No almoço de solidariedade ao Cel Ustra, hoje, 21/11/06, estiveram presentes, segundo o dono da Galeteria Gaúcha, da ordem de 420 pessoas.  Compareceram militares da reserva das Forças Armadas , inclusive 70 generais, um ministro civil do STM, vários civis e muitas senhoras. Abaixo as palavras proferidas pelo Cel Ustra, agradecendo a homenagem. 

Minhas senhoras e meus senhores...

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Em primeiro lugar desejo agradecer a presença do senador, governador, ministro e, acima de tudo, Cel do Exército Brasileiro, Jarbas Passarinho.

Sei do sacrifício a que ele se impôs, devido aos problemas de saúde que enfrenta, para estar aqui presente.

Nesse momento difícil que nós, seus companheiros de armas, estamos atravessando, as suas palavras sábias, alicerçadas pela sua liderança inconteste, constituem um alerta à Nação sobre os rumos do nosso país.

A sua inteligência, a sua prudência, a sua coerência, a dignidade com que sempre se portou ao longo da sua vida pública, e a sua elevada estatura moral, levaram os organizadores desse ato de solidariedade a fazer nossas as suas palavras. 

Desejo agradecer ao Cel Rodrigo Octávio César Jordão Ramos, o idealizador desse evento, aos generais Edson Machado e Valter Bischoff,, bem como ao meu irmão Cel Renato Brilhante Ustra e ao Cel Aluisio Madruga de Moura e Souza, membros da Comissão Organizadora, que muito trabalharam para o êxito   desse almoço. 

É imperioso ressaltar a presença do Dr Luis Carlos de Almeida Prado,  e do Dr. Antonio José Ribas Paiva e senhora, que vieram de São Paulo, unicamente, para se solidarizarem conosco. 

Finalmente, emocionado, agradeço a todos os meus amigos civis e militares e suas esposas que estão aqui trazendo a sua tão importante solidariedade. 

Como os senhores sabem estou sendo processado pela 23ª Vara Cível de São Paulo, acusado de, como Comandante de uma unidade militar, o  DOI/CODI/II Ex, ter cometido atos de tortura contra a família de Maria Amélia Teles, incluindo seus dois filhos que na época tinham 4 e 5 anos.

Ao final de dezembro de 1972, a gráfica clandestina do PCdoB foi localizada e ‘estourada’. Os responsáveis por esse ‘aparelho de imprensa’ eram Maria Amélia Teles e seu marido César Augusto Teles. Na ocasião, estavam com eles os dois filhos do casal - Janaína, de 5 anos, e Edson Luis, de 4 anos, além de Criméia Schmidt de Almeida, irmã de Maria Amélia, que se fazia passar por babá das crianças. Os adultos foram presos e as crianças, como não poderiam ficar sozinhas na casa, foram conduzidas para o DOI.

Ao chegarem, entrevistei o casal e lhes disse que as crianças não poderiam permanecer naquele local. Perguntei se tinham algum parente em São Paulo que pudesse se responsabilizar por eles. Responderam que as crianças tinham tios em Minas Gerais. Pedi o telefone deles para avisá-los do que acontecia e indagar se poderiam vir a São Paulo para receberem os dois filhos do casal. Feito o contato, esses familiares pediram alguns dias de prazo para viajar à capital paulista. Decidi que, enquanto aguardávamos a chegada dos tios, as crianças permaneceriam sob o cuidado do Juizado de Menores. Nesse momento, Maria Amélia e César Augusto pediram para que seus filhos não fossem para o Juizado. Uma policial militar, que assistia ao diálogo, se ofereceu para ficar com Janaína e Edson Luis até a chegada de seus tios, desde que os pais concordassem com o oferecimento, o que foi aceito na hora pelo casal. Movido mais pelo coração do que pela razão, achei que essa era a melhor solução. As crianças foram levadas para a casa da agente. Para que não sentissem a falta dos pais, diariamente eram conduzidas ao DOI para ficar algum tempo com eles. Isso se repetiu até a chegada dos parentes. Nesse dia, Janaína e Edson Luis foram entregues aos seus tios, na presença dos pais.

Em abril do corrente ano, fui surpreendido com uma Notificação Judicial onde, em uma extensa acusação de 46 páginas, eu era acusado dos crimes de tortura, seqüestro, cárcere privado dessas crianças e de tortura de seus pais e de sua tia Criméia. 

Ao receber essa Notificação, deu-me o Magistrado o prazo de 15 dias para a minha Contestação. Caso isso não ocorresse, seria declarado culpado. 

A minha primeira preocupação foi de, por intermédio de seus assessores, informar ao Comandante do Exército, Gen Francisco Albuquerque, pois eu era o primeiro militar que eles tentavam processar por tê-los combatido.

Após 8 dias de espera recebi a resposta de que o do General nada faria a respeito. 

Durante os 7 dias que me restavam procurei um advogado, em São Paulo, que aceitasse fazer a minha defesa.

Com a ajuda do meu amigo Dr David dos Santos Araújo, Delegado de Polícia de São Paulo, meu antigo comandado no DOI, onde com bravura desempenhou suas funções, em poucas horas fui colocado em contato com o Dr Paulo Esteves, um dos maiores criminalistas de São Paulo, que aceitou fazer a minha defesa. No dia seguinte, já estava na capital paulista, para que o Dr Paulo Esteves, em 5 dias, apresentasse a minha Contestação. A esse bravo companheiro, que não me deixou só num momento tão difícil, rendo aqui a minha homenagem. 

