros somente em suas fazendas do Mato Grosso. Enquanto Goulart insistia no confisco das propriedades dos latifundiários e na distribuição da terra aos camponeses, os registros de imóveis demonstram que ele rapidamente somava imensas propriedades às que já tinha. Só depois que Jango fugiu pôde o Brasil medir a sinceridade dele em matéria de partilha de terras. Proprietário de terras apenas em São Borja, quando iniciou sua vida pública, ao abandonar o País em abril de 64 Goulart era o maior latifundiário do Brasil, possuindo em seu nome mais de 7.700 quilômetros quadrados de terras, uma área quatro vezes e meia superior à do município do Rio de Janeiro.

E havia os que compartilhavam as oportunidades de ficarem ricos depressa. Indiscrições sobre uma possível mudança na política oficial, como sobre taxas de câmbio, davam milhões a favoritos palacianos. Empreendimentos de qualquer gênero eram vinculados a comissões e retribuições em dinheiro.

Verificou-se que um membro do estafe de Jango tinha um bico como “ministro-conselheiro” de assuntos econômicos numa embaixada no exterior”- emprego a que nunca dedicou um dia de trabalho, mas adicionava mais de 15 milhões de cruzeiros ao seu salário anual de oito milhões e meio. O tráfico de influência era um fato. Um dos deputados do Partido Trabalhista, de Goulart, estava fazendo uma fortuna acrescentando 1 295 funcionários à sua folha de pagamento em troca de uma fatia dos vencimentos deles.

Outro negociozinho confortável, explorado por um do peito do Governo, era conseguir bons empregos públicos para quem pudesse pagar-lhe uma taxa de um milhão e meio de cruzeiros. Um governador de Estado estava fazendo fortuna com contrabando; outro recebeu uma verba de 6 bilhões e meio de cruzeiros para a construção de rodovias e calmamente embolsou o total.

Além de todas essas velhacarias de alto calibre, que podiam ser documentadas, inúmeros milhões de cruzeiros desapareciam sem deixar rastro no poço sem fundo da corrupção que campeava. 

Propaganda por Panfleto

Os líderes da classe média brasileira, armados com as montanhas de provas reunidas por seus investigadores, puseram-se então a agir. Sua missão: despertar seus tolerantes e cordiais patrícios, cujas condescendentes atitudes políticas eram resumidas muito freqüentemente na frase: “Está certo, ele é comunista, mas é uma boa praça!”

Os anticomunistas organizavam dossiês sobre os chefes comunistas e seus colaboradores, dentro e fora do Governo, e distribuíram-nos largamente entre os líderes da resistência e os jornais. Eles visavam principalmente à crescentes classe assalariada do País, a grande sofredora com a galopante inflação.

Diretores de organizações comerciais e de fábricas convocavam reuniões regulares dos empregados, discutiam o significado oculto dos acontecimentos correntes, davam-lhes panfletos. Um livrinho barato, escrito por André Gama, dono de uma pequena fábrica de Petrópolis, e intitulado “Nossos Males e Seus Remédios”, teve uma circulação superior a um milhão de exemplares. Outro documento, escrito em linguagem simples, explicava como o sistema democrático funciona melhor do que outro qualquer, detalhava as tragédias da Hungria e de Cuba, e avisava: “Está acontecendo aqui.”

A distribuição desse e de outros materiais anti –comunistas a princípio foi clandestina, depois tornou-se ostensiva. Os lojistas punham os folhetos denunciadores dentro de embrulhos e sacos de compras. Os ascensoristas davam-nos a passageiros que se queixavam da situação. Os barbeiros punham-nos dentro de revistas que eram lidas pelos fregueses que esperavam a vez. Um tipógrafo do Rio imprimiu secretamente 50 000 cartazes com caricaturas de Fidel Castro fustigando seu povo e a legenda: “Você quer viver sob a chibata dos comunistas?” À noite mandou vários ajudantes colocá-los em lugares públicos.

