Imprimir
Categoria: Diversos
Acessos: 2437

 15/08/1990 - VEJA - Numa manifestação em Porto Alegre, um soldado da Brigada Militar é degolado numa batalha campal entre a polícia e os sem-terra
Pontudas e afiadas, empunhadas por homens de braços musculosos e botinas cobertas de terra, centenas de foices fizeram sua mais trágica aparição nos conflitos sociais do país, na quarta-feira da semana passada, na Praça da Matriz, bem no centro de Porto Alegre. Por volta das 11 horas da manhã, quando soldados da tropa de choque tentaram desalojar 400 agricultores que montavam um acampamento a poucos metros do Palácio Piratini, sede do governo estadual, as foices brilharam no céu pela primeira vez - como arma de lavradores dispostos a enfrentar os cassetetes e as baionetas dos policiais. Mais tarde, elas surgiram com seu perfil de Lua minguante no meio da fumaça de bombas de gás lacrimogêneo, do barulho de tiros de revólver, vitrines quebradas e automóveis depredados, de poças de sangue e cacos de vidro. Quase ao meio-dia, num lugar de Porto Alegre conhecido como a Esquina Democrática, que fica no cruzamento de uma das principais artérias da cidade, a avenida Borges de Medeiros, com a chamada Rua da Praia, as foices apareceram novamente - e produziram um cadáver que deixou o país em estado de choque.

Texto completo

Ao cruzar com um automóvel Gol da polícia, uma dezena de agricultores atingiu o carro na lataria - com as foices. O soldado Valdeci de Abreu Lopes, 27 anos, estava no volante e resolveu descer, empunhando o revólver numa das mãos e o cassetete, na outra. Mal pôde caminhar. Foi cercado por um bando de agricultores, que o agarraram por trás e o imobilizaram - o soldado Valdeci teve tempo, apenas, para apertar o gatilho duas vezes, com a arma apontada para o chão. Nesse momento, a foice de um homem que, segundo sete testemunhas, é Otávio Amaral, tem 26 anos, uma mulher professora primária e um pequeno pedaço de terra no interior do Estado enterrou a foice no pescoço de Valdeci, cortando-o na artéria jugular. Degolado, o soldado cambaleou alguns passos, disparou um tiro a esmo e caiu no asfalto, onde os assassinos o deixaram agonizar até ser recolhido por um comerciante das proximidades.

SELVAGERIA E CRIME - Pela violência, o confronto entre agricultores e policiais que tomou conta do centro de uma das maiores cidades brasileiras, na semana passada, marca a mais grave tragédia já produzida em conflitos de rua do país desde 1986, quando um bóia-fria e uma empregada doméstica foram mortos ao longo de uma greve de trabalhadores rurais em Leme, a 188 quilômetros de São Paulo. Pela selvageria, assistiu-se em Porto Alegre a uma jornada que a maioria dos brasileiros acredita só poder ocorrer em lugares como Beirute, a cidade sangrada pela guerra civil que consome o Líbano. Em menos de quatro horas de confronto, 54 lavradores estavam feridos, uma dezena deles a golpes de baioneta; mais de vinte policiais foram parar no hospital; e trinta pessoas estavam presas. No fim do dia, foram recolhidos nas ruas da cidade 120 foices, quarenta facões e 54 enxadas. A guerra das foices e baionetas de Porto Alegre levou policiais a recomendar a donas de casa que não saíssem à rua, obrigou os principais estabelecimentos comerciais do centro a fechar suas portas, e encerrou-se como o mais claro sinal de que o Brasil de 1990 é um país com graves manchas de tensão.

Na quinta-feira da semana passada acabou a luz em quase todo o Estado da Bahia por uma hora e quinze minutos, deixando a capital, Salvador, e outras cidades de porte completamente às escuras - conforme denúncia do ministro da Infra-Estrutura, Ozires Silva, descobriram-se sinais evidentes de que foi um ato criminoso de sabotagem promovido pelo sindicato dos eletricitários, em greve por aumento de salário. Em Prudentópolis, a 215 quilômetros de Curitiba, conflitos entre agricultores e proprietários de terra produziram três mortes em apenas um mês. Na madrugada de sexta-feira passada, por fim, um grupo de 200 famílias de posseiros interditou a BR- 158, no Mato Grosso, em protesto contra a demora do governo para lhes arrumar lotes de terra na região. Afora o fato, óbvio, de que bom parte desses conflitos tem sua origem em disputas agrárias, fenômeno que no Brasil é tão antigo quanto o Tratado de Tordesilhas, não é possível estabelecer nenhum laço de parentesco maior entre eles. Da mesma forma, não existe uma correlação possível entre o que se passou em Porto Alegre e a baderna promovida na Ford durante uma greve de metalúrgicos que terminou com 51 automóveis destruídos, por exemplo. O que essas cenas ilustram no entanto, são momentos de selvageria e radicalismo que culminam na produção de um crime. Nesse campo, a tragédia das foices de Porto Alegre constituiu-se num espetáculo exemplar.

