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Categoria: Diversos
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 Vinte anos de governos demagógicos destruiram o Rio de Janeiro

Por Márcia Brasil
Bairros cortados pela via expressa registraram, em menos de dois anos, mais de 2.500 mortos por armas de fogo. Usuários cobram mais policiamento na principal porta de entrada do Rio
Rio -
Entre janeiro de 2007 e outubro de 2008, cerca de 2.500 pessoas morreram vítimas de armas de fogo nos bairros cortados pela Avenida Brasil e na própria via. No mesmo período, aproximadamente 2.700 armas de vários calibres foram apreendidas pelas forças de segurança do Estado e da União nesses locais. No levantamento feito por O DIA, que teve como base o banco de dados do site do Instituto de Segurança Pública (ISP), foram consideradas as ocorrências registradas como auto de resistência, homicídio doloso, policiais mortos em serviço e balas perdidas.

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Foram pesquisadas seis Áreas Integradas de Segurança Públicas (Aisp) — divisão geográfica das áreas de atuação das Polícias Civil e Militar — que cruzam os principais pontos da via expressa. Entre as vítimas de homícidio doloso há um percentual reduzido de mortos por armas brancas (facas e canivetes) que não são discriminadas.

Na quarta-feira passada, no trecho da avenida que atravessa a área da 16ª Aisp — região da 22ª (Penha) e da 38ª (Brás de Pina) delegacias de polícia, além do 16º BPM (Olaria) — o fotógrafo de O DIA André Ferreira Azevedo, o André AZ, 34 anos, morreu baleado e atropelado, sem ser socorrido pelos motoristas, em uma tentativa de assalto.

Outras famílias que enfrentaram o mesmo drama se emocionaram com a morte de André e lembraram o pesadelo que já viveram. A dona-de-casa Rosemere Soares da Costa, 40, é integrante de uma dessas famílias. A cada nova vítima da violência na Avenida Brasil, a ferida se reabre. “É como se visse novamente a brutalidade que fizeram com meu irmão”, desabafa. Há sete meses, o administrador Luiz Carlos Soares da Costa foi abordado por um assaltante na Brasil, em Bonsucesso. A vítima foi levada pelo bandido, que trocou tiros com a polícia. Baleado e confundido com um ladrão, Carlos foi arrastado para fora do carro e chegou morto ao hospital. Para Rosemere, a violência, desde então, aumentou.

“Não há policiamento, a via é mal conservada e escura. Cadê o dinheiro dos impostos que pagamos? O caso do André me fez reviver a dor de perder meu irmão”, disse.
Há seis anos, completados ontem, o técnico agrícola Hildeberto Valle Petzold passou pelo mesmo drama de José Eduardo Azevedo, irmão do fotógrafo de O DIA. Assim como ele, que teve que deixar Londres, na Inglaterra, devido à morte do irmão, Hildeberto precisou sair de sua cidade pelo mesmo motivo: seu irmão, o tenente da Marinha Érico Valle Petzold, foi morto na Avenida Brasil, na altura de Manguinhos, ao se recusar a entregar o carro a criminosos que trocavam tiros com a polícia. Ele foi arrancado do veículo e executado. A exemplo de André, Érico também seguia para casa quando foi assassinado.

Coube a Hildeberto a triste missão de reconhecer o corpo do irmão e liberá-lo para que fosse enterrado em Ladário, no Mato Grosso do Sul, terra natal da família. “Não gostamos do Rio. Todas as vezes que vemos notícias da violência na cidade eu lembro do meu irmão, e meus sobrinhos lembram do pai”, diz Hildeberto, que tem um casal de irmãos que ainda moram na cidade.

Policiamento ainda precário

O efetivo disponível para o policiamento dos 116 quilômetros — ida e volta — da Avenida Brasil é, para o próprio secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, insuficiente. A segurança ao longo da via é de responsabilidade do Batalhão de Policiamento de Vias Especiais (BPVE), que mantém apenas oito pontos fixos de patrulhamento ao longo de todo o percurso. Na última semana, os policiais que se mantêm nos pontos fixos — Realengo, Barros Filho, Jardim América (Trevo das Margaridas), Cordovil, Bonsucesso (dois pontos) e no Caju (também dois pontos) — falaram sobre as deficiências dessa estrutura.

De acordo com os agentes, não são permitidos deslocamentos, mesmo que sejam identificadas ocorrências de emergência. Neste caso, é necessário solicitar ao BPVE autorização para deslocar a viatura, ou o envio de mais uma unidade.

Apesar de a segurança pública ser atribuição do governo do estado, há deficiências e carências também atribuídas à administração municipal. Considerado um dos trechos mais perigosos para assaltos e roubos de carros, o Trevo das Margaridas, altura de Jardim América, tem iluminação deficiente e pavimentação em péssimo estado de conservação.

Com a redução da velocidade e a baixa visibilidade, as quadrilhas encontram, nesse trecho, condições ideais para surpreender os motoristas.

Nos dias 19, 20 e 22 foram registrados arrastões para roubo de carros no trecho. Ao longo de toda a Avenida Brasil, há mais de 50 favelas com áreas de fuga e esconderijo para grupos ligados ao tráfico de drogas e às milícias.

Colaboraram Maria Inez Magalhães e Vania Cunha