Sinésio, mateiro até hoje...
Por Pedro Dias Leite  - ENVIADO ESPECIAL AO ARAGUAIA - Folha de São Paulo
Camponeses que colaboraram com a repressão à guerrilha afirmam que foram obrigados a trabalhar para os militares. Pessoas ligadas ao Exército e à esquerda atribuem relatos dos ex-guias à busca por indenizações concedidas pela Comissão de Anistia  Quase 35 anos depois do fim da guerrilha do Araguaia (1972-1975), um dilema ainda paira sobre os mateiros que guiaram o Exército na caça aos militantes da luta armada: torturados ou traidores?

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A discussão voltou à tona nas últimas semanas, com a participação crucial desses mateiros para indicar onde podem estar as ossadas de quase 60 guerrilheiros jamais encontrados, mortos no que o povo da região chama de "a guerra". Até hoje, apenas dois foram achados e reconhecidos. Em muitas das atuais buscas, são os mateiros que contam o que presenciaram e dão indicações sobre possíveis locais de enterro.

Nas décadas que se seguiram ao conflito, os mateiros mantiveram relação próxima com os militares que exterminaram a guerrilha, o que alimentou a imagem de aliados da ditadura. De colaboradores dos guerrilheiros quando os militantes de extrema esquerda chegaram à região, passaram a ficar a serviço das Forças Armadas.

Agora, apesar de não negarem os vínculos com os militares, começam a contar uma outra parte dessa história -a tortura que os levou a mudar de lado. "O "pessoal da mata" [a guerrilha] era meu amigo. Eu não ia fazer se não fosse obrigado. No começo dei muita comida. Depois, não teve jeito, a gente não tinha outra escolha", conta o mateiro Severino Antonio da Silva, o Severinão, 85 anos.

 

Indenizações

Por trás da onda revisionista, dizem pessoas ligadas aos guerrilheiros mortos e ao Exército, está uma busca por indenizações. Existem de 45 a 50 processos de ex-guias à espera de análise na Comissão de Anistia. Nenhum foi julgado até agora.

"Esses guias foram pagos, é um absurdo pedir indenização. Eles receberam terra, dinheiro, recebiam inclusive por guerrilheiro morto", diz Criméia Almeida, ex-militante da guerrilha e representante da comissão dos familiares de mortos e desaparecidos na ditadura.

A história de todos os guias não é a mesma. Na região, alguns são vistos como adesistas ao Exército sem que tenham sido forçados, enquanto outros aparecem como vítimas. "Sofri demais. Tenho um problema de ouvido de um "telefone" que tomei e saiu sangue", diz o camponês José Maria Alves da Silva, o Zé Catingueiro, 72, que diz ter sido torturado por 29 dias e depois colocado numa sala de sal, para arderem as feridas. Ao final do mês de suplícios, diz, colaborou com os militares.

Num sinal das nuances dessa história, Catingueiro é também apontado como o assassino da guerrilheira "Cristina" (Jana Moroni Barroso, aos 26), em janeiro de 1974. Ele nega.

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