Carlos Marighela
Transcrito do Orvil - Ainda a Ação Libertadora Nacional - ALN
Tentativa de implantação  da Guerrilha Rural
Na tentativa de implantaçào da "Área Estratégica" da ALN no início de 1968, Carlos Augusto da Silva Sampaio, líder estudantil em Belém, foi contatado e convencido a ligar-se com Carlos Marighela. Aproveitando-se das férias do início daquele ano, Carlos Augusto deslocou-se para o Rio de Janeiro, onde fez contato e estabeleceu um esquema de comunicação com Marighela , através da militante Maria Cerqueira,  moradora na Av N.Senhora de  Copacabana/RJ,  e do casal João Batista e Zilda de Paula Xavier Pereira, coordenadores, naquela ocasião, da ALN na Guanabara.

Texto completo

Em setembro de 1968, Carlos Augusto foi procurado, em Belém, por João Batista, com a orientação para o início da estruturação da ALN no Estado do Pará . Com o início do trabalho de aliciamento, o grupo foi reforçado com a adesão de João Alberto Rodrigues Capiberibe, João Moacir Santiago Mendonça, Pedro Alcântara Carneiro e Flávio Augusto Neves Leão de Sales.

Em junho de 1969, Carlos Augusto, ,juntamente com João Alberto Capiberibe, em nova viagem ao Rio de Janeiro, recebeu a missão de iniciar o trabalho de implantação de uma área rural, na região do Rio Araguaia, até a cidade de Imperatriz no Maranhão. No Rio de Janeiro, Carlos Augusto encontrou-se com os frades dominicanos Ivo e Fernando e com Nestor Mota, elementos que haviam vasculhado a região escolhida, em reconhecimentos realizados, em l968, seguindo ordens de  Marighela. Na volta a Belém, fizeram-se acompanhar de Nestor Mota, que se dirigiu a Conceição do Araguaia para fazer contato com João Carlos Ramalho, que trabalhava no Movimento de Educação de Base (MEB). Após acertos e dentro do esquema de iniciar o  trabalho de doutrinação no campo, João Moacir Santiago Mendonça passou a morar com João Ramalho em Conceição do Araguaia.

Em.17 de agosto de 1969, Flávio Augusto Neves Leão de Sales  realizou, por iniciativa própria, um assalto à firma Gelar em Belém.

 Flávio Augusto provocaria, em 25 de agosto, a morte de sua madrinha  e irmã de criação, Sulamita  Campos Leite, estraçalhada por uma bomba de alto teor explosivo, que ele enterrara no quintal da residência dos Sales, na Travessa Curuzu, nº 2235, em Belém.

 A intensificação da atividade policial em Belém, provocou, por questões de segurança, a viagem apressada de Carlos Augusto e João Moacir Santiago Mendonça ao Rio de Janeiro, onde se homiziaram no apartamento de Maria Cerqueira. Flávio Augusto, também ameaçado, deslocou-se para São Paulo, onde integrou-se ao GTA, passando a participar ativamenté de ações armadas.

Ao retornarem a Belém, Carlos Augusto e João Moacir foram informados de que Capiberibe já tinha conseguido um local apropriado na área do Tocantins. Após o retorno de Carlos Augusto do Rio de Janeiro, um grupo da ALN em Belém tentou um assalto a um carro de um oficial da Marinha. Este fato levou as autorídades a desenvolverem um trabalho específico, visando a detectar e identificar o grupo, que iniciava uma atuação sistemática e organizada em Belém.

Com a morte de Marighela, em novembro de 1969, o grupo perdeu a ligação com a Coordenação Nacional da ALN, que se encontrava em São Paulo. Somente em abril de 1970, Carlos Augusto, já formado em advocacia, retomou a ligação com a Coordenação Nacional, sendo colocado em contato com  Joaquim Câmara Ferreira - "Toledo"-, em São Paulo. "Toledo" informou que seria enviado para Belém, afim de ser colocado na área rural escolhida, um militante que regressara de Cuba depois de fazer curso de guerrilha.

Em junho de 1970, José Silva Tavares, antigo militante da Corrente, chegou de Cuba e recebeu orientação de "Toledo" para dirigir-se a Belém, com a finalidade de dar continuidade aos trabalhos de implantação da área estratégica. "Toledo" insistiu para que.as atividades fossem alicerçadas no trabalho de doutrinação da·massa rural.  Em julho foi providenciada a compra de uma área proxima a Imperatriz, no Maranhão, que seria a base para o desenvolvimento do trabalho estratégico. Em setembro de 1970, José Tavares foi deslocado para Belém. O planejamento constava da ida antecipada de Capiberibe para a área de Imperatriz, onde receberia Tavares

Enquanto a ALN tramava a articulação de sua área estratégica, as forças de segurança, centradas na 8ª Região Militar, coroando diligências que vinham realizando desde abril, desmantelaram inúmeros "aparelhos"  da organização. No dia   7 de setembro, quando aguardavam o ônibus para ·se deslocar para Imperatriz, foram presos Capiberibe, sua esposa, Janete Del Castilho Capiberbe e sua cunhada, Eliane Lúcia Del Castilho Goes. No mesmo dia,caiu  Carlos Augusto. José Tavares foi preso na manhã do dia 8 de setembro, no interior do ônibus que o conduzia a Imperatriz.

