Escrito por Cel Cav Gerson Pinheiro Gomes 
A morte é triste, mas gera reflexão. Nos puxa para o mundo real, relembra nossas escolhas, nos confronta com a marcha do tempo que baliza nossa efêmera existência. O sepultamento de meu pai foi de uma beleza raríssima. O cemitério pequenino, em uma colina à beira do mar, parecia tirado de um cartão postal. Todos eram naturalmente levados a apreciar o por do sol, o mar, a praia, as pedras (que afloravam na maré baixa) e a permanecerem reverentemente em silêncio diante do esplendor da natureza.

Texto completo


Adão na passagem de Comando (CPOR/RJ) do filho

A morte é triste, mas gera reflexão. Nos puxa para o mundo real, relembra nossas escolhas, nos confronta com a marcha do tempo que baliza nossa efêmera existência.
 

 

Recebendo a espada de 1º Sargento Fuzileiro Naval

  

 

Embarcando para mais um salto
  

Meu pai havia me pedido para ser sepultado junto aos seus avós, em um local de difícil acesso, em um lugarejo pouco conhecido do litoral do Piauí, chamado Barra Grande. As propriedades particulares bloquearam, ao longo dos anos, o caminho percorrido pelos que enterraram naquelas areias seus ancestrais.

  

Em minhas palavras na Igreja Católica da Pracinha de Barra Grande, lotada de gente humilde, pedi desculpas aos que seriam impedidos de presenciar o sepultamento, em virtude da longa distância a ser percorrida pelas areias da praia.

  

Para minha surpresa, todos me acompanharam ao cemitério. Muitos velhos e crianças, que fizeram questão de seguirem um cortejo fúnebre inusitado: a pick-up do Seu Adão transportando seu corpo pela praia, vagarosamente tracionada pelas 4 rodas para não atolar na areia, seguida em absoluto silêncio por uma pequena multidão. Uma imagem difícil de ser traduzida em palavras.


 

O Sgt de Artilharia dos Fuzileiros Navais Adão Cardoso Gomes
  

Falei ao povo em duas oportunidades: a primeira vez, quando, ainda na Igreja, expliquei o significado das duas flâmulas que pessoalmente icei no mastro que meu pai levantara na frente de sua padaria para, diariamente, hastear a Bandeira do Brasil. Eram as bandeirolas que as Marinhas de todo o mundo utilizam para sinalizar as letras:
B (Bravo)
 e Z (Zulu).

  

O “Bravo Zulu” é uma mensagem de cumprimento ao término de uma missão bem feita, ou uma faina bem realizada, como dizem os marinheiros. Não consegui conter as lágrimas quando, ao compreenderem a mensagem das flâmulas, todos na Igreja se levantaram e aplaudiram, endossando meu gesto. Aquelas pessoas sabiam avaliar com exatidão os 17 últimos anos de vida de meu pai.

   

Por solicitação da comunidade deixei as bandeirolas, honrosamente enviadas pelo Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais em Missão de Paz no Haiti, para permanecerem hasteadas até o próximo sábado, quando a gente simples do lugar celebrará a missa de sétimo dia, conforme o ritual católico.

  

O segundo momento em que fiz uso da palavra foi, junto à sepultura, quando dobrei e entreguei à viúva a Bandeira do Brasil. Eu a havia retirado do mastro em frente da “Padaria do Seu Adão”, para cobrir solenemente o caixão. Uma homenagem justa ao velho Sargento Fuzileiro Naval, que optou por não se tornar cidadão norte-americano, somente para não dividir sua devoção ante o pavilhão de outro país.

  

Que Deus me permita, um dia, encontrá-lo junto ao Senhor dos Exércitos, com a mesma certeza do dever cumprido.


Após mais salto bem sucedido

     

BRAVO ZULU meu pai!

   

Já me encontro no Haiti. Obrigado a todos que me ligaram,  enviaram emails, ou tentaram me localizar em vão nesses últimos dias corridos entre Port-Au Prince e Parnaíba-PI.

   

Um abraço!

  

Gerson

 


(Nota do Editor do site www.sangueverdeoliva.com.br) O Juiz Federal Dr William Douglas (Oficial R/2) achou interessantíssima a história e pediu mais informações sobre o pai do Cel Gerson que assim respondeu: 

 

Caro amigo,

 

O texto que você leu redigi durante o voo de retorno ao Haiti, ontem, a bordo de um C-130 de nossa gloriosa FAB.

  

Meu pai foi um sargento Fuzileiro Naval que, de forma resumida, posso elencar:

 -esteve na primeira turma de Paraquedistas da Marinha formados pelo Exército;
-integrou a primeira turma de Mestres de Saltos formada também no Centro de Instrução da Bda Pqdt do Exército;
-realizou a histórica marcha a pé, do Rio a Brasília, por ocasião da inauguração de Brasília;
- serviu ao País por 25 anos como um militar exemplar.

 

Retornando para o Rio, após 1221 Km percorridos em 22 dias, na inauguração de Brasília

 

 

 

Passou para a reserva e, após alguns anos trabalhando no meio civil, imigrou para os EUA, levando toda a minha família.

  

Depois de 10 anos, todos estavam naturalizados como cidadãos norte-americanos, menos ele. Decidiu permanecer somente com o Green Card, pois se negava a participar da cerimônia de juramento em frente à Bandeira dos EUA.

  

Resolveu retornar ao Brasil para viver no local onde havia nascido. Veio de carro (isso mesmo!!!) de Nova York-Los Angeles-Panamá-(dali colocou o carro em um navio e foi a Venezuela)-voltou pra estrada e foi a Colômbia- Peru-(de balsa foi de Pucalpa-Letícia)-de balsa foi de Tabatinga até Manaus- de navio de Manaus até Belém e daí veio rodando novamente até o Rio. Desconheço outro maluco que tenha feito esse trajeto de carro.

  

Tenho a reportagem do O Globo da época, durante a ECO-92.
 

 

A reportagem de O Globo

  

Fixou residência em Barra Grande, no Piauí, onde resolveu montar uma padaria/mini-mercado/farmácia, pois no local o pão chegava de ônibus em cestos, não havia farmácia e os mercadinhos exploravam a população carente com margens de lucro muito altas.

  

Nos últimos 17 anos foi o médico, delegado e tudo mais que você possa imaginar para aquele povo esquecido. Logo na primeira visita que fiz ao local desisti de falar na padaria sob a ótica de uma atividade econômica. Para ele era um serviço social. Todos os seus empregados tinham carteira assinada (uma anomalia no lugar), instalou um posto de pagamento de contas do governo, um cyber café a satélite, um banco popular, viabilizou a venda de passagens para o transporte coletivo, dentre outras inúmeras iniciativas atreladas à tal padaria do Seu Adão, que, até hoje, é o único local onde a energia elétrica é constante, fruto dos geradores que instalou.


Adão agora é luz!

  

Creio que, agora, você pode entender a multidão que me acompanhou por aquela praia.

  

Um forte abraço!

  

Gerson

 

 

Nota do WebMaster:
Continuo com a minha teoria de que os melhores brasileiros, foram, são e serão sempre anônimos. Aqui se vai mais um, de grande quilate que deixou uma mensagem para o futuro através da honradez de seus descendentes. 

 

Comentários  
#1 Meu Tio, Amigo e HeróiLuiz de França Neto 21-07-2019 18:12
Homenagem muito justa, descrita pelo seu filho Cel. Gerson ao narrar o desbravamento do pai em sua última grande missão pela terra.
Adicionar comentário