Opinião - O Estado de São Paulo
Realizado durante a semana passada na cidade de Belém, com um total de 5.808 entidades e organizações não-governamentais (ONGs) inscritas, das quais 4.193 de países da América Latina, o Fórum Social Mundial começou com passeatas, danças indígenas e cantorias folclóricas, para delírio dos cinegrafistas europeus, e terminou, como os encontros anteriores, com o lançamento de várias declarações, manifestos e cartas de princípios "politicamente corretos", cuja retórica retumbante não esconde a inconsistência que impede conclusões definidoras dos objetivos "novomundistas". Tudo o que foi dito, cantado, encenado e escrito na capital paraense é a repetição da mesma ladainha anticapitalista e antiliberal já entoada em 2001, quando o encontro, concebido por ativistas de uma esquerda cada vez mais festiva para servir de contraponto ao Fórum Econômico Mundial, de Davos, foi realizado pela primeira vez, na cidade de Porto Alegre, com os participantes brandindo o slogan "um outro mundo é possível".

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Entidades indígenas, por exemplo, reafirmaram que os índios não devem ser tratados como "folclore da humanidade". ONGs representantes de camponeses reivindicaram a "democratização" do uso de recursos naturais e criticaram as mineradoras, as hidrelétricas e os megaprojetos de produção de etanol e álcool hidrocarburante. Sindicatos elogiaram "a heroica revolução cubana". O Movimento dos Sem-Terra (MST) e a Via Campesina mais uma vez denunciaram a propriedade privada e o agrobusiness e prometeram resistir às tentativas de "criminalização das lutas populares". E os professores universitários, intelectuais e artistas presentes defenderam "iniciativas de comunicação transformadoras" como alternativa para o que chamaram de "terrorismo midiático".

Na realidade, o Fórum Social Mundial, que não foi realizado no ano passado por absoluta falta de recursos e acabou sendo promovido este ano somente graças ao polpudo apoio financeiro do governo brasileiro, não passa de uma espécie de supermercado ideológico. Como as entidades inscritas insistem em se apresentar como representantes de minorias, os interesses que defendem são muito específicos e as reivindicações que apresentam são setoriais, o que torna difícil, senão impossível, a formulação de propostas concretas e minimamente exequíveis para os problemas sociais e econômicos do mundo contemporâneo.

O Fórum terminou, mais uma vez, sem a votação de resoluções oficiais. Ao tentar justificar esse fato, um dos organizadores do encontro, Cândido Grzybowski, alegou que os participantes decidiram não repetir a "velha política" de definir o que deve ser a prioridade para outros. Mais realista, outro organizador do evento, o sociólogo Emir Sader, não escondeu seu desencantamento. "Há um certo sentimento de frustração em relação ao que o Fórum poderia dizer ao mundo (mas não disse), mas parece que está girando em falso. Onde estão as massas nas ruas mobilizadas pelas ONGs?", perguntou.

Como nos encontros anteriores, o denominador comum dos diversos manifestos, documentos, declarações e cartas de princípios divulgados no final do Fórum foi o nostálgico e surrado repertório de clichês politicamente corretos e de jargões anti-imperialistas dos anos 50 e 60 do século passado. A crise econômica, por exemplo, foi apresentada como atestado do fracasso da "globalização neoliberal". Instituições financeiras e bolsas de valores foram tratadas como "mecanismos espoliadores" do sistema capitalista. E organismos multilaterais foram acusados de serem responsáveis pelo débito dos países pobres.

Além da incapacidade de votar resoluções finais, o que demonstra que os participantes têm dificuldade para definir um "outro mundo possível", o Fórum Social Mundial apresentou outra contradição. Embora os organizadores tenham afirmado que esse tipo de encontro deve ficar distante de governos, o evento de Belém contou com a presença de cinco presidentes. Todos eles fizeram discursos tão previsíveis quanto inconsequentes e quatro chegaram a participar de um constrangedor karaokê, entoando um hino em homenagem a Che Guevara.

Se isso significa que para eles o novo mundo possível é o que o Che ajudou a criar em Cuba, é melhor continuar tentando consertar o velho.

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