Por Gen Ex ALM de Paiva Chaves
A “bolivarização” da Venezuela, cuja aceleração vem sendo anunciada na mídia, em notícias freqüentes e esclarecedoras, leva-nos a compará-la a processos políticos ocorridos em outros países, seu desfecho e as conseqüências para o povo que os aplaudiu ou, pelo menos, tolerou.  Hugo Chávez ascendeu à Presidência em eleições diretas e democráticas, mesmo depois de ter sido preso por liderar uma frustrada quartelada.

 Benito Mussolini chegou a Primeiro Ministro de uma monarquia que não extinguiu.

 

Texto completo

 

De começo, à sua sombra. Mais adiante, deixando-a acomodada a seu crescente prestígio popular. Enfeixou em suas mãos todo o poder político na Itália, embriagada pelo fascismo, que prometia projetar a terra dos césares aos píncaros das nações mais poderosas. Fez sua primeira aventura imperialista contra a pobre e indefesa Abissínia. Arrasou e conquistou, sem que o mundo civilizado esboçasse qualquer protesto consistente, mas aplaudido pelo povo italiano. Mais tarde, ocupou a Albânia. Com a mesma aquiescência, aliou-se à Alemanha de Hitler para a conquista da Europa. Foi executado por “partiggiani” e exposto em praça pública, pendurado pelos pés, depois que os exércitos aliados desembarcaram na península e iniciaram a derrota do “Eixo”.


 Sua trajetória não infringiu a legislação vigente, que ele mesmo foi amoldando aos propósitos, sempre com apoio de maioria política e frenéticas manifestações populares.


Na infância, da sacada do hotel onde se hospedava minha família, assisti em Roma, em meados dos anos 30, a um desfile dos “camisas negras”, liderado por Mussolini. Apesar da pouca idade, impressionou-me a marcialidade de civis em “passo de ganso”, tendo à frente o Primeiro Ministro. E as expressões entusiásticas da população, aplaudindo. Tantos anos passados, com a Guerra Mundial de entremeio, ainda tenho o quadro bem vivo na memória, como que antecipando a projeção dos horrores que o nazi-fascismo promoveu.


Mussolini não deu golpe de força, não violou a legalidade, não ignorou a Justiça. Apenas amoldou as instituições a seus projetos e ambições, com a passividade ou temor dos contrários e a anuência da maioria da população, iludida pelas falácias da propaganda e dócil a seus desígnios.


Não tivesse sido executado, fatalmente seria julgado, terminada a guerra, pelos crimes cometidos contra a humanidade. Nos dias atuais, os italianos de idade avançada, que viveram a época do fascismo, hão de condenar-se a si próprios pela simpatia, apoio ou adesão que terão sido seus pecados.


Adolf Hitler teve trajetória política ascendente. Nascido na Áustria, foi combatente das tropas germânicas na 1ª Grande Guerra. Transferindo-se para a Alemanha, integrou comitês e partidos de direita que questionavam a legitimidade das sanções impostas pelos países vitoriosos aos vencidos. Acusava-os de responsabilidade pela pobreza alemã e pela vertiginosa desvalorização da moeda. Galgou posições no cenário político, até alcançar o de chanceler, convidado pelo próprio Presidente do Reich. Nesse posto, valendo-se de manobras eleitorais, corrupção e ameaças à oposição, dominou a cena política. Corrigiu, com êxito, o descalabro econômico. Sob as vistas complacentes de França e Inglaterra, ampliou os efetivos das Forças Armadas e impulsionou a industrialização militar, ignorando as proibições estabelecidas pelo Tratado de Versailles. Seu partido, o nacional-socialista, irradiou-se por todas as camadas da população. Criou instituições militarizadas que, em suas diferentes feições, acolhiam jovens e adultos. Inicialmente voluntária, a adesão foi se tornando progressivamente obrigatória para aqueles que interessavam ao partido. Em poucos anos, o “Fuhrer” se tornou a autoridade máxima, ditador de um estado totalitário. Suas ordens e diretrizes não admitiam contestação. Opositores eram vilipendiados, perseguidos, empobrecidos, encarcerados, assassinados. Seu ódio aos judeus desencadeou a maior perseguição e eliminação em massa da História, hoje intitulada de Holocausto.


Uma vez firmado no poder e endeusado pela maioria da opinião pública, graças a uma eficiente máquina de propaganda, deu início a seu plano de submeter pelas armas os territórios que cobiçava, para a ampliação do “espaço vital” alemão.
 
