Em operação “de cinema”, missão apoiada pelo Brasil resgata o último civil que as Farc mantinham em seu poder para troca de prisioneiros. Senadora volta da selva com mensagem do líder rebelde - Por Silvio Queiroz - Da equipe do Correio
O último político que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) mantinham como refém foi recebido ontem por uma multidão em Cali, no sudoeste do país, e renovou o apelo à sociedade civil para que impulsione um acordo humanitário entre governo e guerrilha para “enterrar o sequestro como arma política”. O ex-deputado regional Sigifredo López, capturado há pouco menos de sete anos, foi entregue no início da tarde a uma comissão humanitária encabeçada pela senadora Piedad Córdoba, depois de uma operação dificultada pelas condições de terreno — “tivemos de pular do helicóptero, foi coisa de cinema”, contou a senadora. Além do ex-refém, ela recebeu uma carta assinada pelo comandante máximo das Farc, Alfonso Cano, que seria “uma oportunidade muito boa para abrir espaços rumo à paz”. (...)

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(...) No mesmo tom de Jara, López também aproveitou as primeiras horas em liberdade para defender um acordo entre governo e guerrilha sobre a troca de prisioneiros. “É a única possibilidade de trazer de volta com vida os 22 militares que estão há 10 anos amarrados a árvores”, argumentou, referindo-se aos oficiais e suboficiais da polícia e do Exército que seguem na selva. “Os soldados da Colômbia não precisam que digamos que eles são heróis, precisam é de ações concretas: eles merecem viver em liberdade, e a única possibilidade de resgatá-los com vida é um intercâmbio humanitário.”
 
Sobrevivente

López é o único sobrevivente do sequestro mais cinematográfico das Farc, que em abril de 2002 capturaram 12 deputados em plena sessão na Assembleia Legislativa de Valle del Cauca, no centro de Cali. Os demais 11 foram mortos em 2007, e o ex-refém confirmou que eles foram executados pelas Farc. Na época, em comunicado, a guerrilha afirmou que os cativos teriam sido vítimas de fogo cruzado em uma operação militar de resgate, embora outros ex-reféns tenham ouvido dos rebeldes a versão de um combate acidental entre unidades guerrilheiras. “Eles jamais mereciam ter sido assassinados, como foram assassinados pelas Farc, às 11h30 do dia 11 de junho.” (...)

 
Memória - Da epopeia à tragédia

A libertação de Sigifredo López foi uma espécie de posfácio para um drama de sete anos, iniciado com uma ação cinematográfica, porém com desfecho trágico para os protagonistas. Em 11 de abril de 2002, um comando de elite das Farc tomou de assalto a Assembleia de Valle del Cauca, em pleno centro de Cali, usando uniformes (roubados) do grupo antissequestro das Forças Militares e simulando uma operação antiterrorista. Enquanto os 12 deputados presentes eram encaminhados para um ônibus, bombas estouravam diante da sede local do Judiciário, confundindo a polícia e reforçando a impressão de uma emergência. Em poucas horas, os reféns estavam nas montanhas.

Pela ousadia e precisão, o assalto à Assembleia de Cali marcou o apogeu da capacidade militar das Farc. Foi celebrada em filme que os rebeldes postaram na internet, com reveladora trilha sonora que exalta “a experiência dos (combatentes) rurais e a inteligência dos urbanos”. Não por acaso, a operação foi planejada e executada sob supervisão direta do homem que asumiu no ano passado o comando político-militar das Farc: Alfonso Cano, na época o principal ideólogo do grupo.

A desmoralização das forças de segurança na terceira maior cidade do país foi uma resposta ao então presidente Andrés Pastrana, que dois meses antes tinha encerrado um processo de paz, justamente depois de outro sequestro. Mas a escalada guerrilheira teve efeito colateral: semanas mais tarde, foi eleito para suceder Pastrana o linha-dura Álvaro Uribe, com a promessa de guerra total. Todo diálogo, inclusive sobre a troca dos reféns por guerrilheiros presos, foi suspenso. E, nos anos seguintes, as Farc sofreram a ofensiva mais dura em 40 anos de conflito.

Sob assédio constante, com suas fileiras infiltradas e as comunicações rompidas, a guerrilha perdeu a capacidade de manter os reféns. Em 11 de junho de 2007, 11 dos 12 deputados de Cali foram mortos, em situação ainda não totalmente esclarecida. Os corpos foram entregues meses mais tarde, e os legistas desmentiram a versão das Farc sobre um tiroteio: as balas atestariam uma execução. (SQ).

 Correio Braziliense

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