No desenrolar da operação, foram presos, na base da área estratégica - onde já existia uma construção rústica para acolher os militantes -,  o estudante do 3º ano de Medicina, Pedro Alcântara Carneiro  e Wanderley Gomes Camorim. Na área já se iniciara o trabalho de massa, através do atendimento à população local, realizado por Pedro Alcântara.  Com eles foi apreendido um mosquetão 7mm com a respectiva munição.

Durante a ação policial que se abateu sobre a ALN no Pará, foi detectada a existência de um grupo na Faculdade de Ciências Econômicas de Belém, com a participação de Roberto Ribeiro Correia, responsável pela Publicação do panfleto "Luta Revolucionária". O grupo tinha ligação direta com Capiberibe e distribuía a "Luta Revolucionária" na área universitária e nos pontos mais carentes da cidade de Belém. Desta forma, teve fim a tentativa organizada da ALN de implantar uma "área estratégica" na convulsionada área do Noroeste do Maranhão/Norte  de Goiás, conhecida como "Bico do Papagaio". Também frustrada foi a sua intenção de estender-se ao Rio Grande do Norte. A organização sofreria, nesse ano, uma série de reveses no NE e nas duas principais Coordenadoria Regionais de São Paulo e Guanabara, mas seus GTA estavam sendo reforçados pelos militantes treinados em Cuba ("cubanos") , do chamado  "II  Exército da ALN".

A ALN, todavia, ao contrário do que preconizava "Toledo", cada vez afastava-se mais das massas e tornava-se mais violenta e sanguinária!

 As atividades da Cordenação  Regional - CR/SP da ALN

Em são Paulo, Yuri Xavier Pereira e Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz - " Clemente ",  membros da Coordenação Nacional Provisória, acumulavam as funções da Coordenação Regional (CR), compondo-a junto com a militante Lídia Guerlenda, que substituira Márcio Leite Toledo, que estava em "crise ideológica" , insatisfeito com a atuação da ALN. Enquanto a CN aguardava o desfecho da luta interna provocada pelo pessoal do "III Exército", que fazia curso de guerrilha em Cuba, a CR/SP enfrentava problema idêntico, representado pelo conflito entre o Grupo Tático Armado ( GTA) e a Frente de Massas (FM).

No inicio de 1971, a CR/SP acionou o GTA numa série de ações em "frente" com outras organizações, inclusive o assassinato do industriul Hening Albert Boilesen, realizado com o Movimento Revolucionário Tiradentes -MRT -, em 15 de abril.

A Vanguarda Popular Revolucionária - VPR -, com o relacionamento estremecido na "frente" pela realizaçao, sem consulta, do sequestro do embaixador suíço, participou apenas do assalto ao carro transportador do Banco Andrade Arnaud, na Rua Lavapés, no bairro Cambuci, em 22 de janeiro. As demais ações foram realizadas em colaboração com o MRT e com o incipiente  Movimento Revolucionário Marxista - MRM - , até abril; quando as duas organizações foram desmanteladas .

Relação de algumas das ações realizadas em "frente" pela ALN com o MRT (algumas, também com o MRN), em São Paulo, em 1971:

- em 18 de janeiro, roubo de carros e placas no estacionamento da Avenida Água Branca, 337, com lançamento de "coquetel Molotov" e ferimento em um motorista;.

-em 31de janeiro, assalto ao supermercado "Pão de Açúcar", na Rua Maestro Elias Lobo;

-em 4  de fevereiro, assalto ao supemercado "Pão de Açúcar'', na Rua São Gabriel;

-em 6 de  fevereiro, assalto ao supermercado Fioreto, na Rua Sil va Bueno;

-em 10 de feveiro, assalto à firma "Mangels do Brasil",  no  Ipiranga;

-em 10 de março, assalto. ao Banco Comércio e Indústria localizado no interior da Indústria Villares, em Rudge Ramos, e a tentativa de demolição de uma ponte sobre o Rio Tietê, no bairro do Jaguaré (a demolição fracassou por falha do dispositivo de acionamento da carga explosiva);

-em 29 de março, assalto às joalherias  "Divinal" e "Botura & Miranda", nas ruas Amália Noronha e Oscar  Freire, respectivamente, no Bairro Sumaré.

