Ex-governador foi ouvido pela primeira vez na Justiça como delator e não será mais filmado ao depor
OGlobo - Juliana Castro
10/02/2020 - 16:11 / Atualizado em 10/02/2020 - 17:18
RIO — O ex-governador do Rio Sérgio Cabral presta depoimento nesta segunda-feira ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio. No início da audiência judicial, Cabral confirmou, pela primeira vez, que sua esposa, a advogada Adriana Ancelmo, sabia da existência de seu "caixa paralelo" formado a partir de dinheiro público desviado da administração estadual fluminense.
— Ela sabia do caixa paralelo, sabia que meus gastos eram incompatíveis com a minha receita formal — afirmou o ex-governador.
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Cabral disse ainda que a mulher "usufruiu" largamente desse caixa. O ex-governador confirmou as acusações dos procuradores. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), Cabral ocultou cerca de R$ 4 milhões desviados com a ajuda do empresário Italo Garritano, dono do restaurante japonês Manekineko. O processo teria ocorrido por meio do escritório de advocacia de Adriana Ancelmo em 16 oportunidades entre 2014 e 2016.

Terceira a depor na mesma audiência, Adriana Ancelmo reafirmou o que já havia declarado em um processo anterior, em que negou o esquema de uso de seu escritório e afirmou que a relação com a rede de restaurantes envolvia prestação de serviços. Em nota, o advogado da Adriana Ancelmo, Alexandre Lopes, atribuiu as declarações de Cabral ao desespero diante das condenações, que somam mais de 280 anos.

“Não vejo como possível levar a sério esse novo depoimento de Sérgio Cabral. Se ele sequer mencionou o fato à Polícia Federal, ao que se sabe, em sua delação, passa-se a ideia de que o ex-governador quer se posicionar como um colaborador da Justiça, confessando tudo o que lhe for perguntado, a fim de auferir benefícios que nem mesmo o Supremo Tribunal Federal concedeu. Parece desespero pelos quase 300 anos de pena ja impingida", diz a nota.

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Esta é a primeira vez que Cabral é ouvido como delator, já que o acordo de colaboração dele com a Polícia Federal foi homologado pelo ministro Edson Fachin, mesmo a contragosto do Ministério Público Federal (MPF). Com isso, ele será mais filmado nos depoimentos, procedimento adotado com delatores e que valeu para o ex-governador na oitiva de hoje. Bretas até brincou com a situação ao falar para Cabral sentar de costas para a câmera, dizendo que ele foi "promovido".

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Logo no início, o MPF falou que a validade e a chancela do selo de colaborador só serviria quando fatos do processos fossem elucidados. Bretas, então, disse a Cabral:

— O MPF não ter sido parte não desnatura a colaboração. Ainda assim é uma colaboração e o senhor será tratado dessa forma.

Entenda as acusações do processo
O juiz da 7ª Vara Criminal do Rio aceitou em outubro de 2018 a denúncia. O MPF acusa o ex-governador, Adriana Ancelmo, o então sócio dela no escritório de advocacia, Thiago Aragão, e o dono da rede Manekineko, Italo Garritano, pelos crimes de lavagem de dinheiro, entre 2014 e 2016, e pela ocultação de cerca de R$ 4 milhões desviados dos cofres públicos. O grupo teria emitido notas fiscais falsas relativas a serviços prestados pelo escritório de Adriana ao restaurante japônes.

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Garritano repassava, por meio do pagamento de boleto, dinheiro ao escritório de Adriana Ancelmo para que eles pagassem os funcionários de seu restaurante. Isso para evitar, como vinha ocorrendo, que o estabelecimento fosse alvo de mais ações trabalhistas por conta dos pagamentos "por fora" dos salários dos empregados. Como delator, Garritano se comprometeu a pagar 36 parcelas de R$ 50 mil em multas.

Além do crime de lavagem de dinheiro, a mulher de Cabral, seu ex-sócio e Garritano, que se tornou delator, também são acusados de terem falsificado documentos públicos. Eles teriam fraudado carteiras de trabalho de funcionários com intuito de desonerar-se do pagamento de encargos e direitos trabalhistas, segundo o MPF. Em delação premiada, Garritano explicou ao MPF como parte do dinheiro do esquema era lavado por meio do escritório Ancelmo Advogados, em que Aragão era sócio de Adriana.

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