Relatório do chefe do DOI feito por ordem superior revela detalhes sobre destino de militantes de esquerda - Por Marcelo Godoy- O Estado de São Paulo
Antônio dos Três Reis Oliveira era estudante quando foi preso no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968. Solto, entrou para a clandestinidade e assim estava quando desapareceu em 1970 ao lado da operária Alceri Maria Gomes da Silva. Seus corpos não foram achados. O Exército nunca assumiu publicamente as mortes, mas o oficialato tinha conhecimento do que se passou com os militantes comunistas. A prova é um documento sigiloso assinado pelo então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do Destacamento de Operações de Informações (DOI), do 2º Exército, com sede em São Paulo.

 

Texto completo

 


Trata-se do mais detalhado relato feito pelo órgão responsável pela repressão política no Estado sobre a morte de Oliveira, importante quadro da Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo criado em 1967 por Carlos Marighella, a partir de uma dissidência do PCB. O relatório tem 24 linhas e estava em meio a uma das dezenas de pastas com papéis sobre o Exército no arquivo da Divisão de Ordem Social do antigo Departamento de Ordem Político e Social de São Paulo (Dops-SP). Foi lá que o Estado o encontrou.

O advogado Paulo Esteves, que defende Ustra, não nega a autenticidade da prova. Pelo contrário. Afirma que ela mostra que Ustra fez o que devia: informou os superiores.

O documento em questão é o Ofício 572/72-E/2-DOI, de 21 de agosto de 1972. Endereçado ao diretor do Dops, tinha como origem a 2ª Seção do Estado-Maior do 2º Exército. Ustra assinou o documento por delegação do chefe da seção, coronel Flávio Hugo Lima da Rocha, que lhe repassara a missão recebida do comando. Assim, logo na primeira linha, Ustra diz que foi incumbido pelo "sr. gen. chefe do Estado-Maior do 2º Exército" de informar "o seguinte a respeito de Antônio dos Três Reis de Oliveira".

O primeiro item do documento menciona a prisão de Osvaldo Soares, dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo da esquerda armada que mantinha relações com a ALN. Soares foi capturado em 17 de maio de 1970, durante a série de prisões que desarticulou a VPR em São Paulo e levou à descoberta e cerco da área de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira, mantida pelo capitão Carlos Lamarca.

"Interrogado, declarou (Soares) residir em aparelho, sito à Rua Caraguataí, no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, em companhia de Alceri Maria Gomes da Silva", outra militante da VPR, e de "Eloi, elemento que lhe fora ?passado? por Eduardo Leite (Bacuri) a fim de que ficasse guardado em seu aparelho". Eloi era o nome de guerra de Oliveira.

Bacuri, que o encaminhara para a casa no Tatuapé, era particularmente odiado pela polícia. Em 1970 ele foi um dos chefes do sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Hollenben, solto em troca da libertação de 40 militantes presos.

O relato de Ustra prossegue. Informa que "foram enviados elementos do DOI ao citado aparelho a fim de efetuar a prisão dos elementos" que lá moravam. No local, foi achado "vasto material subversivo, como armamento, munição e explosivos". Os agentes teriam feito "uma revista minuciosa", quando encontraram um alçapão.

"Aberto tal alçapão foi notada a presença de um homem e de uma mulher no interior do porão, os quais passaram a disparar suas armas, formando então intenso tiroteio, em decorrência do qual vieram a falecer sendo posteriormente identificados como Alceri Maria Gomes da Silva (Carmem), pertencente à VPR, e Antônio dos Três Reis de Oliveira (Eloi)."

IDENTIDADE CONHECIDA

O documento mostra que Ustra e o comando do 2º Exército conheciam a identidade dos mortos. Ele diz ainda que Oliveira pertencia ao GTA (Grupo Tático Armado) da ALN e participara de " ações terroristas". Sua família, bem como a de Alceri, não recebeu atestado de óbito nem foi informada sobre o local da sepultura. Nenhuma nota ou documento assumindo a morte de Oliveira foi emitido, como acontecia em casos de supostos tiroteios entre militares e guerrilheiros em São Paulo.