No início de 1971, a FM da CR/SP começou a.participar de açoes armadas, quebrando a exclusividade do GTA como instrumento  de violência e intimidação. O esquema consistia da presença de um elemento do GTA, como cobertura, e da ação dos militantes da FM integrados em grupos de fogo. A FM limitara-se, até então, a ceder militantes para o GTA, quando solicitada. A realização de ações por parte dela fez crescer a rivalidade entre os dois organismos.

 Nesse ano, a ALN renovou os esforços para restabelecer o setor de imprensa, prejudicado desde a "queda" dos dominicanos, em outubro de 1969. Em 1970, o esquema gráfico da ALN estava para ser montado por Rafael de Falco Neto. Os contatos estavam adiantados e Jorge Fidelino Galvão de Figueiredo, estudante de Jornalismo da PUC, aceitou tornar-se responsável pela gráfica, desde que não fosse clandestina. O aspecto legal da gráfica serviria de "cobertura" para a edição clandestina da imprensa da ALN   e amenizaria os custos, através de serviços prestados a terceiros. A prisão de Rafael, em meados de 1970, adiou o projeto. Jorge Fidelino foi recontatado, no final de 1970, por Monir Tahan Sab, e reiniciaram-se os planejamentos para a montagem do  "aparelho de.imprensa ".

.Em março de 1971, com dinheiro fornecido por Monir, Fidelino instalou a gráfica na Rua Domingos de Moraes. Auxiliado por  Ladislau Crispim de Oliveira, imprimiu cinco números do  jornal "Venceremos" e o nº 3 do jornal "0 Guerrilheiro", órgão central da ALN, datado de setembro de 1971. Fidelino escrevia para as duas publicações, tornando-se o redator-chefe da imprensa da ALN. O esquema gráfico da ALN, em São Paulo, realizava, também, a falsificação de documentos,  tudo sob a orientação de Jorge FideIino. Além do dinheiro empregado na montagem desse esquema, a ALN realizou 7 (sete) assaIt6s a escolas, firmas, cartórios, posto de identificação e delegacia do trabalho, para roubo de impressoras "Off set", máquinas de escrever, máquinas e materiaI de pIastificação, mimeógrafos, estênceis, certidões de nascimento e casamento e carteiras profissionais. Nesse ano, as atividades revolucionárias em São Paulo cresceram muito, principalmente se comparadas ao descenso do ano anterior. O GTA, sob a coordemação geral de "Clemente" Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz:-, possuía diversos grupos de fogo, orientados por José Milton Barbosa, Antonio Carlos Bicalho Lana, Antonio Sérgio de Matos e Manoel José Mendes de Abreu .

A intensa movimentação do GTA foi acrescida a da FM, preocupada em mostrar sua eficiência em ações armadas. Em 10 de maio, a  ALN  realizou um assalto a Frota de Táxis

Bandeirante, nas proximidades do Museu do Ipiranga, liderado po Flávio Augusto Neves Leão Sales e Antonio Eduardo da Fonseca do qual resultou a morte do vigia da firma., Manoel Silva Neto.

Além das ações narradas no texto e de incontáveis  roubos de carros, placas, etc, a ALN realizou, nesse ano  25 (vinte e cinco) panfletagens e 15 (quinze) assaltos.a bancos, supermercados e empresas, para roubo de dinheiro. Realizou, ainda, algumas ações insólitas, como o assaIto ao caminhão frigorífico da Swift, em 17 de maio, seguido da distribuição de frios aos favelados  da Av. Palmares, em Santo André.

Com objetivo especifico, realizou uma série de ações que visavam a alvos militares, para aumentar sua potência de fogo e desmoralizar as Forças Armadas e a força policial. 

-no dia 19 de julho, durante uma partida de futebol de um pelotão do Exército, no Parque da Aclimaçao,  o soldado de guarda ao caminhão foi rendido e teve sua metralhadora roubada.

-no dia 17 de agosto, o soldado do Exército João Guedes Nogueira, realizando trabalho de estafeta, foi rendido na Rua Aspicuelta, em Pinheiros e teve  sua pistola .45 roubada. - no13 de  setembro, a escalada teve sequência com o assalto a uma viatura do Exército estacionada na  Avenida Gualter, em Pinheiros, f icando o motorista privado de sua pistola .45.

 Além dessas ações, o GTA havia  assaltado e incendiado cinco viaturas policiais, roubando o armamento de suas guarnições.

Com o intuito de dar um paradeiro a essas ações de desmoralização e desassossego, foi montada uma operação, colocando-se viaturas do Exército, simulando pane, guarnecidas apenas com um motorista, nas áreas de maior atuação terrorista em São Paulo.