Os contra-revolucionários da classe média do Brasil pagavam pelo tempo no rádio e na televisão para divulgarem suas revelações. Quando a pressão do Governo fechou muitas estações de radio e TV a todos menos aos mais radicais propagandistas, eles formaram sua própria “Rede da Democracia” de mais de 100 estações em todo o Brasil. De outubro de 1963 até a Revolução, as estações dessa rede, organizada por João Calmon, diretor dos Diários Associados, iam para o ar na mesma hora em que o esquerdista Leonel Brizola arengava ao público. (Detido após a Revolução e perguntado por que falhara o golpe vermelho, o General Assis Brasil, o esquerdista chefe do Gabinete Militar do Presidente Goulart, deixou escapar: “Aquela desgraçada rede de radio e TV, assustando a opinião pública e provocando todas aquela marchas de mulheres.”)

Os investigadores não descobriram apenas o que tinha acontecido, mas também o que estava para acontecer. Adotando as táticas dos próprios vermelhos, trabalhadores infiltravam-se nos altos conselhos dos sindicatos trabalhistas, fingindo-se comunistas, mas denunciando regularmente as maquinações vermelhas. Repetidas vezes os planos dos vermelhos foram desmantelados, quando oradores e escritores da oposição iam para a imprensa e para o radio revelar o que se preparava. Certa feita, os vermelhos estavam discretamente reunindo 5 000 pessoas para uma viagem a Brasília, numa “peregrinação espontânea” para influenciar a ação do Congresso. Quando os anticomunistas denunciaram a manobra dias antes, a “peregrinação” foi cancelada. 

Uma Imprensa Destemida

Os principais jornais brasileiros cedo entraram na luta. Comunicando regularmente as descobertas dos grupos de resistência e mantendo por conta própria cerrada fuzilaria editorial, destacavam-se os dois mais influentes jornais do Rio, O Globo e o Jornal do brasil, bem como o Estado de São Paulo, da capital paulista, e o Correio do Povo, o mais antigo e mais respeitado jornal independente do Rio Grande do Sul.

Por seu destemor, os jornais brasileiros pagaram pesado preço em matéria de perseguição pelo Governo. Quando João Calmon publicou uma revelação comprometedora de quanta inverdade havia no pretenso interesse de Leonel Brizola pela reforma agrária – sendo o próprio Brizola interessado em terras – este tentou silenciá-lo mandando executar a hipoteca de empréstimos feitos aos Diários Associados pelo Banco do Brasil. Para manter a cadeia funcionando, anunciantes brasileiros prontamente pagaram adiantadamente seus contratos de 12 meses, adiando assim o fechamento.

Por publicar uma narração corajosa e reveladora do que viu durante uma visita que fez a Rússia em 1963, o dono do Jornal do brasil, M F do Nascimento Brito, viu seu jornal incorrer na ira do Governo, que mais tarde, no dia 31 de março, ordenou sua invasão por elementos do Corpo de Fuzileiros Navais. 

Feminina e Formidável

Mas é às mulheres do Brasil que cabe uma enorme parcela de crédito pela aniquilação da planejada conquista vermelha. Em escala sem paralelo, na história da América Latina, donas-de-casa lançaram-se à luta aos milhares, fazendo mais para alertar o País para o perigo do que outra força qualquer. “Sem as mulheres”, diz um líder da classe media da contra-revolução, “nunca teríamos podido sustar a tempo o mergulho do Brasil em direção a ditadura. Muitos dos nossos grupos de homens tinham de trabalhar disfarçadamente, mas, as mulheres trabalharam às claras... e como trabalharam!”

A vela de ignição e a força propulsora do levante das mulheres foi uma minúscula amostra de 45 quilos de energia feminina: Dona Amélia Molina Bastos, do Rio, ex-professora primária, de 59 anos de idade, esposa de um general reformado do Corpo Médico do Exército.

Ela ouviu, uma noite, em meados de 1962, seu marido e alguns líderes anticomunistas discutirem desanimados a ameaça que se agigantava. “Subitamente concluí que a política se havia tornado demasiado importante para ser deixada inteiramente nas mãos dos homens.”

