Fazendo justiça a Calabar, um patriota que foi desonrado, como tantos outros
Assim como Tiradentes, Calabar foi morto e esquartejado - 
SeSbastião Nery
A mãe era índia da tribo Tupi, tinha nome bonito, Ângela Álvares, e “possuía fartos haveres”. O pai, ninguém nunca soube. Certamente um padre. “Caboclinho mestiço, mulato, não tinha boa presença e possuía feições grosseiras”. Educado pelos jesuítas de Olinda, “dominava outras línguas. Culto, ambicioso, inteligente, prospero senhor de engenho, possuía três grandes engenhos cobertos de cana de açúcar”.

{jcomments on}Domingos Fernandes Calabar, jovem, valente, “primeiro herói brasileiro” (nasceu em 1600 e morreu em 1635), entrou para a História do Brasil pela porta dos fundos. Como traidor. Uma brutal mentira da História oficial. Napoleão já dizia que a História é a crônica dos vencedores.

FAZENDO JUSTIÇA – Mas sua terra começou a lhe fazer justiça. O prefeito Carlos Eurico Leão e Lima oficializou o orgulho dos conterrâneos, na entrada da cidade: – “Porto Calvo, terra de Calabar”.

Os poetas sabiam. José Bonifácio, o Moço (1827-1886), tinha avisado: – “Oh, não vendeu-se, não! / Ele era escravo / do jugo português. / Queria a vingança. / Abriu sua alma às ambições de um bravo”.

O também alagoano Jorge de Lima (1895-1953) confirmou: – “Domingos Fernandes Calabar / eu te perdôo! / Tu não sabias / decerto o que fazias, / filho cafuz / de Sinhá Ângela do Arraial do Bom Jesus. / Combateu. Pelejou. Entre a batalha / viu essas vidas que no pó se somem. / Enrolou-se da Pátria na mortalha, / ergueu-se – inda era um homem”!

ELOGIO DA TRAIÇÃO – E, apesar da censura da ditadura, que vetou a peça “Calabar, O Elogio da Traição”, as músicas e versos de Chico Buarque e Ruy Guerra continuam ai, belíssimos, imortais, em um dos mais fortes instantes da música e do teatro do país.

Subir os 20 quilômetros de rio que ligam o mar de Alagoas, em Porto de Pedras, a Porto Calvo, define a loucura das nações, com a Holanda invadindo e Portugal e Espanha, que chegaram antes, defendendo um mundo, vasto mundo, que era só mato e índio, mas com ricas terras para cana de açúcar.

CERCO A SALVADOR – Em abril de 1624, “26 navios com 3.500 holandeses cercam e invadem Salvador, na Bahia, encontram apenas o governador Diogo de Mendonça Furtado e familiares, mas não foram alem dos muros da cidade, encurralados pelos guerrilheiros do arraial do Rio Vermelho, sob a chefia do bispo Dom Marcos Teixeira. O almirante Willekens voltou à Holanda, o coronel Van Dorth morreu vitima de emboscada, o comandante Schouten faleceu por excesso de bebida, substituído pelo irmão Willem, igualmente dado à embriaguez. Em abril de 1625, poderosa armada luso-espanhola reconquistou a Bahia. Em fevereiro de 1630, os holandeses voltaram com 67 navios e 7 mil homens, mas para Olinda e Recife. O governador Matias de Albuquerque não pôde resistir, construiu o Arraial do Bom Jesus, onde, recorrendo a guerrilhas, ficou até 1635 e se retirou para as Alagoas” (EB).

MELHORAR A TERRA – Calabar durante anos foi um comandado de Matias Albuquerque. Quando o general espanhol Bagnuolo veio inesperadamente da Espanha para substituir Matias de Albuquerque, Calabar mandou uma carta para Matias de Albuquerque, voltou para Porto Calvo e se aliou aos holandeses “sem querer recompensa nem coisa alguma, mas para melhorar minha terra, que não tem liberdade de espécie alguma, e com a mesma sinceridade e o mesmo ardor com que me bati pela vossa bandeira, me baterei pela bandeira da liberdade do Brasil, que agora é a holandesa; tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o da minha consciência de verdadeiro patriota; como homem tenho o direito de derramar meu sangue pelo ideal que quiser escolher”.

ESCOLAS E TEATRO – “Porto Calvo na época possuía até escolas e teatro. Os holandeses já haviam ocupado o povoado, subindo o rio por Porto de Pedras, com 25 navios e 4 mil homens. Em julho de 1635, chegaram os espanhóis e portugueses e, na batalha de Porto Calvo, derrotaram os holandeses, tomaram o forte do Alto da Força, enforcaram Calabar, esquartejaram-no, colocaram seus pedaços nas arvores das principais ruas do centro do povoado e foram embora. Os holandeses voltaram por Barra Grande, em Maragogi, recolheram os pedaços de Calabar, o enterraram na Igreja Nova, hoje Matriz de Nossa Senhora da Apresentação e obrigaram a população a lavar as ruas por onde ele passou”.

Mas não só Calabar orgulha esta histórica cidade. Aqui nasceu e lutou, ao lado dos portugueses e espanhóis, a primeira Anita Garibaldi, Clara Camarão, que aos 16 anos se casou com o guerrilheiro Felipe Camarão, nascido no Rio Grande do Norte, sempre montada no seu cavalo branco.

ZUMBI DOS PALMARES – Também aqui nasceu Zumbi, o herói negro de Palmares, para onde fugiu à frente de 40 escravos negros vindos da Guiné. Como Calabar, criado por um padre, entre a casa paroquial e a sacristia.

E acabou vivendo no quilombo com Maria, que se acredita filha de uma irmã do fundador da cidade, capitão Cristóvão, com o padre Gurgel, pároco de Porto Calvo.

É a História do Brasil que não se conhece.

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