A razão disso pode estar no depoimento ao Estado do agente Fábio, da Seção de Investigação do DOI de São Paulo. Ele informou que o então subtenente Carlos, o Tião da ALN, jogou uma granada no alçapão em que estavam Oliveira e Alceri.

O nome de Oliveira consta do anexo da Lei 9.140/95, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, na qual o Estado reconheceu como mortas as pessoas desaparecidas em função de atividades políticas entre 1961 e 1979 - Alceri deixou de ser considerada desaparecida porque em 1990 a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos obteve documentos sobre sua morte.

O caso de Oliveira está descrito no livro Direito à Memória e à Verdade, editado pela Presidência da República. Afirma-se ali que a prisão ou morte de Oliveira foi negada pelos órgãos de segurança. As primeiras informações sobre seu destino só surgiram anos depois. O primeiro documento a mencionar sua morte foi achado em 1990.

No arquivo do Instituto Médico-Legal de São Paulo estava a guia de requisição de exame de seu corpo e o atestado de óbito. Em 1993 a Aeronáutica entregou ao governo um relatório que, em três linhas, dizia que Oliveira e Alceri morreram em 1970. Muito pouco em comparação ao que o Exército sabia. "

 

O Bode Expiatório

Por Carlos Alberto Brilhante Ustra

 

A respeito da notícia acima, publicada no Estado de São Paulo e em outros jornais e vários blogs e sites tenho a informar o seguinte:

 

1-      Segundo pesquisa nos sites de esquerda –“Tortura Nunca Mais” e “Desaparecidos Políticos”, bem como em livros escritos pela esquerda como “Dos filhos desse solo” de Nilmário Miranda e “Direito à Memória e a Verdade” da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Antonio dos Três Reis de Oliveira morreu, em maio de 1970, juntamente com Alceri Maria Gomes da Silva.  

 

2-      Nessa época eu servia na 2ª Seção do Comando do II Exército, hoje Comando Militar do Sudeste. 

 

3-      Nessa ocasião os DOIs ainda não haviam sido criados. 

 

4-      Antes da criação dos DOIs o órgão encarregado do combate ao terrorismo era a Operação Bandeirante, cujo comandante era o major Waldyr Coelho. 

 

5-      O DOI/SP foi criado em setembro de 1970 e eu assumi o seu comando em 29 de setembro de 1970. 

 

6-      Portanto, nada tenho a ver com a morte de Antonio dos Três Reis de Oliveira que foi morto, segundo seus próprios companheiros, em maio de 1970. 

 

7-      Se assinei o ofício 572/72-0 E2- DOI, em 21 de maio de 1972, por delegação do meu superior hierárquico Cel FlAvio Hugo  Lima da Rocha, deve ter sido em resposta a algum documento recebido. As informações  solicitadas devem ter sido obtidas nos arquivos da antiga Operação Bandeirante. 

 

8-      Deve ser esclarecido que, segundo todas as fontes consultadas, Antonio  dos Três Reis de Oliveira e Alceri Maria Gomes da Silva , morreram no interior de um “aparelho” ao reagirem  à prisão, em  maio de 1970. 

 

9-      Segundo os livros citados no item, acima, o corpo de Antonio dos Três Reis de Oliveira foi encaminhado ao Instituto Médico Legal/SP. onde foi autopsiado pelos médicos legistas João Pagenoto e Abeylard Queiroz Orsini.

 

10- Como acontecia com todos os terroristas que  morreranm portando documentos falsos, ele deve ter sido enterrado com o nome falso que constava na sua carteira de identidade. O Inquérito Policial que apurava a ocorrência esclarecia essa situação, enquanto os Órgãos de Segurança iniciavam a busca nos Serviços de Identificação para encontrar a sua Ficha Datiloscópica original. Só depois da comparação desta ficha, feita por um perito, é que a situação da dupla identidade do morto podia ser revertida na Justiça. 

 

11-  Se a sua família tivesse procurado seu corpo, antes de terminar o prazo de permanência dos restos mortais na sepultura, que julgo ser 4 anos, ele teria sido facilmente identificado. 