No dia seguinte – 12 de junho – dona Amélia convidou à sua casa várias amigas e vizinhas. Com fogo nos olhos, ela perguntou: 

Quem tem mais a perder com o que está acontecendo no nosso País do que nós mulheres? E de quem será o futuro que desaparecerá senão o de nossos filhos e netos, se a política radical do Governo levar a nossa Pátria ao domínio comunista? 

Naquela mesma noite foi formado o primeiro centro da CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia). E no dia seguinte, com 30 donas-de-casa mobilizadas, dona Amélia foi aos jornais do Rio pedir atenção para seu protesto contra a nomeação por Goulart de seu avermelhado primeiro-ministro. Em O Globo disseram-lhe: “O protesto de 30 mulheres não quer dizer muita coisa. Mas se a senhora puder marchar até aqui com 500 mulheres...”

Pegando o telefone, dona Amélia e seu nascente grupo reuniram as 500 mulheres, e dois dias depois se apresentaram a Roberto Marinho, diretor do jornal – e o fato mereceu manchetes na primeira página. O protesto não sustou a nomeação, mas estabeleceu o poder das mulheres para influenciar a opinião pública. 

A “Corrente de Simpatia”
Quando a sala de estar de dona Amélia não mais pôde acomodar todas as donas-de-casa ansiosas por tomar parte na CAMDE, ela mudou suas reuniões para salões paroquiais de igrejas, formou dezenas de outras pequenas células em casas de família. Cada mulher que comparecia era encarregada de organizar outra reunião com 10 de suas amigas; por sua vez estas tinham de recrutar outras. Para financiar suas atividades, elas economizavam nos orçamentos domésticos e pediam ajuda às amigas com posses. As mulheres da CAMDE insistiam em ação. Formavam comícios de protesto público; ficavam horas diariamente ao telefone; escreviam cartas (certa vez, mais de 30 000) a congressistas para “assumirem posição firme em prol da democracia”. Pressionavam firmas comerciais para que tirassem sua publicidade do jornal Última Hora, punham anúncios em jornais avisando sobre suas reuniões, apareciam em comícios públicos para discutir com esquerdistas e desafiar os agitadores, distribuíam milhões de circulares e livretos preparados pelas organizações democráticas denunciando o namoro do Governo com os vermelhos.

Além disso, produziam literatura própria, especialmente orientada no sentido das preocupações femininas; mais de 200 000 exemplares só de um trabalho, descrevendo o que as mulheres podiam fazer, foram distribuídos pela CAMDE às suas sócias, cada uma devendo tirar cinco cópias e mandá-las a possíveis candidatas a sócias.

Quando o diretor esquerdista dos Correios e Telégrafos vedou a distribuição de mensagens e publicações da CAMDE, dona Amelinha organizou uma força de senhoras estafetas para entregar o material de automóvel, convencendo pilotos de companhias de aviação brasileiras a transportá-lo para lugares distantes.
 

As donas-de-casa da classe média não se limitaram a seu próprio ambiente. Elas se concentraram, por exemplo, nas mulheres do sindicato dos estivadores, fortemente influenciado pelos vermelhos. “Vocês devem convencer seus maridos”, diziam àquelas mulheres. Muitas o conseguiram, e não poucos foram os estivadores assim convertidos à democracia, comunicando depois às suas esposas: “Não somos mais comunistas!” 

O Murmúrio das Orações

Mesmo nas favelas, ponto especial do ataque da propaganda vermelha, formavam-se unidades da CAMDE. Uma delas, numa favela da Zona Sul do Rio, denominada Rocinha, nasceu do pedido de socorro de uma lavadeira a dona Amelinha. 

Este lugar aqui - disse a mulher – está cheio de comunistas. Eles dizem que querem ensinar a gente a ler e escrever, e trazem divertimentos para nós. Mas os únicos livros que usam são cartilhas cubanas, as únicas fitas que passam são de guerrilheiros cubanos. 

