Em Katyn, em cartaz a partir de amanhã, Wajda reconstitui o massacre perpetrado pelos soviéticos e atribuído aos nazistas - Por Luiz Carlos Merten
No ano passado, Andrzej Wajda mostrou fora de concurso, no Festival de Berlim, um dos trabalhos mais ambiciosos da fase recente de sua carreira, Katyn. Este ano, o mestre polonês voltou à Berlinale participando da competição, e ganhou um prêmio por Tatarak, um relato intimista (e metalinguístico) adaptado do romance de Jaroslaw Iwaszkiewicz. Grande Wajda - ao longo de sua carreira de mais de 50 anos, o nome do diretor virou sinônimo de cinema político e foi isso mesmo que Jane Fonda disse ao lhe entregar o Oscar honorário que ele ganhou da Academia de Hollywood, em 2000. A Passionária de Hollywood, a grande contestadora dos anos 70, curvou-se diante de Wajda e o chamou de Sr. Política (Mr. Politics). A política realmente dá o tom das obras de Wajda que marcaram o cinema polonês e mundial - Kanal, Cinzas e Diamantes, Terra Prometida, O Homem de Mármore, Sem Anestesia, O Maestro, O Homem de Ferro. A provocação volta com Katyn.

Texto completo e trailler

 
Em Berlim, Andrzej Wajda contou como foi obcecado, durante anos, por contar essa história sinistra sobre como um massacre de oficiais do Exército polonês foi atribuído aos nazistas, durante a 2ª Guerra Mundial, mas na realidade o crime foi cometido pelos comunistas que já estavam preparando o caminho para a tomada do poder, após a guerra. Há um totalitarismo do partido (comunista) contra o qual Wajda se insurge em seus filmes. O Maestro, O Homem de Mármore tratam disso. Em O Homem de Ferro, o cineasta tomou o partido de Lech Walesa e do sindicato Solidariedade (e o filme foi recompensado com a Palma de Ouro em Cannes). Katyn retira seu título da floresta da Rússia em que o crime foi perpetrado, em 1940. (Leia texto no quadro.) Durante décadas, o assunto foi tabu na Polônia. Somente depois de 1990, quando Mikhail Gorbachev se desculpou oficialmente, os poloneses puderam questionar abertamente o que havia ocorrido com suas lideranças.

Wajda explicou em Berlim, a um grupo de jornalistas, porque queria contar tanto essa história. "Perdi meu pai em Katyn, quando ainda era garoto (NR - o cineasta nasceu em 1926) e essa história terrível era um segredo de família que nos devastava." A ausência do pai foi fundamental em sua vida e se reflete na obra, habitada por mulheres marcantes como a mãe que lhe serviu como farol. Apesar do envolvimento pessoal, Wajda tentou fazer o filme com objetividade - com isenção, seria impossível. "Nunca pensei nessa história como uma "memoir" de meu pai. Para mim, deveria ser um thriller político, para atingir o maior número possível de espectadores." Ele explicou que as restrições da censura oficial não foram o único empecilho à realização do filme. "O formato que eu queria não facilitou as coisas. Queria contextualizar o massacre num quadro amplo, contando a história desses oficiais e suas famílias e também tentando situar o que ocorria na Europa, na época. O roteiro foi escrito a partir de cenas selecionadas e diálogos extraídos de diários e da correspondência trocada entre os oficiais e suas famílias. Quis ser o mais exato possível, quase documentário, embora o que me interesse seja a ficção."

O filme começa com o Pacto Molotov-Ribbentrop, entre alemães e russos, que na guerra viriam a se tornar adversários. O jovem oficial Andrzej não atende aos pedidos da mulher e, no caos reinante - os poloneses ficam imprensados numa ponte, acossados pelos alemães numa ponta e pelos soviéticos na outra -, permanece ao lado dos companheiros de Exército, classificados como prisioneiros de guerra. Alguns personagens são reais - a mulher do general Smorawinski, o professor da Universidade de Cracóvia e sua esposa, mas a maioria é formada por uma combinação de figuras reais e fictícias, como o major russo Popov, cujo nome e passado são autênticos, mas sua participação na trama é uma especulação." Stalinistas de carteirinha poderão reclamar do formato tradicional, que transforma Katyn num filme de guerra em que o holocausto é redirecionado - os alemães são substituídos por comunistas e os judeus, por católicos poloneses.

