O Estado de S. Paulo

O verão chega ao fim, quase se foi um quarto do ano e o governo continua encalacrado, sem saber como enfrentar uma crise muito maior do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva queria admitir até há pouco tempo. A notícia da demissão de 43 mil trabalhadores pela indústria paulista em fevereiro - 236 mil em cinco meses - foi apenas mais uma indicação da gravidade do quadro. O nível de emprego caiu 2,1%. No mesmo dia, quinta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou as demissões do setor industrial em janeiro, com redução de 1,3% na mão de obra ocupada. Quem quisesse mais informações negativas sobre o setor teria o suficiente para se fartar: 54% das empresas industriais já demitiram e apenas 13% preveem contratações, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Mas o presidente da República parece ter-se incomodado, mesmo, foi com as 4.200 demissões na Embraer. É muito mais fácil fazer barulho com uma empresa bem conhecida, ex-estatal e obviamente financiada (como tantas outras) pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Fácil e possivelmente lucrativo, em termos eleitorais.

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Com essa escala de preocupações, dificilmente o governo poderia ter produzido um plano eficiente para enfrentar a recessão. As ações, desde o fim do ano, foram picadinhas, decididas como respostas a lobbies setoriais. O corte de impostos facilitou as vendas de automóveis. O Banco do Brasil comprou um banco especializado em crédito para o mercado de veículos e o BNDES facilitou a união de dois grandes grupos industriais, como se isso fosse fundamental para sustentar a atividade econômica. Nenhum dos dois negócios foi bem explicado, mas, para o conjunto da economia, os problemas continuam. O mercado externo encolheu, os financiamentos escassearam e os exportadores passam uma fase difícil. O Banco Central tem procurado apoiá-los com a liberação de dólares para empréstimos, mas o Executivo não definiu nenhuma política séria para fortalecer a exportação, ignorando seu efeito multiplicador.

Não há mais como negar a extensão da crise. A economia encolheu no quarto trimestre. Segundo a primeira estimativa do IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu 3,6%. Quando os dados forem revistos, talvez se encontre um número menos feio, mas o dado essencial não será alterado nem serão anuladas, por mágica, as demissões dos últimos meses.

Atropelado pelos fatos, o governo foi forçado a reconhecer uma situação mais grave do que admitia até recentemente. A economia, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, talvez não cresça 4% em 2009. Foi uma notável adesão ao ponto de vista dominante entre as pessoas toleravelmente informadas. Mas e daí? É preciso agir em várias frentes, mas o governo não estava preparado. A crise desmontou rapidamente a previsão orçamentária. A saída mais fácil, mas não a mais prudente, será a redução do superávit primário previsto para o ano - aquele dinheiro posto de lado para o pagamento de juros. Um governo mais habituado à seriedade fiscal teria logo trabalhado para adiar os aumentos salariais programados para este ano - e para os próximos, de fato, porque acréscimos na folha são permanentes. Até sexta-feira não havia, no Executivo, acordo a respeito do assunto. Retirar ou adiar um benefício salarial de 1 milhão de servidores pode custar caro, politicamente. Do outro lado do problema - como criar empregos e ativar a economia - o governo continuava tentando dar uma forma à ideia, também eleitoreira, de construir casas para entregar por preço simbólico a centenas de milhares de famílias pobres. Como é muito mais difícil montar um programa desse tipo do que iniciar uma ação de estímulo à construção civil, a administração federal permanece atolada no planejamento.

Fora dessas ações, nada ou quase nada, além de muito discurso. O presidente Lula não sabe como enfrentar os problemas no Brasil, mas tem muitas ideias de como consertar a economia americana e reordenar a finança internacional. Viajou para os Estados Unidos para dar a receita ao presidente Barack Obama. No dia 2, na Inglaterra, apresentará suas fórmulas na reunião do Grupo dos 20.

A situação do Brasil ficará melhor, é claro, se a economia global se aprumar, mas não tem sentido ficar à espera dessa mudança. A crise global é o maior desafio, mas não desculpa a inoperância do governo brasileiro.
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