As 15.00 horas do dia 23 de setembro, a viatura estacionada desde cedo na Rua João Moura, bairro do Sumarezinho, foi abordada  por um Volkswagen que estacionou à sua frente com cinco elementos fortemente armados. Três homens e uma mulher saltaram do veiculo e, enquanto a mulher, identificada como Ana Maria Nacinovic Correia, imobilizava o soldado, os três terroristas dirigam-se para a viatura a fim de se apoderarem da metralhadora deixada sobre o banco. Naquele momento, uma equipe de segurança surgiu e deu voz de prisao aos terroristas recebendo, como imedita resposta, uma saraivada de balas. Durante o entrevero, morreram os terroristas Antonio Sérgio de Matos, Manoel José Mendes Nunes de Abreu e Eduardo Antonio da Fonseca. Ana Maria, correndo, conseguiu evadir-se por uma rua lateral.

 Uma outra série de ações foi planejada para comemorar o que ficou conhecido como a "quinzena Marighela -Toledo" . Para marcar a ocasião, a CR/SP executou a intensificação das ações terroristas de propaganda armada:

- em 26 de outubro, assalto à agência da Light, na Rua Silva Bueno, no Ipiranga;

-em 27 de outubro, atentado a bomba, seguido de incêndio, e panfletagem na Indústria Supergel, no Jaguaré; 

 -em 29 de outubro, assalto e panfletagem na indústria Vulcan, no bairro de Socorro;

-em 01 de novembro, o incêndio de um ônibus da empresa Tusa ,  no bairro operário de Vila Ema  , quando foi assassinado o Cabo  Nelson Martinez Ponce , da Polícia Militar do   Estado de São Paulo;

- no ínício de novembro incêndio de duas viaturas de transporte e distruibuição  do Jornal  Folha de São Paulo; 

- em 03 de novemhro, incêndio do carro do cônsul americano;

-.em 03 de novembro, atentado a bomba e pichação nas casa do diretor´presidente da Sears e do diretor da Companhia Chicago Bridge; e

- ainda no início de novembro panfletagem no centro de São Paulo

Dentro de um esquema normal de treinamento da organização, no dia 4 de dezembro, após atirarem com suas armas, um grupo de terroristas resolveu testar suas granadas. Lídia Guerlenda acionou a primeira granada que não funcionou. Acionou o segundo petardo e este explodiu em sua mão direita, destruindo-a quase totalmente. O grupo retornou a São Paulo, onde Lídia foi tratada por Linda Tayah.

No dia seguinte, quando se deslocavam de carro para tratar do problema da mão de Lídia, o trio José Milton  Barbosa, Linda Tayah e Gelson Reicher foi surpreendido por uma "operação arrastão", na Avenida Sumaré. Abandonaram o carro, mas, avistados pelos policiais, foram perseguidos. Após tentarem entrar em várias residências, os terroristas buscaram fugir pulando cercas e atravessando quintais. Utilizando este expediente, atingiram a Rua Verissimo onde surpreenderam o soldado da PMSP Waldomiro Trombettas, rendendo-o.

Waldomiro foi obrigado a parar um Galaxie que passava pelo local conduzindo um casal. Linda Tayah entrou rapidamente no carro, enquanto o casal, ao sair do carro, lançou-se, por precaução, ao solo. Aproeveitando-se da surpresa dos terroristas com a precavida iniciativa do casal, Waldomiro atracou-se com José Milton Barbosa, conseguindo tirar-lhe a metralhadora. Nesse instante Linda atirou, ferindo Waldomiro na mão. Alertados pelo t!ro, os demais soldados acorreram ao local, tendo início um tiroteio, ao final do qual José Milton estava morto e Linda Tayah ferida com um tiro na cabeça.

Quando os policiais se aproximaram  para socorrer Linda, Gelson Reicher atirou nos policiais, ferindo o soldado PMSP Alcides Rodrigues Souza. Perseguido, Gelson conseguiu evadir-se do local.

Após recuperada do ferimento, respondendo a uma pergunta das autoridades policiais, declarou que "um militante do GTA, quando instado a se identificar pela polícia, "manda

bala e tenta fugir", o que não poderia acontecer era "cair vivo", como ocorreu com ela, desacordada com um tiro na cabeça.

 

o ano de 1971, apesar da intensa atividade, terminava com o CR/SP e o GTA desfalcados pela atividade dos órgãos de segurança.

Muitos militantes, que começavam a questionar o tipo de atução da ALN, foram desestimulados a desistir pelo, exemplo do que ocorreu com Márcio Leite Toledo, que ao questionar as ações da ALN , foi executado pelos companheiros. Para os militantes só  restava um caminho: a permanência na organização até a "queda", por morte ou prisão.

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