Por JARBAS PASSARINHO - Correio  Braziliense
A onda vermelha que tomou o poder nesta parte do subcontinente sul-americano tem chefes de Estado todos “companheiros”. Evo Morales, da Bolívia, deu início ao combate do “imperialismo brasileiro”. Alegando exploração no negócio feito com o Brasil, ocupou militarmente as duas refinarias da Petrobras, expropriando-as sem indenização conhecida até aqui. O presidente Lula, implicitamente confirmando o “imperialismo” brasileiro, solidário ao “companheiro”, aceitou o esbulho.

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Evo visitou Cuba, dizendo publicamente que a ilha era a “maior democracia do mundo”. A Fidel exortou: “Dê suas ordens, comandante, que nós o seguiremos”. Não sei bem para quê a funesta subserviência ideológica o levaria, a menos que seja masoquista. Hugo Chávez, presidente da Venezuela, descobriu-se marxista leninista e recomendou ao seu povo a leitura de Marx e Lênin, que ele terá lido no local apropriado, a prisão. Sonha fazer a revolução bolivariana, começou imiscuindo-se nas eleições de países andinos e da América Central, que se elegeram, menos o Peru, de que se fez inimigo. Protetor mal disfarçado da guerrilha comunista colombiana, as Farc, insulta o presidente Uribe, que a está derrotando militarmente. À Argentina auxiliou a economia abalada, adquirindo cerca de US$ 9 bilhões dos seus papéis desvalorizados.

Internamente, para não chamá-lo de ditador, um constitucionalista famoso serve-se de um neologismo: di-lo neopresidencialista, aquele que tolera o Legislativo e o Judiciário, desde que a ele servis. Aos opositores cerceia a liberdade de expressão. Fecha a TV principal, que o criticava, e amordaça a imprensa escrita. Prende os governadores oposicionistas e os submete a processo alegando improbidade administrativa. O domínio dos tribunais garante-lhe farsa de julgamento, o que resta aos perseguidos o exílio. Ainda assim, foi derrotado no referendo da lei votada pela comunização. Mas posteriormente venceu o segundo referendo, moderado, que lhe permite disputar, sucessiva e permanentemente, a Presidência. Dele disse Lula, porém, que é um presidente democrata. Deu como exemplo que se submete a eleições.

Não basta haver eleição para caracterizar um Estado de Direito Democrático. Um país que cerceia a imprensa, essencial à liberdade de pensamento, invalida a liberdade de escolha. Por isso e por certeza de fraude, a oposição não participou da eleição parlamentar. Todas as cadeiras do parlamento pertencem ao partido de Chávez.

O nosso presidente elegeu-se graças a eleições diretas e livres. Não conseguiu, porém, que seu partido obtivesse a maioria parlamentar, situação que os cientistas denominam de “ beijo da morte”. Salvou-o o mensalão, que criou a base governamental no parlamento, graças à adesão dos pais da pátria, que o poder do dinheiro asfixia as aparências de integridade que os weberianos dizem “viver da política e não para a política”. Nosso preclaro presidente pôde aprovar até várias emendas constitucionais que os antecessores tentaram sem êxito. Ele não sabia o porquê do avassalador crescimento dos votos favoráveis ao seu governo.

A boa-fé, muitas vezes, ofusca a capacidade de distinguir a venalidade da probidade. Ofuscado pela boa-fé, o marechal Pétain acreditou que Hitler permitiria autonomia da parte da França “governada” de Vichy. Em outros casos, dá-se devido ao insuficiente saber jurídico o que, leigos, nos parece inverossímil. É o caso do eminente criminalista Thomaz Bastos, então ministro da Justiça. Suponho que comparou, mais como criminalista que ministro, o que seria menos prejudicial à imagem ética do governo. Consagrado nos júris, acostumado a vencer os debates nas causas mais ingratas, deu-se conta de que o mensalão devia chamar-se caixa 2.

Delúbio, que não é jurista, apelidou o mensalão de “recursos não contabilizados”, mas pegava mau. Lula, de Paris, onde estava nas suas bem-sucedidas viagens, seguiu o parecer do criminalista e logo em entrevista a uma desconhecida jornalista, disse que “caixa 2 era comum nas campanhas no Brasil”. Nega até hoje o mensalão, como o criminalista, leal ao governo, lhe ensinara. Já não mais na pasta da Justiça, o doutor Bastos ficou mais à vontade. Em recente entrevista, não precisou guardar a polidez. Disse que “o mensalão fora invenção do procurador-geral da República”, o honrado doutor Antônio Souza, que indiciou os mensaleiros em parecer para o Supremo. O senador Demóstenes Torres replicou: “É a prova de que, quando foi ministro, Márcio Thomaz Bastos atuou na verdade como advogado dos envolvidos no mensalão, urdindo a tese do caixa 2”.

Lula antes achava imoral a prática, mas em suas campanhas não será impossível que, a despeito dele, seus marqueteiros dela se tenham aproveitado e pagado com dólares provenientes de paraísos fiscais, de cujo retardo Duda queixou-se numa CPI. Claro que não me refiro à duvidosa remessa de US$ 4 milhões supostamente mandados por Fidel para ajudar as despesas da campanha. Seria demais, embora Lênin haja afirmado “que é moral tudo o que ajudar a vitória da causa”. E só pela causa se explica que “o presidente de todos os brasileiros” chame de heróis os guerrilheiros e terroristas derrotados e sem lograr apoio popular e prestigie o lançamento de livro acusatório dos que os combateram, por vezes, com o sacrifício das próprias vidas.

 

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