Imediatamente formou-se uma célula na Rocinha, centralizada na casa dessa lavadeira; organizaram-se classes de alfabetização, forneceram-se livros. E dali a pouco as mulheres da Rocinha estavam em condições discutir com os vermelhos em seu próprio nível, dizendo aos candidatos comunistas ao Congresso e a propagandistas da UNE: “Vão embora. Sabemos o que é que vocês estão querendo.” 

Os vermelhos partiram em busca de presas mais fáceis. 

A difusão das organizações femininas foi espetacular. Algumas tornaram-se filiais da CAMDE; outras, como a LIMDE (Liga das Mulheres Democráticas) em Belo Horizonte, possuíam identidade própria. 

As mulheres de Belo Horizonte, no estado brasileiro talvez mais ferrenhamente anticomunista, eram a coragem personificada. Quando o Congresso das Uniões dos Trabalhadores da América Latina (CUTAL), dirigido pelos vermelhos, anunciou um comício a ser efetuado em Belo Horizonte, tendo como oradores principais dois organizadores comunistas vindos da Rússia, as líderes da LIMDE mandaram um recado curto ao CUTAL: "Favor ficar cientes que, quando chegar o avião trazendo esses homens, centenas de mulheres estarão deitadas na pista.” Elas cumpriram a palavra, e o avião nunca pousou na capital mineira; em vez disso, prosseguiu para Brasília. 

As mesmas mulheres realizaram demonstração igualmente eficaz em fevereiro de 1964. Um Congresso de Reforma Agrária devia reunir-se em Belo Horizonte, tendo como orador principal o cunhado de Goulart. Quando o deputado Brizola chegou ao saguão, encontrou-o tão apinhado com 3 000 mulheres que não conseguiu fazer se ouvir acima do ruído dos rosários e do murmúrio das preces pela libertação da Pátria. Saindo, Brizola viu as ruas igualmente cheias de mulheres rezando até aonde a vista podia alcançar. O deputado Brizola foi impelido para fora de Belo Horizonte, levando no bolso, sem o pronunciar, um dos mais violentos discursos de sua carreira. 

Em 12 meses, grupos assim atuaram em todas as cidades grandes, de Belém a Porto Alegre. 

A Sorte está Lançada

No começo de março de 1964 o País inteiro era um rastilho pronto a irromper em chamas de revolta. Em 13 de março, o próprio Goulart, com os vermelhos a incitá-lo, temerariamente riscou o fósforo. Perante uma audiência de uns 1 000 trabalhadores – arrebanhados por líderes vermelhos e trazidos para o Rio de Janeiro em ônibus e trens ao custo de mais de 400 milhões de cruzeiros para o Governo - Goulart e Brizola irrevogavelmente comprometeram o Governo a fazer mudanças radicais.

Realizado na praça em frente à estação da Central do brasil, no Rio, na hora da volta para casa das grandes massas residentes nos subúrbios, o comício apresentou uma floresta de cartazes enfeitados com a foice e o martelo e exigências como “Legalidade para o Partido Comunista” e “Armas para o Povo”. Agentes democratas, procurando misturar-se com a multidão, constataram estar esta dividida em blocos, cada um com sua própria senha para deixar de fora quaisquer intrusos inamistosos.

A estupefata classe média brasileira, assistindo pela TV, ouviu Goulart denunciar como superadas a estrutura de Governo e a ordem social existentes, exigindo mudanças básicas na Constituição. Entre as mudanças sugeridas: legalização do Partido Comunista. A seguir, Goulart anunciou dois decretos. Um confiscava e entregava à Petrobrás as seis refinarias ainda em mãos de particulares. O outro, mais assustador, autorizava o governo a confiscar, sem indenização em dinheiro, quaisquer áreas agrárias por ele julgadas inadequadamente utilizadas e entregá-las a camponeses sem terras – uma clara repetição do programa inicial de Fidel Castro de “reforma agrária”.

Os decretos constituíram um movimento audacioso para contornar o Congresso. Combinado com os ataques à Constituição, isso era um audaz lanço para estabelecer o governo por decreto, essência da ditadura.

