GOSTO AMARGO

Nivaldo Cordeiro (29/10/2006)

Chego ao escrutínio do segundo turno com um gosto amargo na boca. A apuração do turno anterior havia me dado um alento, pois o PT perdeu feio em São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, embora surpreendentemente tenha ganho na Bahia. Quase derrotamos Suplicy em São Paulo, pondo em seu lugar um genuíno liberal, Guilherme Afif Domingos. Mas confesso que eu esperava uma nova eleição para a definição da Presidência da República no segundo turno. Enganei-me.

Texto completo


Alckmin não soube aproveitar a sua chance e seduziu-se com o discurso fácil da moralidade, que não comoveu o eleitorado em nenhum momento. Sua agressividade foi mais de forma do que de conteúdo. Certo, Lula virou marca consagrada no mercado eleitoral brasileiro e Alckmin era um recém chegado, desconhecido fora de São Paulo, o que lhe dava total desvantagem. Mas havia uma chance real de ganhar se acertasse a alma do povo brasileiro, que anseia pela tradição e pelo alívio do Estado sobre as suas costas. 

O problema é que Alckmin caiu na armadilha ideológica do seu partido. Quando começou a discussão sobre as privatizações houve um divisor de águas e o candidato não atravessou o Rubicão. Viu-se que não havia na sua alma um César. Apequenou-se. Teria sido o momento para afirmar não só a privatização, mas também denunciar a exorbitância governamental, comprometer-se com a redução dos impostos, denunciar aos brasileiros a teratológica dimensão que alcançou o Estado brasileiro. Tinha que denunciar o Foro de São Paulo, a ligação do PT com as FARC e o PCC, pôr para fora os podres mais pútridos do adversário. Acovardou-se? Faltou-lhe senso histórico? Penso que não. Ficou amarrado com a ideologia social-democrata e com os compromissos estatistas de seus companheiros de partido, tão parecidos com os petistas nesse quesito. Desde a origem o PSDB foi cúmplice do PT.

Lula fez a acusação porque a faria do mesmo jeito, ele que, como todo o PT, entende que o PSDB é de “direita”. Alckmin sentiu-se acuado porque reza pela mesma cartilha de Lula, de defesa do Estado grande, agente suposto do desenvolvimento, da modernização, da própria felicidade nacional. Essa tese é um engodo, bem o sabemos, ela que tem destruído as oportunidades e o sonho de prosperidades de gerações sucessivas. Ambos os partidos disputam a mesma faixa que toma a defesa do irracionalismo econômico e político.

Alckmin perdeu para si mesmo e para suas idéias equivocadas. Só derrotará Lula alguém que abrace, como o fez Reagan nos EUA contra os Democratas, o ideal da sociedade aberta, de redução do Estado, de sua regulação e dos impostos. Prevejo que as futuras eleições, se nosso sistema político permanecer aberto, deixarão espaço para quem realmente vier a fazer oposição ideológica sólida. Ao invés de balbuciar como o fez Alckmin diante da acusação de privatista, o futuro candidato deverá afirmá-la com todas as letras, mostrando os seus benefícios para a maioria da população, aquela que trabalha e paga a conta de tudo.

Não me sinto derrotado pela \nderrota de Alckmin, para quem fiz campanha, porque jamais me iludi. Ele não \nrepresenta as minhas idéias. Apoiei porque objetivava o mal menor, a derrota de \nLula. Não deu. Agora marchamos céleres para consolidar aoclocracia , o governo dos sem-vergonha. Que Deus se apiede \nde nosso pobre Brasil. Consola-me saber que não me omiti, não me comportei como um cão mudo diante do lobo que se aproximava.

Nivaldo Cordeiro

www.nivaldocordeiro.org

 

Adicionar comentário