Governo diz que medida aprovada após 47 anos não muda rejeição da ilha à organização
Gilberto Scofield Jr. - O Globo

WASHINGTON. Os dirigentes cubanos comemoraram ontem a decisão da Organização dos Estados Americanos (OEA) de suspender o veto a Cuba no organismo como "uma grande vitória", mas, assim como fizera o ex-líder Fidel Castro na véspera, apressaram-se a dizer que não é do interesse da ilha voltar a fazer parte ativa da entidade. Em Havana, o presidente da Assembleia Nacional, Ricardo Alarcón, afirmou que o fim da suspensão de 1962 não muda o que a ilha sempre pensou da organização.

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Analistas acham que Havana tem interesse no retorno

Na noite de quarta-feira, a TV estatal afirmou que a decisão da OEA era uma "reparação histórica", mas também destacou que Cuba não deseja se aproximar da organização.

- Não sei quantas vezes dissemos a mesma coisa: o que ocorreu ontem (quarta-feira) não modifica em nada o que Cuba pensava ontem, anteontem e mesmo hoje - disse Alarcón.

No entanto, não é bem isso o que pensam os institutos de estudos sobre a América Latina de Washington, que têm acadêmicos em constante contato com integrantes do regime cubano.

- Se realmente não fossem do interesse de Cuba esta decisão da OEA e as novas possibilidades que a decisão abre, então os cubanos teriam pedido aos dirigentes mais aguerridos na defesa de uma volta sem condições, como Venezuela ou Honduras, que não se manifestassem - afirma Peter Hakim, do Inter-American Dialogue.

Segundo ele, o processo de aproximação será lento, mas inevitável, pois Cuba tem muito a ganhar. Hakim acha que a suspensão do veto já permite à ilha que compareça como observadora às reuniões do grupo em assuntos que afetam diretamente sua economia, como mudança climática ou ajuda humanitária em casos extremos. E estes casos, afirma, nada têm a ver com a velocidade com que Cuba e EUA estreitarão seu relacionamento.

Eric Farnsworth, vice-presidente do Conselho das Américas, diz que não são de todo implausíveis as especulações de alguns analistas americanos - e de muitos cubanos exilados nos EUA - de que a aproximação de Cuba com a OEA é algo que só ocorrerá após a morte de Fidel Castro. Afinal, diz ele, este será um processo longo e monitorado de perto pelo Congresso americano.

- A movimentação do Congresso traça uma linha no chão sobre até onde Cuba pode se reaproximar da OEA sem reformas democráticas. Os parlamentares americanos estão deixando claro que sabem que a OEA precisa do dinheiro dos EUA e que este dinheiro pode ser cortado caso a volta da ilha não seja acompanhada de mudanças em termos de direitos humanos ou liberdade de opinião - diz Farnsworth.

Mas esta não deve ser uma preocupação imediata do presidente dos EUA, Barack Obama, dizem os analistas, porque tudo indica que nenhuma decisão - dos dois lados - será tomada a curto prazo e sem consultas prévias. Isso se os dois lados quiserem manter o clima de reaproximação que vem dando o tom da relação Havana-Washington desde que Obama decidiu facilitar viagens de descendentes de cubanos ao país e a remessa de dinheiro à ilha. Medidas às quais Cuba respondeu positivamente. Ontem, Raúl Castro anunciou que substituiria o presidente do Banco Central cubano, Francisco Soberón. Ele estava no cargo há mais de uma década.

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