Se a montagem do roteiro foi complicada, a financeira foi mais complicada ainda. "Foi difícil conseguir parceiros internacionais. Mesmo a França foi reticente. Natural, pois estava implicada." Para enfatizar a estrutura ?clássica? do seu relato, Wajda reserva para o desfecho a reconstituição do massacre dos 14 mil poloneses prisioneiros de guerra, entre oficiais e civis, executados pela NKVD, a polícia política soviética. É brutal. Existem ecos de Cinzas e Diamantes, o clássico de 1961 em que Zbigniew Cybulski faz um mercenário contratado pela direita polonesa para matar um líder comunista. Aqui, o caminho é de certa forma inverso, mas o retrato de época expõe a realidade de um país dividido, como era a Polônia da 2ª Guerra. O desfecho, como diria Shakespeare, é puro silêncio. Wajda, pintor, homem de teatro e cinema, queria terminar Katyn sob o signo dessa gravidade. "É o filme sobre a morte de uma nação, ou pelo menos dos sonhos de toda uma geração, que repercutiu pelas gerações seguintes." Sabendo que seu material era pura dinamite, o cineasta estava cauteloso no ano passado. Haviam políticos russos interessados em vincular o lançamento à data de aniversário de Josef Stalin, para criticá-lo. Wajda não concordou - "O filme é verdadeiro e necessário, mas também conta uma experiência muito íntima. Não quero servir como massa de manobra." Neste ano, em Berlim, ele admitiu que Katyn não obteve metade da repercussão política - nem na Polônia - que ele esperava. Sinal dos tempos. "As pessoas e o próprio cinema atual temem a política, infelizmente."


A história real

Durante décadas, entre 1940 e 90, o assunto era tabu, tratado como segredo de Estado. Em plena 2.ª Guerra, 14 mil poloneses prisioneiros de guerra, entre oficiais do Exército e lideranças civis, incluindo políticos e intelectuais, foram mortos pela polícia secreta soviética, a NKVD, na floresta de Katyn, onde os corpos foram enterrados em valas comuns.

Durante anos, famílias inteiras esperaram pelo retorno de seus familiares. Quando o massacre foi descoberto, em 1943, as autoridades o atribuíram aos nazistas e o jornal Pravda chegou a sugerir que era uma limpeza de arquivo - os mortos seriam poloneses que colaboravam com o Exército invasor de Adolf Hitler. Em 1952, uma comissão do Congresso dos Estados Unidos investigou o assunto e apontou para a responsabilidade da URSS. Moscou reagiu acusando os norte-americanos e dizendo que era manobra da Guerra Fria.

Nos quase 40 anos seguintes, as tentativas de estabelecer os fatos esbarravam na censura oficial e até na repressão. Em 1990, Mikhail Gorbachev admitiu o crime e pediu, oficialmente, desculpas ao povo polonês.
 
 
 

Andrzej Wajda renova seu embate com o stalinismo

Diretor polonês faz um drama de guerra sóbrio, com cenas impressionantes e amparado em inserções documentais

Crítica Luiz Zanin Oricchio

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Katyn é um drama de guerra sólido, embora um tanto careta do ponto de vista da linguagem cinematográfica. Lógico que essa passa a ser uma questão secundária, dado o interesse daquilo que o veterano diretor polonês tem a dizer. Por uma vez, temos um episódio da 2ª Guerra que não envolve diretamente o Holocausto. Mas temos um genocídio, o dos oficiais poloneses, ora atribuído aos nazistas ora ao exército soviético.

Sempre é muito difícil escapar dessas dicotomias em filmes do gênero, mesmo nos melhores, sobretudo porque as situações de guerra em geral ficam pouco claras para os participantes. Carl von Clausewitz chamava a esse fenômeno de "a névoa da guerra", expressão aliás usada como título de um filme que tem o secretario de Estado americano durante a Guerra Fria, Robert McNamara, como protagonista. O que não quer dizer que não se possam identificar heróis ou vilões mesmo em meio a esse fog sinistro. Mas as nuances parecem, nesses casos, mais presentes que contornos nítidos. Desse modo, a tendência do cinema é simplificar, para que não caibam dúvidas. E há aqui outro ponto: se é difícil distinguir com clareza heroísmos e vilanias dos oponentes, há uma vítima clara da guerra, e esta é facilmente identificável: a população civil.

Esse mesmo Clausewitz a que nos referimos é autor do clássico Da Guerra e autor da frase famosa sobre a guerra como continuação da política por outros meios. Uma visão fria, porém racional. Se quisermos entender as guerras temos de compreendê-las como atos da política, isto é, de busca pelo poder. Se quisermos nos compadecer das vítimas, podemos dispensar esse esforço, pois os horrores da guerra são bem claros.

A opção de Wajda é muito clara. Ele deseja levantar o véu de uma ignomínia e dirige seu filme dessa forma. As cores são sóbrias e discretas. A música de Penderecki empresta tom solene e angustiante ao relato. A brutalidade da morte aparece com nitidez na sequência mais forte do filme, o das execuções em série, como num matadouro de gado. Por fim, as inserções documentais - filmes de época, com as imagens da vala comum de Katyn - emprestam a credibilidade ao relato. É a força adicional que recebem os filmes históricos quando são, como este, "baseados em fatos reais". Convidam o espectador a nunca esquecer que, se o filme é uma encenação, ele o é de algo que realmente aconteceu, ainda que alguns personagens sejam fictícios e, outros, sínteses de pessoas reais com imaginárias.

A questão trabalhada por Wajda é, no fundo, muito simples. Não se trata mais de atacar o nazismo em obras sobre a 2ª Guerra, pois Hitler e sequazes são cachorros mortos da História. É preciso ver, em especial do ponto de vista polonês, a outra praga, stalinista, que se abateu sobre a Polônia com a vitória aliada. Essa a tragédia da Polônia, espremida entre potências. Por isso, uma personagem diz, em alto e bom som, que o país jamais seria livre.
 

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