O cunhado do presidente, assomando à tribuna, foi mais longe ainda. Em voz estridente, Brizola exigiu a extinção do Congresso e a instituição, em seu lugar de “assembléias” de operários, camponeses e sargentos do Exército – um evidente eco dos sovietes de operários, camponeses e soldados de Lenine, em 1917. As implicações eram bastante claras.

O comício de 13 de março bem pode ser considerado como o detonador da revolução preventiva. A classe média brasileira percebeu então que a sorte estava lançada: Goulart tinha ido além do ponto em que poderia arrepender-se. O Governo tinha entrado num caminho que só podia levar a uma sangrenta guerra civil, seguida da tomada do poder pelos comunistas.

 A Marcha das Mulheres

Os primeiros a agir foram as mulheres de São Paulo. Ouvindo pelo rádio e TV o comício de 13 de março, centenas de donas-de-casa correram para os telefones para convocar um comício capaz de fazer a demonstração engendrada por Goulart parecer insignificante. Seis dias depois, a 19 de março, as largas avenidas do centro de São Paulo ficaram entupidas pelo que as mulheres denominaram “A Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Apertando livros de oração e rosários contra o peito, mais de 600 000 pessoas marcharam solene e ritmicamente sob pendões anticomunistas. E enquanto elas marchavam, os jornaleiros nas calçadas venderam centenas de milhares de exemplares de jornais contendo na íntegra uma proclamação de mais de 1 000 palavras, previamente preparada pelas mulheres. É dessa proclamação o seguinte trecho: 

“Esta nação que Deus nos deu, imensa e maravilhosa como é, está em extremo perigo. Permitimos que homens de ambição ilimitada, sem fé cristã nem escrúpulos, trouxessem para nosso povo a miséria, destruindo nossa economia, perturbando a nossa paz social, criando ódio e desespero. Eles infiltraram o nosso País, o nosso Governo, as nossas Forças Armadas e até nossas Igrejas com servidores do totalitarismo exótico para nós e que tudo destrói... Mãe de Deus, defendei-nos contra a sorte e o sofrimento das mulheres martirizadas de Cuba, da Polônia, da Hungria e de outras nações escravizadas”!

 

Um espectador classificou a marcha das mulheres em São Paulo como a demonstração mais comovente da história brasileira. Dias depois, foram organizadas marchas semelhantes para várias das principais cidades do País. Nem todos os esforços do governo para desencorajá-las, nem as ameaças da polícia de dissolvê-las conseguiram deter as entusiásticas cruzadas. 

Guardiães da Legalidade

Mas, para impedir o golpe vermelho, tinha de ser empregada ação mais forte de que demonstrações públicas. Líderes da classe média começaram a conferenciar secretamente com generais anticomunistas do Exército Brasileiro, de longa data desconfiados de Goulart e silenciosamente empenhados em sua própria resistência aos métodos dele.

Para compreender o papel desenvolvido pelos militares na Revolução é mister entender o caráter e as tradições do Exército Brasileiro – uma estirpe ímpar na América Latina.

Tradicionalmente, o Exército tem-se considerado o defensor da Constituição, o guardião da legalidade. Seus generais, ainda ao contrário dos de alguns países latino-americanos, não são oriundos da aristocracia rica, mas das classes média e média inferior. Vários começaram sua carreira como soldados. Assim, não formam uma casta militar, representando antes, talvez melhor do que qualquer outro segmento da população, uma seção transversal da opinião e dos ideais democráticos brasileiros.

Historicamente submetido à autoridade civil, o Exército só interferiu em situações políticas cinco vezes desde a queda da Monarquia, em 1889 – e tão-somente em crises em que o poder civil se desmoronou ou decaiu. Nessas ocasiões o Exército só assumiu a direção o e tempo suficiente para restabelecer os processos constitucionais, afastando-se em seguida. Nunca revelou nenhuma tendência a pegar o poder para si próprio – mesmo quando teria sido mais fácil, e quiçá aconselhável, fazê-lo. Da implantação da República até hoje, só oito dos vinte e cinco presidentes do Brasil foram militares, e esses devidamente eleitos ou nomeados.

