Julgamento coletivo inédito vai indenizar as vítimas do conflito entre esquerda e militares - Por Vasconcelo Quadros - BRASÍLIA- JB On Line
O Ministério da Justiça decidiu analisar os pedidos de reparação das pessoas que compõem o elo mais frágil do conflito entre a esquerda armada e o regime militar na Guerrilha do Araguaia. No dias 18, 19 e 20, a Comissão de Anistia vai julgar 91 processos de camponeses que moravam na região e foram atraídos involuntariamente para um conflito que durou três anos e deixou pesados traumas à população da região: prisões, torturas, desaparecimentos forçados, destruição e confisco de posses. Cerca de 20 moradores foram mortos e outros simplesmente sumiram. É a primeira vez que pessoas que não militaram em organizações de esquerda podem ser anistiadas por perseguição política. São camponeses humildes, analfabetos, que só tomaram conhecimento de que o PCdoB organizava um grupo de resistência depois que as Forças Armadas atacaram e exterminaram o foco guerrilheiro.

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Buscas

O ministro da Justiça, Tarso Genro, vai participar do evento. Sua presença tem o significado de afirmar a posição do Estado na reparação e, ao mesmo tempo, apoiar o movimento para encontrar também os restos dos 59 ativistas desaparecidos no Araguaia. Militante de esquerda na época do golpe, Genro foi contemporâneo de ativistas que desapareceram no Araguaia. Resolvido o caso dos camponeses e concluído um levantamento que vem sendo coordenado pelo comandante do Exército, general Enzo Peri, o governo deve autorizar novas buscas na região. A Justiça Federal de Brasília deve determinar também a execução de uma sentença que determina o depoimento de oficiais que participaram das campanhas militares.

Nos processos de anistia sobre o Araguaia, o governo tem optado mais por parcelas únicas de R$ 100 mil. É o caso do único morador até hoje indenizado individualmente, Otacílio Alves de Miranda, o Baiano; do deputado José Genoino Neto (PT-SP); e dos familiares dos 59 guerrilheiros desaparecidos.

Um dos casos mais dramáticos relacionados à Guerrilha do Araguaia envolve a família de Eduardo Rodrigues, que morava no local conhecido por Faveira, em São João do Araguaia, e tornou-se amigo dos guerrilheiros, sem saber que estes se preparavam para um enfrentamento. Preso e expulso de sua posse, Eduardo teve de enfrentar outra tragédia: um filho, Sabino, foi morto, e o outro, Lauro, perdeu um braço e saiu seriamente ferido com a explosão de uma granada.(...)

 


Comentário da editoria do site www.averdadesufocada.com:

 
 Pergunta à Comissão de Anistia e ao Ministério da Justiça : e os familiares dos "justiçados" pelos guerrilheiros também serão indenizados ?

 

“Justiçamento” de João Pereira - 29/06/1972

Com a prisão e a confissão de Pedro Albuquerque, militante que abandonara a área de guerrilha e fora preso em Fortaleza, os órgãos de segurança tiveram a certeza da presença de guerrilheiros na Região do Araguaia. Enviaram, então, uma equipe para localizar a área onde os guerrilheiros estavam instalados.

Ao encontrarem a casa de Antônio Pereira, um mateiro que morava nos confins da Picada de Pará da Lama, a 100 km de São Geraldo, esse ofereceu o filho de 17 anos, João Pereira, para guiar a equipe em seu deslocamento no interior da selva. Com certa relutância a equipe aceitou o oferecimento. O rapaz guiou a equipe por uma manhã, das 5 horas até ao meio-dia.

Descoberta a colaboração do jovem, integrantes da guerrilha do PCdoB, em 29 de junho de 1972, foram à casa do seu pai, prenderam-no e, no quintal, na frente de seus genitores, cortaram primeiro uma de suas orelhas, depois a outra, seus dedos, suas mãos e, finalmente, acabaram com a tortura do menino.

Mataram-no com uma facada. Somente o pai assistiu a morte do filho. A mãe, há muito, já perdera os sentidos.

A tortura e a morte do rapaz deveriam servir de exemplo para que nenhum outro mateiro auxiliasse as autoridades na busca dos guerrilheiros.

Segundo o relatório de Ângelo Arroyo, um dos chefes dos guerrilheiros na região: “A morte desse bate-pau causou pânico entre os demais da zona”.

Observação: “bate-pau”, termo usado para designar o guia, o mateiro.

 

“Justiçamento” de Osmar - ../09/1972

Trecho do depoimento do bate-pau Venâncio de Jesus:

“Encontrei, no caminho, com o Osmar. Era um mateiro admirado por Osvaldão por causa de seu domínio sobre a mata. Osmar me disse que estava muito preocupado porque o Exército o obrigava a guiar os soldados pela floresta e tinha medo de acabar morrendo. Pediu-me para avisar ao Osvaldão que estava sendo forçado a isto, mas que só dava umas voltinhas por perto e os soldados já ficavam satisfeitos. Ganhei do Osmar um pedaço de carne de onça e parti, sem falar qual era o meu destino. Depois ficamos sabendo que ele fora cooptado de fato pelo Exército e o nosso destacamento acabou justiçando-o.”

(Fonte: http://www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia).

 

“Justiçamento” de Pedro Ferreira da Silva - “Pedro Mineiro” - 12/03/1973

No dia 12 de março de 1973, Osvaldão julgou, condenou e mandou executar “Pedro Mineiro”, por ser informante do Exército. A sentença foi executada por um grupo que o trucidou a golpes de enxadas e foices.

 

“Justiçamento” de Rosalindo de Souza , “Mundico” - 16/08/1973

Mundico, militante do PCdoB, participou ativamente do movimento estudantil. Formou-se advogado na Faculdade Cândido Mendes. Em abril de 1971, foi para Caianos participar da Guerrilha do Araguaia, como comandante do Destacamento C.

Morreu em setembro de 1973 e, para sua morte, seus companheiros têm versões diferentes.

Para o Relatório Arroyo: “... a morte de “Mundico”, do C, por acidente, com a arma que portava”.

Para Elza Monerat, em depoimento no Congresso: “Parece que sua morte não teria sido acidental. Teria sido assassinado por um “bate-pau”.

Existe uma terceira versão entre os companheiros do PCdoB de que teria se suicidado.

José Antônio de Souza, irmão de “Mundico”, auditor fiscal em Ilhéus, declara:

“Acho muito estranho falar em acidente de armas com Rosalindo, pois todo mundo sabe que ele tinha muita experiência como caçador e era exímio atirador.”

Nos arquivos do DOPS/SP consta que ele foi justiçado pelos companheiros em 16 de agosto de 1973.

(Fonte: http://www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia).

 

Inescrupulosos, como sempre, extorquem dos cofres públicos vultosas recompensas, como forma de “reparação”.

Quem os recompensa pratica o mesmo tipo de “justiça”, venal e cruel. A diferença é que, agora, somos nós, contribuintes brasileiros, os “justiçados”.

Pelo visto, o “Tribunal Revolucionário” continua em sessão permanente.

Mudaram apenas os “juízes” e a condenação.

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