Em outubro desse ano recebi uma Carta de Intimação para comparecer perante o Juízo da 23ª Vara Cível, em São Paulo, no dia 08/11/2006, às 1415 horas, a fim de participar da audiência de Instrução, Debates e Julgamento. 

Viajei a São Paulo e no dia marcado estava pronto para ser submetido ao julgamento. Às 12 horas, encontrava-me no escritório do meu advogado, quando tomamos conhecimento de um despacho do Juiz que assim dizia: 

“Como os autores renunciaram à colheita do depoimento pessoal do réu, não vê o Juízo fundamento para aplicar o art 342 do CPC. Portanto essa prova não será acolhida”.

Por manobras jurídicas não fui ouvido, aqui em Brasília, por Carta Precatória. 

Meus acusadores queriam a minha presença no Tribunal no dia do Julgamento e ao mesmo tempo não queriam o meu depoimento.

Estava montado o circo para que eu fosse execrado publicamente.

As TVs já tinham instalado os seus equipamentos, mais de 90 militantes, organizados, me aguardavam. Cerca de 30 repórteres e fotógrafos, ansiosamente, esperavam a minha entrada no Tribunal. Tudo estava montado para que as TVs exibissem nos seus noticiários da noite e os jornais no dia seguinte, em manchetes, o coronel torturador, afinal sendo julgado.

Nessa triste hora, ao meu lado, estava a minha querida mulher, Joseíta, essa dama de ferro, que com sua garra, com sua inteligência e acima de tudo com o seu amor, está sempre ao meu lado. Ela fez questão absoluta de junto comigo pisar na arena daquele circo vergonhoso.  

Além da Joseíta, lá estavam comigo alguns dos meus antigos comandados do DOI  até o Nei, filho de um oficial amigo nosso. 

Todos os senhores foram testemunhas das chamadas nos telejornais da noite desse dia, onde se sobressaiam as do Jornal Nacional, da Globo, onde eu era chamado claramente de coronel torturador, apesar de nenhum tribunal ter me condenado.

Imagino o constrangimento que minhas filhas Patrícia e Renata, devem ter sentido ao verem as fotos de seu pai, mostradas a milhões de telespectadores, de modo vil e desumano, baseadas, tão somente, em acusações orquestradas de militantes revanchistas. 

Meus amigos.

Estou sendo julgado numa Vara Cível, por um suposto crime cometido em dependência do Exército e na qualidade de seu Comandante.

Estou sendo julgado, apesar da Lei da Anistia, que penso muito em breve será revogada, mas que ainda está em vigor.

Estou sendo julgado em uma Vara Cível apesar de jamais ter sido condenado criminalmente.

Estou sendo julgado por um crime que não cometi. 

Esse processo começou em novembro de 2005, após o filho de Criméia, que nasceu no Hospital Militar de Brasília, ter sido indenizado e nada tem a ver com publicação, em abril de 2006, do meu livro A Verdade Sufocada. 

Além da tão sonhada indenização para seus filhos, já que os pais e a tia foram indenizados, os autores desse processo buscam um motivo para colocar aqueles que os combateram no banco dos réus.

Assim aconteceu na Argentina, no Chile, no Uruguai e parece que não será diferente no Brasil.

Os senhores já notaram como aumentou o número de “torturados”, de perseguidos políticos e de vítimas dos chamados anos de chumbo, após o ano de 2002, quando foi promulgada a Lei das Indenizações? 

Senhoras e senhores, em meu nome e dos que de alguma forma combateram a luta armada, agradeço, sensibilizado, emocionado e principalmente fortalecido, todo o apoio que tenho recebido. 

Enquanto assaltantes, seqüestradores, terroristas, e assassinos permanecem livres sob a justificativa de que ‘lutavam pela causa’ nós que cumprindo ordens de nossos superiores hierárquicos lutamos e preservamos a democracia, agora estamos ameaçados de ir para a prisão por aqueles que combatemos, e que para isso não terão o menor prurido em mudar a lei.

Quando, com pesar assisto tudo isso, só me vem à mente a frase que me acompanha desde o início da minha vida militar, pronunciada pelo Tenente de Artilharia Antônio de Siqueira Campos, um dos 18 do Forte, e considerado a maior expressão da história do Movimento Tenentista: 

“A Pátria tudo se deve dar e nada pedir, nem mesmo compreensão”.

Comentários   
#2 Geraldo Magela Nasci 16-10-2015 14:28
Fui R2 do Exército Brasileiro nos anos 70. Acompanhei o calvário do Cel. Ustra. A Pátria tem uma dívida de gratidão para com esse GRANDE CHEFE MILITAR. Mas um país que tem delinquentes nos mais altos cargos nada podemos esperar...tudo isso é muito triste.
#1 bernardo melo 06-11-2014 13:46
A VERDADEIRA COMISSÃO DA VERDADE DEMOCRÁTICA, INICIA-SE APURANDO O CASO CELSO DANIEL, ESTE ASSASSINATO FOI MAFIOSO E OS MESMOS ATORES PERMANECEM FAZENDO DO ESTADO BRASILEIRO SEUS
DESCABIDOS SUPORTES FINANCEIROS PARTIDÁRIOS E/OU PARTICULARES.
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