Coronel  acusado de matar jovem, em 1993, é inocentado. Júri foi marcado pela divergência  entre promotor e advogado das vítimas - Correio Braziliense - Guilherme Goulart
Chegou ao fim o julgamento do tenente-coronel da reserva Sebastião Curió Rodrigues de Moura, após 16 anos  de atrasos e adiamentos. Por 4 votos  a três, os jurados absolveram, ontem, o réu das acusações de homícídio e lesão corporal. Curió, famoso no Brasil pela repressão à Guerrilha do Araguaia e pela liderança social e política no coração do garimpo de Serra  Pelada ( PA) , respondia judicialmente pela morte de Laércio Xavier da Silva -  o irmão dele, Leonardo Xavier da Silva,  levou um tiro na mão - em fevereiro de 1993.
 
 

Além da definição pela inocência de Curió, o julgamento ficou marcado  pelas diferenças entre o Ministério Público, responsável pela acusação do réu, e o próprio advogado da família das vítimas, Augustino Pedro Veit. Enquanto o promotor Jonas Pinheiro pediu a absolvição do réu, Veit brigou pelo contrário. Pinheiro, por exemplo, aceitou a tese de legítima defesa. Para ele, não havia no processo provas de que Curió pudesse ter atacado a dupla  intencionalmente - na época, os garotos eram suspeitos de cometer furtos no Núcleo Rural Sobradinho dos Melos, onde o acusado tinha uma chácara.

 

Em depoimento ao  Tribunal do Júri de Sobradinho, o tenente-coronel afirmou que esteve no local do crime em 2 de fevereiro. Teria seguido até a área rural depois de um telefonema do filho, que contou ter ouvido um tiro nas imediações da chácara  da família. Curió também contou que, antes de pegar o caminho para Sobradinho, denunciou o caso à 10ª DP, no Lago Sul. E se dirigiu ao local acompanhado de dois policiais. Ao lado dos agentes e dos 2 filhos, apareceu na casa onde os adolescentes  dormiam. Teria sido recebido a tiros e respondeu com dois disparos a esmo.  Acertou Laércio e Leonardo.
 
O promotor de Justiça, assim, considerou imoral a alegação de que o coronel seria um  exterminador de menores e chamou a atenção do corpo de jurados pelo réu ter prestado socorro às vítimas. Já o advogado Augustino Veit manteve a tese de que o grupo comandado por Curió armou tocaia para acabar  com as vidas dos dois irmãos. contestou ainda diversas afirmações do tenente-coronel. Entre elas, a de que não há provas nos autos sobre um tiro contra o filho do coronel. Muito menos sobre um terceiro elemento que teria atirado contra o grupo na noite dos crimes.
 
 Veit reagiu com revolta ao resultado do julgamento. Também se disse surpreendido com a atitude do promotor  Jonas Pinheiro. " Como assistente de acusação, digo que fui pego de surpresa com o pedido de absolvição por parte do Ministério Público. Isso é um absurdo. Não existe uma coisa dessas", reclamou.  O advogado considerava o caso emblemático e de relevância nacional por conta do nome do principal acusado. Os julgamentos dos demais denunciados ocorreram em 2003. A exemplo de Curió, todos acabaram inocentados pela Justiça.
 
Liderança política
 O desfecho do julgamento põe fim a 16  anos de espera e polêmicas. Em 13 de fevereiro de 1997, o juiz Hector Valverde Santana, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal decidiu submeter os 5 suspeitos de matar Laércio, 17 anos, ao Tribunal do Júri. Mas o processo acabou desmembrado. Curió tinha foro privilegiado,  pois era prefeito de Curionópólis, município paraense fundado por ele em 1989.
 
 O réu começou a ser julgado em Belém ( PA ), mas o processo parou . Ficou sem julgamento até ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral, em março de 2008. Motivos: compra de votos e abuso de poder econômico.
 
Curió ganhou destaque nacional pelo envolvimento em episódios marcantes da história do Brasil.  Teve papel decisivo na repressão à Guerrilha do Araguaia, movimento de combate ao regime militar que existiu durante a década de 1970. Atuou ainda como agente do Serviço Nacional de Informações ( SNI ) e como deputado federal pelo PMDB,  entre 1983 e 1987.  Também recebeu a missão de acabar com o Movimento dos  Trabalhadores Rurais Sem-Terra ( MST) ainda em formação. Mas a atuação como interventor no garimpo de Serra Pelada , no Pará reforçou o perfil de liderança.
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