(Osmar José de Barros Ribeiro, em 12 Jan 2020)
O autor da autocrítica, Cristovam Buarque, foi governador do Distrito Federal (1995-1989) e senador por dois mandatos (2003-2011 e 2011-2019). Recentemente publicou o e-book (Porque falhamos: o Brasil de 1992 a 2018). Trata-se um político dotado de uma boa dose de honestidade intelectual, coisa rara no meio e quase impossível de encontrar entre os petistas.
O autor considera que os governos “progressistas” que lideraram o Brasil durante 26 anos falharam ao não darem nem coesão nem rumo ao País e a prova é a existência de 12 milhões de adultos analfabetos, a falta de saneamento básico para 100 milhões de brasileiros, a manutenção da pobreza, a concentração da renda, a deficiência da educação e o baixo Índice de Desenvolvimento Humano. Ou seja, em 26 anos, pouco foi feito para unir e desenvolver o Brasil.



A economia em recessão e o desemprego em níveis alarmantes são heranças petistas que o autor busca dividir com os governos anteriores. Na verdade, ao longo do período em que o Partido dos Trabalhadores (PT) tornou-se hegemônico, houve o crescimento da radicalização política, da violência urbana e da corrupção, em todos os setores da vida nacional. E a falha maior, segundo o autor, foi política, ao levar os eleitores a escolher, na última eleição presidencial, um caminho radicalmente diverso daquele que era seguido até então.

O PT seria o primeiro partido político “progressista” a chegar ao poder, mas que se acomodou como “democrata conservador”, seguindo o exemplo dos seus antecessores. E o que se viu foi um total descalabro, levando-nos ao esgotamento moral, financeiro e gerencial ao dar continuidade e agravar os velhos e nefastos hábitos do patrimonialismo brasileiro.

Sendo conhecido como educador, Cristovam Buarque enfatiza que deixar cada criança para trás é deixar o Brasil para trás. Continuamos tratando educação como um direito de cada brasileiro, e não como o vetor do progresso de todos.... Falhamos por não termos a ousadia de propor o caminho para construir responsavelmente um país onde os filhos dos pobres estudem em escolas com a mesma qualidade dos filhos dos ricos. Preferimos vender a ilusão de que os filhos dos pobres ingressarão nas universidades mesmo sem acesso a uma boa educação de base.

A célebre e pouco comentada “vontade política” do ex-presidiário que buscava fazer com que os incautos acreditassem nas falsas narrativas de marqueteiros pagos a peso de ouro para escamotear a verdade, levaram à corrupção para financiar campanhas eleitorais e ao enriquecimento de não poucos próceres petistas e seus aliados. E prossegue Cristovam: ... a corrupção foi a maior de nossas falhas: privataria, mensalão, petrolão são vocábulos de nosso tempo no poder. Não apenas na corrupção do comportamento, também a corrupção nas prioridades dos estádios antes das escolas, das obras inacabadas; a corrupção das mordomias e privilégios que ampliamos em vez de eliminar. ... Nossos intelectuais silenciaram na crítica à corrupção, seja no comportamento dos nossos políticos corruptos, seja de nossas prioridades. ... O que o stalinismo fez com o uso da força, nós fizemos pelo aparelhamento de nossa inteligência.

Para Cristovam, o PT foi eleito para reformar o Brasil e ficou contra todas as reformas. Não reformou o Estado mas aumentou as mordomias e os privilégios. E, implacável, conclui que Nenhuma reforma fizemos no sistema financeiro e bancário; não reformamos o injusto, complicado e vulnerável sistema fiscal; mantivemos a maior carga fiscal e os piores serviços públicos da história; não tocamos no complicado e comprável sistema de justiça
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Este é o retrato sem retoque, nas palavras de um filiado honesto e coerente, do triste final, promovido pelo PT, de pouco mais de duas décadas de governos “progressistas”.

Osmar José de Barros Ribeiro
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