Em sua maioria anticomunistas, a desconfiança que os generais tinham de Goulart e seus enredamentos com os extremistas era igualada pela desconfiança que Goulart tinha deles. Confiando em que o respeito à Constituição os impediria de agir, não obstante, Goulart, por medida de cautela, transferiu os comandantes militares e manobrava as promoções de modo a reduzir o poder dos oficiais mais conservadores.

Um desses oficiais, o General Humberto de Alencar Castello Branco, comandava o Exército sediado em Pernambuco, há muito um perigoso foco de agitação social. Quando alguns fazendeiros foram assassinados e muitas famílias fugiram do terrorismo vermelho para as cidades, Castello Branco entrou em ação. Aí, o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, notoriamente radical, queixou-se de que o general Castello Branco estava neutralizando as influências esquerdistas em seu estado. Goulart imediatamente tirou de lá o criador de casos – “promovendo-o” a Chefe do Estado-Maior do Exército. Outros oficiais que se manifestaram contra o comunismo foram analogamente transferidos para cargos burocráticos, enquanto esquerdistas eram levados a posições de comando estratégicas. 

Motim nas Fileiras

Para anular ainda mais qualquer possibilidade de uma revolta de generais anticomunistas, os vermelhos – aparentemente com a conivência de Goulart, trataram de destruir a disciplina das Forças Armadas, quando não estimular o motim declarado. Foi desencadeado entre sargentos e praças um programa de vigorosa agitação, incitando-os a formarem seus sindicatos para reclamar uma alteração na Lei que permitisse candidatarem-se a cargos eletivos – direito franqueado a oficiais, mas não a praças. Para minar mais ainda a ação dos chefes e enfraquecer a disciplina, formou-se uma Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais – levando a “guerra de classes” marxista às classes armadas.

Em 23 de março, com os acontecimentos se avolumando vertiginosamente, Goulart demonstrou abertamente sua simpatia pelo movimento destinado a pôr a pique a disciplina das Forças Armadas. Nesse dia, uns 1 400 sócios da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil amotinaram-se no Rio de Janeiro, abrigando-se na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, controlado por comunistas. Desafiando as ordens de regressarem aos quartéis, os amotinados gritavam alegremente das janelas “Viva Goulart” e apregoavam sua fidelidade a seu comandante, Cândido da Costa Aragão, nomeado por Goulart e conhecidos esquerdistas como “Almirante do Povo”.

Tropas do Exército cercaram e prenderam os rebeldes – que no entanto foram postos em liberdade algumas horas depois por ordem do próprio Presidente. Para grande desapontamento dos militares, Goulart pediu aos amotinados que fossem para seus quartéis, com a garantia de que não seriam punidos e receberiam dispensa no fim de semana. 

O Ministro da Marinha, Almirante Silvio Borges de Souza Mota, abruptamente exonerou o almirante do povo, depois demitiu-se em protesto contra o encorajamento do motim pelo Governo. Goulart imediatamente reconduziu o almirante do povo ao seu posto e a seguir anunciou que o novo Ministro da Marinha seria Paulo Mário da Cunha Rodrigues, um esquerdista conhecido como “Almirante Vermelho”, convocado da reserva nessa emergência. Os amotinados comemoraram ruidosamente a vitória nessa tarde no centro da cidade do Rio, conduzindo aos ombros seu bem-amado “Almirante do Povo”. 

Começo de uma Avalanche

Entrementes, observando sombriamente os acontecimentos de seu gabinete de trabalho no Rio, Castello Branco, o general que fora “promovido”, havia sondado sua consciência legalista e resolvido agir.

