De pé: Lixo1, Lixo2, Lixo3.... Agachados: Lixo4, Lixo5, Lixo6

Por João Rubens

Apesar das críticas sistemáticas sobre os métodos utilizados pelas autoridades militares, à época da contrarrevolução de 64, para conseguir informações de interesse da segurança nacional, com intuito de combater os que queriam tomar o poder para implantar um regime totalitário no país, não se pode negar que o tratamento dado aos subversivos terroristas presos foi de natureza branda e até certo ponto humana. Caso as forças democráticas não obtivessem êxito e fossem derrotadas, com certeza o tratamento dado aos defensores legais da pátria, seria bem diferente e se aplicaria sem qualquer pudor os mesmos métodos adotados pelos vitoriosos da revolução cubana, quando por decisão de um tribunal de justiçamento foram executados sumariamente (sem julgamento) milhares de pessoas. A matéria abaixo, que não é de autoria de nenhum militar, é a pura expressão da verdade.

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Por Percival Puggina

Antes de tudo, fiquem entendidos dois pontos: 1º) como todo ser realmente humano sou contra a tortura, seja qual for o lado ideológico maltratado pelos tarados que a aplicam ou permitem; e 2º) não percebo justificativa para que o enfrentamento às esquerdas armadas nos anos 60 e 70 do século passado demandasse duas décadas de governos
autoritários.

Interessado na história daquele período, ouvi falar e busquei assistir o documentário Hércules 56. Trata-se de um longa, do diretor Sílvio Da-Rin, composto por entrevistas, gravações de época e uma espécie de coletiva desenrolada numa mesa de bar. Os participantes são remanescentes dos sequestradores do embaixador norte-americano em 1969 e do grupo despachado para o México, por exigência deles, a bordo da aeronave que dá nome ao filme. Entre outros, depõem, com a perspectiva que lhes permitiu um afastamento que já chega a quatro décadas, Franklin Martins, Vladimir Palmeira, José Dirceu, Flávio Tavares e Paulo de Tarso Venceslau.

Eu assistira antes "O que é isso companheiro?", no qual Fernando Gabeira assume participação importante no sequestro. Em Hércules 56 ele some. Por quê? O diretor, após a estreia em 2006, explicou que Gabeira fora "soldado raso" na operação e jamais teria participado não houvessem os líderes escolhido para refúgio a casa onde ele morava. Em
outras palavras: O que é isso, companheiro Gabeira? Vai procurar tua turminha...

Do conjunto da obra (Hércules 56 é um bom filme), concluí que, hoje, a maior parte dos protagonistas considera o seqüestro e a luta armada como equívocos que estimularam o endurecimento e a continuidade do regime. Escolheram esse caminho por descrerem do jogo democrático (numa de suas falas, contudo, Flávio Tavares, que comparece ao filme
em rápidas entrevistas, se mostra satisfeito por não se haver retraído, como certos políticos da época). Eram militantes, dispostos a morrer pela revolução que julgavam estar fazendo, e sobre cuja existência real, pelo que pude presumir, não têm mais tanta certeza.

Foi exatamente aí que nasceu a observação registrada no título deste artigo: do que escapamos! Imagine, leitor, se, em vez de senhores de meia idade, reflexivos, derrotados mas orgulhosos dos seus ímpetos juvenis como se apresentam no filme, eles tivessem sido vitoriosos, e chegassem ao poder, como desejavam, na esteira do que realizara Fidel partindo de Sierra Maestra. O que teriam implantado no Brasil? Totalitarismo marxista-leninista, expropriações, tribunais
revolucionários e execução de conservadores, liberais, burgueses, latifundiários, empresários, direitistas. E mais, partido único e total absorção da comunicação social pelo Estado. Era o que na época se chamava "democracia popular", regime adotado pelas referências da esquerda mundial.

Não estarei indo longe demais? Não. Assista ao filme e ouvirá Vladimir Palmeira elogiar o chefe do sequestro, Virgílio Gomes da Silva, por lhes ter dito: "Se houver algum problema que, por desobediência a uma ordem minha ou vacilação, coloque em risco a operação, não pensem que vou esperar um tribunal revolucionário. Eu executo na hora". Quem
trata assim os companheiros, como procederá com os adversários? Noutra passagem, os entrevistados respondem à seguinte questão: caso as exigências não fossem atendidas pelo governo, o embaixador seria executado? Foi unânime a confirmação. Palmeira ilustra que essa mesma pergunta lhe fora feita no interrogatório posterior à sua prisão.
Resposta: "Teria executado, sim; eu cumpro ordens". E os cavalheiros, ex-revolucionários, em volta da mesa do bar, riram com ele. Franklin Martins riu mais alto do que todos. E eu ri em casa, feliz por nos termos livrado de seus planos na hora certa.

Revista Voto, edição de março de 2009
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