Dois integrantes do movimento são indiciados por crime em Pernambuco; comando do MST justifica mortes. Letícia Lins - O Globo
RECIFE. Ainda é muito tenso o clima na Fazenda Consulta, onde, na tarde de sábado, quatro seguranças da propriedade foram assassinados a tiros durante um confronto com trabalhadores rurais ligados ao MST. O delegado de São Joaquim do Monte, Luciano Francisco Soares, indiciou ontem dois líderes do MST por homicídio qualificado. A polícia procurava ontem um terceiro acusado, que teria fugido levando as armas das vítimas e dos sem-terra.

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O coordenador do MST em Pernambuco, Jaime Amorim, afirmou que os acampados "mataram para não morrer" e informou que, na madrugada de ontem, houve novo enfrentamento no qual dois lavradores teriam sido feridos.

Presos em São Joaquim do Monte, a 137 quilômetros da capital, os sem-terra foram levados para a penitenciária Plácido de Souza, localizada em Caruaru, na região agreste. Estão presos Aluciano Ferreira dos Santos, de 31 anos, e Pedro Alves, de 62, que coordenavam o acampamento na Consulta. O primeiro é acusado de ter feito os disparos e o segundo, de ter dado cobertura com armas. Um outro envolvido, conhecido apenas por Romero, está foragido. Ele chegou a ser ferido no confronto, foi atendido em um hospital na cidade de Agrestina - a 154 quilômetros de Recife - e depois fugiu.

Segundo testemunhas ouvidas pelo policial, Romero teria recolhido as armas do crime e também a dos seguranças, colocado em um Corsa branco e desaparecido. Amorim justificou os assassinatos:

- Evitamos um massacre. Aqueles que matamos não eram pessoas comuns. Eram pessoas contratadas para matar, pistoleiros violentos - disse ele ontem de manhã, por telefone, da sede da coordenadoria do MST, que fica na região agreste. E não se preocupou em negar a presença de arma de fogo no acampamento dos sem-terra na Consulta:

- É claro que reagimos com armas de fogo. Íamos usar o quê? Facão? Se não tivéssemos reagido, a chacina teria sido maior. O pessoal apenas conseguiu se defender - alegou.

Segundo o líder do MST, os jagunços eram 15, e o mesmo grupo teria sido contratado por proprietários da Consulta e também da Fazenda Jabuticaba. As duas fazendas vêm sendo reivindicadas há mais de dois anos pelo MST. Na Consulta havia 62 famílias de sem-terra. Na Jabuticaba, agora elas somam 200, porque, segundo Jaime Amorim, as que estavam no local do incidente foram transferidas para a outra fazenda.

De acordo com Amorim, os seguranças vinham impondo uma série de humilhações aos sem-terra, além de fazerem ameaças. Ele disse que a confusão que terminou em chacina foi porque os jagunços teriam tentado matar um dos coordenadores do movimento.

- O pessoal reagiu e foi para cima - descreveu o coordenador do MST, que acusou os "pistoleiros" de serem muito violentos. E disse que entre eles há alguns recrutados entre os quadros policiais do estado.

Os sem-terra haviam sido retirados da Consulta há 15 dias por ordem judicial, mas resolveram acampar outra vez na mesma propriedade, onde foram recebidos pelos seguranças. De acordo com Jaime Amorim, o clima está pesado na Consulta e também na Jabuticaba, que fica próxima à primeira e para a qual os sem-terra se deslocaram.

O delegado informou, porém, que o estopim da crise teriam sido gravações feitas por uma sem-terra, com imagens que mostram seguranças apontando armas para os acampados.

No sábado, os seguranças estiveram no acampamento querendo tomar o material documentado. Começou então um bate-boca entre os sem-terra e os seguranças, até que um deles teria dado um soco no rosto de Aluciano. Irritados, os sem-terra partiram para o confronto. Houve agressões mútuas, luta corporal e tiros. Jaime Amorim disse que a confusão começou ainda na manhã do sábado, que a Polícia Militar esteve no local, mas saiu achando que já estava tudo sob controle.

De acordo com o MST, a Consulta já foi vistoriada há três anos pelo Incra, mas a autarquia ainda não conseguiu desapropriá-la. Já a Jabuticaba não teria sido vistoriada porque faltam documentos que comprovem a propriedade. Nenhum funcionário do Incra foi localizado ontem por telefone para falar sobre o crime. Os proprietários dos dois imóveis também não foram localizados por telefone.

Os quatro seguranças assassinados são José Arnaldo da Silva (40), José Wedson da Silva (26), Rafael Erasmo da Silva (25) e Wagner Luís da Silva (25).

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