Após o comício de 13 de março, Castello branco redigiu uma veemente nota. Quando um presidente se propunha a anular o Congresso e a derrubar a Constituição, argumentava ele, a ação militar em defesa da legalidade não só se justificava, mas era obrigatória. Esse memorando sigiloso foi distribuído a generais de confiança. Como toda correspondência dos oficiais sabidamente anticomunistas era controlada e seus telefones censurados, a circulação do manifesto de Castello Branco foi um problema. Foi resolvido por homens de negócios anticomunistas: estes transportaram exemplares no bolso do paletó, entregando-os pessoalmente aos oficiais certos, e também forneceram homens de confiança para transmitir mensagens entre generais na sua acelerada troca de opiniões.

Ao manifesto de Castello Branco, que circulava secretamente, mais de 1 500 oficiais de Marinha acrescentaram então um deles. Endereçado a todo o povo brasileiro, ele declarava que chegara a hora de o Brasil “se defender”. O Exército prontamente proclamou “solidariedade à Marinha”, o grosso da imprensa aderiu, e na distante Brasília alguns membros do Congresso abraçaram a causa.

Estaria a nação inteira se sublevando? O próprio Goulart pareceu atônito pela extensão da reação pública. Conferenciando às pressas com seu novo Ministro da Marinha, o “Almirante Vermelho”, Jango procurou recuar. Haveria um inquérito sobre aquele motim, anunciou, e, entrementes, o “Almirante do Povo”, Aragão, foi dispensado de seu Comando.

O recuo veio tarde demais – a avalanche havia começado.

Fazendo um último e desesperado esforço par obter algum apoio nas Forças Armadas, Goulart, na noite de 30 de março, foi à sede do Automóvel Clube do Brasil, no Rio, onde uma grande multidão de sargentos do Exército se reunira para homenageá-lo. Mas era demasiado tarde. No momento mesmo em que Goulart sorvia os aplausos dos sargentos e reverberava os “gorilas”, a revolução preventiva já estava em marcha. 

Marcham as Colunas Rebeldes

A primeira conclamação para depor Goulart viera do Governador dos mineiros, Magalhães Pinto. Demonstrações em apoio desse apelo prontamente ocorreram nas ruas, e em 31 de março uma divisão do Exército sediada em Minas e comandada pelo General Olympio Mourão Filho pôs-se a caminho do Rio. Poucas horas depois chegou a notícia de que o general Amaury Kruel, comandante do Segundo Exército, sediado em São Paulo, estava lançando suas forças na luta pela liberdade e enviando um forte contingente para o norte, rumo ao Rio. Nessa altura, soube-se que o Quarto Exército, sediado em Pernambuco e comandado pelo General Justino Alves Bastos, também aderira à rebelião.

À beira do pânico, o Presidente Goulart tomou um avião para Brasília, onde disse aos repórteres: “Vim para aqui a fim de governar o País, e confio em que o povo esteja comigo”. Rapidamente descobriu que o Congresso não estava, e que tropas da guarnição de Brasília se estavam movimentando para atacar o palácio presidencial. Após três horas apenas em Brasília, estava outra vez de volta em seu avião, rumo ao seu Estado natal, o Rio Grande do Sul. O Terceiro Exército, sediado em Porto Alegre, ainda não se definira; seu general-comandante, Ladario Pereira Telles, embora não esquerdista, era leal a Jango. A sua chegada, entretanto, Goulart soube que o Governador Ildo Meneghetti aderira ao levante.

Uma incógnita era o Primeiro Exército, sediado no Rio de Janeiro. Virtualmente preso em seu palácio no Rio, do qual fez sua última barricada, o Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, de longa data acirrado inimigo de Goulart, queria proclamar sua fidelidade à revolução e não podia fazê-lo. O Governo Federal ainda controlava as estações de rádio do Rio e uma greve geral em apoio a Goulart fechara tudo na cidade. As únicas forças de Lacerda eram a Polícia Militar, suas únicas armas blindadas os caminhões de limpeza pública estacionados de modo a obstruírem as ruas que conduziam ao palácio. Ao que se sabia, o Primeiro Exército ainda estava recebendo ordens de Goulart. Desanimado, o Governador soube que Goulart mandara uma coluna em direção a São Paulo, a fim de interceptar a coluna rebelde que avançava. (O que ele e a população carioca só puderam saber mais tarde foi que, quando as duas forças se encontraram, a coluna presumivelmente pró-Goulart logo aderiu aos rebeldes.)