Com a tolerância da Liga das Nações, ocupou a Renânia, anexou a Áustria, incorporou a região dos Sudetos, escamoteada da Tchecoslováquia e Hungria. Ao invadir a Polônia, provocou a tardia declaração de guerra da Inglaterra e da França. Voltou-se contra Holanda, Bélgica e França, conquistando-as em velozes ofensivas, as “blitzkrieg”. Dominou seus vizinhos do Leste europeu. Lançou-se à África, para apossar-se do Egito e do Canal de Suez. Como ocorrera com Napoleão no século anterior, invadiu a União Soviética, mas pagou ao General Inverno o preço de sua primeira grande derrota, a que se foram seguindo outras, até a derrota final. Suicidou-se, quando Berlim estava por sucumbir aos soviéticos.


Hitler e Mussolini, valendo-se das instituições políticas vigentes em seus países, galgaram o poder pelos meios que elas lhes proporcionavam. Passaram a modificá-las na medida de seus propósitos, submetendo resistências e apoiados na opinião pública, que domesticaram pela propaganda. Foram à guerra de conquista, sem que vizinhos poderosos, mas reticentes, os obstassem. Lançaram o mundo na catástrofe da 2ª Guerra Mundial.


Que esperar de Hugo Chávez? Já obteve de um Congresso aviltado o direito indefinido à reeleição. Amordaça a mídia com nacionalizações, legislação restritiva à livre informação e ameaças a seus dirigentes. Encampa empresas de iniciativa privada. Silencia as oposições, com mandatos de prisão expedidos por juízes servis. Forma milícias paramilitares, que são o seu braço armado para neutralizar manifestações populares. Reestrutura o ensino, para pregar aos jovens sua cartilha “bolivariana”. Distribui dinheiro a rodo a governos que se dispõem a seguir sua doutrina. Com seus destemperos oratórios, agride personalidades públicas mundiais. Faz aprovar uma Constituição em que “O povo é depositário da soberania e a exerce diretamente através do Poder Popular”. A mesma Carta desmerece o significado de eleições, dando autoridade de decisão a “grupos humanos organizados como base da população”. Impõe, progressivamente, a vigência de uma economia socialista, com o esmagamento da propriedade privada.


A História registra a implantação de regimes totalitários de direita a partir do acesso ao poder por vias legais. Segue-se a paulatina deformação das instituições, com anuência das representações políticas e aplauso da opinião pública. De outra parte, todos os registros de totalitarismo de esquerda (União Soviética, China e Cuba, entre outros) acusam sua implantação pelo caminho da luta armada. As transformações institucionais ocorreram com recurso à força, sem consultas à população, espezinhada e perseguida quando a elas reagiu.


Após a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética, assistimos, nos dias atuais, ao totalitarismo de esquerda apropriando-se dos métodos de conquista do poder das ditaduras de direita, É de se admitir que as recomendações dos modernos teóricos do marxismo, dentre os quais se projeta o italiano Gramsi, tenham encontrado ouvidos atentos e seguidores aplicados. Na América do Sul, Chávez, o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa, com a conquista, pelo voto, de sua permanência no poder, palmilham o caminho recomendado para comandar ditaduras socialistas. O cenário argentino não é menos preocupante. Com linha ideológica e práticas administrativas de forte matiz esquerdista, Néstor Kristner e sua esposa e sucessora Cristina Kristner plantaram, pelo voto, uma dinastia de poder, que poderá se prolongar pela alternância de um e outro na chefia do governo.


A remissão à História, em confronto com quadros atuais, projeta-se na apreensão com o quadro político brasileiro. O PT, aglutinando representantes no Congresso e filiados, em paisagem que vai do socialismo exacerbado à esquerda moderada, planeja vinte anos de poder. Reelegeu Lula. Este apresenta à sua substituição a candidatura de uma ex-militante da luta armada contra o governo constituído. Repele, em declarações insuficientemente convincentes, sua disposição de concorrer a um terceiro mandato. Mas a onda se avoluma depois que Dilma Roussef iniciou, com percalços, o tratamento de câncer linfático.


A simpatia de Lula pelos governantes citados e pelo regime cubano é ostensiva. Menos aparente, mas preocupante, é sua tolerância com a guerrilha colombiana, que tem assento no Foro de São Paulo. Seu Governo deu asilo político a representante das FARC no Brasil. Mas negou a extradição de terrorista italiano condenado em seu país. E ignorou a pretensão de dois atletas cubanos, que não queriam retornar à ilha.


Muitos atos do Governo Lula suscitam discussões acirradas, entre os que aplaudem e os que criticam. A julgar pelos índices crescentes de aprovação, a opinião pública, majoritariamente, o aprova. Está, pois, temperado o caldo de cultura para sua continuidade. Em paralelo, cresce a preocupação pela repetição da História. O Congresso está com sua respeitabilidade minada pela onda de denúncias que o atingem. E nele repousa a autoridade para rechaçar, pela via institucional, qualquer ameaça à continuidade do regime.
 
A grande arma de garantia da normalidade será a liberdade de opinião, usada com independência e desassombro pela mídia. E caberá aos cidadãos atentos e responsáveis fortalecê-la, usando, para isso, todos os meios a seu alcance.
Adicionar comentário