 

12- Após este período de espera, caso o corpo não seja procurado, ele é encaminhado para uma vala comum, sem identificação. Este procedimento ocorre em todos os cemitérios do país, quando a família não adquire um jazigo ou um ossário perpétuo. 

 

13- Segundo todos o relatórios que até agora se tornaram publicos, foi o que aconteceu com Antonio dos Três Reis de Oliveira .Portanto, pelo que pesquisei, não penso que ele possa ser considerado como um desaparecido político. Considero como desaparecido político aquele que desapareceu e não se sabe se morreu ou continua vivendo com outra identidade. Este não é o caso de Antonio dos Três Reis de Oliveira.  

 

   Segundo  o Site  

   www.dasaparecidospoliticos.org.br/pessoa

Antonio dos Três Reis de Oliveira

Relatório

Documento do Serviço de Informações, de 18/05/70; com parte do relatório sobre a morte de Antonio dos Três Reis e Alceri Maria Gomes da Silva.

Segundo o documento o indivíduo de nome “Miguel” ou “Fanta”, apontado como um dos seqüestradores do embaixador japonês em São Paulo, forneceu o endereço onde se encontravam Antonio e Alceri. Lá foram encontrados, foram mortos pelos agentes da OBAN.

 

  

Segundo o site

www.torturanuncamais-rj.org.br

www.torturanuncamais-rj.org.br

Antonio dos Tres Reis de Oliveira

Militante da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN)


Nasceu em 19 de novembro de 1946, na cidade de Tiros/MG, filho de Ageu de Oliveira e Gláucia Maria Abadia de Oliveira.

Desaparecido aos 26 anos de idade, em 10 de maio de 1970, em São Paulo.

Fez o curso ginasial no Colégio Nilo Cairo. Estudante de Ciências Econômicas na Faculdade de Apucarana, era membro da União Paranaense de Estudantes. Junto com José Idésio Brianesi, também assassinado pela ditadura, produzia programas para a rádio local.

Foi indiciado no Processo 15/68 por sua participação no XXX Congresso da União Nacional de Estudantes (UNE) e no inquérito policial n° 9/72, dos quais foi excluído em decorrência de sua morte.

Segundo denúncia dos presos políticos de São Paulo, em documento datado de março de 1976, Antônio foi metralhado, juntamente com Alceri Maria Gomes da Silva no dia 10 de maio de 1970, em sua residência, no Tatuapé, São Paulo, por agentes da Operação Bandeirantes (OBAN), chefiada pelo Capitão Maurício Lopes de Lima.

Em 1991, seu nome foi encontrado no DOPS/PR, numa gaveta com a identificação: “falecidos”.

Foi enterrado como indigente no Cemitério de Vila Formosa/SP, no dia 21 de maio de 1970. Seu laudo necroscópico se refere a um único tiro no olho direito e é assinado pelos médicos legistas João Pagenoto e Abeylard Queiroz Orsini.

No dia 10 de dezembro de 1991, com a presença de seus familiares, a equipe de técnicos da UNICAMP, a Comissão Especial de Investigação das Ossadas de Perus e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, tentaram a exumação de seus restos mortais, que não foram encontrados. A quadra onde deveria estar enterrado Antônio e pelo menos outros 2 presos políticos da época (Alceri Maria Gomes da Silva, assassinada em São Paulo na mesma ocasião e Antônio Raimundo Lucena, assassinado em Atibaia no dia 20 de fevereiro de 1970), sofreu profundas alterações. Segundo sepultadores daquele Cemitério, em 1976, houve exumações no momento da alteração da quadra, e as ossadas foram jogadas em algum lugar do Cemitério.

No Relatório do Ministério da Aeronáutica consta que “faleceu em 17 de maio de 1970, em Taubaté/SP, quando uma equipe de segurança procurava averiguar a existência de um provável aparelho, o que resultou na sua morte”, insistindo em desinformar à sociedade e aos familiares sobre o seu paradeiro.
Adicionar comentário