Afinal, em sua única linha telefônica ainda funcionando, o Governador Lacerda conseguiu falar com uma emissora rebelde na distante Belo Horizonte, cujo som podia ser ouvido no Rio. Foi então que sua própria cidade finalmente o ouviu proclamar sua solidariedade à Revolução. Mas quando ainda falava, chegou-lhe um comunicado de que carros de combate do Primeiro Exército rodavam pelas belas e sombreadas avenidas do Rio, a caminho do palácio do Governo. Só quando os carros chegaram ao palácio, foi que Lacerda soube que eles tinham vindo para salvá-lo e não para massacrá-lo. 

Vitória

Pelo meio da tarde de Quarta-feira, 1o de abril, tudo estava terminado, e os lideras da classe média do Brasil estavam nos microfones saudando o colapso do comunismo. Em todas as janelas do Rio esvoaçavam lençóis e toalhas saudando a vitória, e as ruas de todas as grandes cidades do Brasil se encheram de gente alegre e dançando num espírito carnavalesco.

Do Rio Grande do Sul chegou a notícia de que Jango Goulart fugira para o Uruguai. Também escaparam às pressas Brizola, o embaixador de Cuba e chefes graduados dos vermelhos, que dispararam para as fronteiras dos países vizinhos, pularam depressa dentro de aviões rumo a Cuba ou se esconderam em embaixadas amigas de países da Cortina de Ferro.

Navios procedentes da Tcheco-Eslováquia, cheios de mais armas para os revolucionários vermelhos, foram assinalados virando rumo a Havana. E, no Rio, densas nuvens de fumaça subiam dos incineradores da Embaixada Russa, onde grandes quantidades de documentos e papéis foram queimados às pressas.

Como pôde uma nação dividida, de 80 milhões de pessoas, mudar politicamente tão depressa e sem perdas de vidas, em contraste com as carnificinas de circo romano de Cuba, ou da Espanha, onde ambos os lados lutaram tão encarniçadamente durante anos?

O mérito cabe em grande parte ao quadro dos Oficiais do Exército Brasileiro, altamente civilizado, que agiu com tanta lealdade e precisão para pôr cobro à ameaça vermelha de apoderar-se do Governo, pouco antes de chegar ao ponto de derramamento de sangue. Mas como os generais se apressam em admitir, maior mérito ainda cabe aos civis, que, tendo diante dos olhos a lição de Cuba, por mais de dois anos haviam alertado o povo – e no momento culminante deram o sinal aos militares para agirem.

Dois dias depois da Revolução, o Brasil teve um lembrete do que realmente a tornara possível. Dois de abril tinha sido marcado pelas mulheres do CAMDE como a data da “Marcha da Família com deus pela Liberdade”, no Rio de Janeiro. Mas então, com a liberdade conquistada, para que incomodar-se? As mulheres do Rio, todavia, correram aos seus telefones, como suas irmãs de outras cidades haviam feito antes. A marcha teria lugar segundo os planos, mas agora como “marcha de ação de graças a Deus”. Quando até o General Castello Branco, por meio do telefonema de um amigo, aconselhou o cancelamento, temendo violências, dona Amélia Bastos insistiu afirmando: “A marcha demonstrará ao mundo que esta é uma Revolução do povo – um plebiscito em marcha pela verdadeira democracia”.

E assim foi: um oceano de humanidade, totalizando mais de um milhão de pessoas, deslocando-se sob uma tempestade de papéis picados caindo dos arranha-céus ao longo das avenidas do Rio; um exército de paz com bandeiras, dizendo com firmeza e reverência a toda a América do Sul que os brasileiros estavam decididos a permanecer livres.

Este texto foi condensado a partir de uma publicação da revista Seleções do Reader’s, elaborado por Clarence W Hall. A impressão foi feita pela Biblioteca do Exército, sob orientação do CIEx)

 

 

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