Na manhã da quarta-feira passada, quando cerca de 400 lavradores desembarcaram de nove ônibus para armar treze barracas de lona no centro da cidade, tinha-se a impressão de que os moradores de Porto Alegre estavam prestes a assistir a uma típica manifestação dos chamados sem-terra. Como se sabe, eles são lavradores que há vários anos perambulam sem destino pelo Estado, ouvindo autoridades que lhes prometem um lugar para plantar, mais tarde não cumprem as promessas anunciadas em cerimônias solenes e por fim submetem a população inteira a muita dor de cabeça. Em 1986, por exemplo, uma multidão de posseiros desalojados da fazenda Anoni, no interior do Estado, que está no centro de um conflito que se prolonga por mais de dez anos, já havia promovido uma manifestação de milhares de pessoas na cidade - que culminou na invasão das dependências da Secretaria da Agricultura. Dois anos depois, ocupou-se a sede local do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra. Em 1989, eles acamparam em frente à Assembléia Legislativa, que fica na mesma Praça da Matriz, e até tentaram invadi-la - mas foram repelidos pela polícia.

Como sempre fazem nessas ocasiões, na quarta-feira da semana passada os lavradores chegaram a Porto Alegre com suas barracas, comida para quinze dias e fogareiros para aquecer a água do chimarrão. Havia de sua parte uma novidade em matéria de equipamento - os facões, foices e enxadas que, evidentemente, não costumam ter nenhuma utilidade pacífica a partir do momento em que uma pessoa entra no perímetro urbano. Homens do campo, chegaram cedo - por volta das 6 da manhã. Três horas mais tarde, quando o expediente do Palácio Piratini já fora aberto, enviaram três representantes de camisa xadrez e calça desbotada que, acompanhados por um grupo de deputados, foram negociar com as autoridades do governo.

O que eles queriam era saber o que fora feito de um acordo, lavrado com toda pompa sessenta dias antes. Nele, firmara-se um compromisso pelo qual o governo deveria adquirir, com dinheiro público, uma área de 1.000 hectares, equivalente a um município como São Caetano do Sul, para alojar 1.700 famílias acampadas numa fazenda chamada Boa Vista, propriedade do Incra, a 368 quilômetros de Porto Alegre. O prazo para o cumprimento desse pacto vencera na véspera, 8 de agosto, uma data qualquer na agenda de todo brasileiro que vive na cidade, mas que representa uma dia muito preciso na lavoura. Esse dia marca um dos últimos períodos em que se pode iniciar o plantio - atividade que se não fosse inaugurada em prazo de urgência condenaria aquelas famílias a permanecer sem ter o que fazer e sem recursos para sustentar-se por mais de um ano, sobrevivendo de cestas de alimentos e outras formas de esmola social enviadas pelo governo.

NOVIDADES AFIADAS - Ocorre que, se os lavradores desembarcaram em Porto Alegre com suas surpresas cortantes e pontiagudas, as autoridades também tinham novidades igualmente afiadas para lhes mostrar. A respeito dos 1.000 hectares, o secretário da Agricultura, Marcos Palombini, tinha a dizer o seguinte - o dinheiro para comprá-los, metade do qual seria enviada pelo governo federal, conforme anunciara o ministro Antonio Cabrera, não aparecera. Quanto ao acampamento, onde os lavradores pretendiam instalar-se por duas semanas, o secretário da Segurança Pública, José Eichenberg, tinha a informar que precisava ser desmontado o quanto antes - ninguém, no palácio, pretendia conviver com tão medonha atração turística na reta final de uma campanha eleitoral.

Enquanto transcorria uma conversa enfeitada pela elegância possível do momento no interior do Piratini, do lado de fora assistiam-se a outros movimentos. Ali, o ambiente era de tensão desde a chegada de 300 homens da Brigada Militar, comandados pelo coronel Jair Portela, que cercaram a Praça da Matriz munidos de cassetetes, escudos, capacetes e baionetas caladas. Como num ritual conhecido por ambas as partes, os lavradores reagiram à sua maneira, gritando palavras de ordem e empunhando foices e facões - numa coreografia rural que, apesar da originalidade, no início nem chegou a chamar muito a atenção. Do Palacinho, a residência oficial, de onde despacha com freqüência, o governador Sinval Guazzelli acompanhava os acontecimentos por telefone e ordenou que eles fossem retirados da área. O deputado Erani Muller, vice-presidente da Comissão de Agricultura da Assembléia Legislativa e que funcionava como uma espécie de porta-voz engravatado dos agricultores, mandou avisar que eles não sairiam assim.

Em tom duro, o coronel Jair Portela deu 15 minutos de prazo para que os sem-terra levantassem acampamento - sem sucesso. Eram 11h30 quando o batalhão de choque da Brigada Militar, perfilado atrás do Palácio Pratini, com cerca de 100 homens, começou a avançar sobre a praça. Os soldados pretendiam desmontar as barracas e ficar com as ferramentas, mas foram recebidos a pedradas. Ouviu-se um tiro, mais tarde o barulho da explosão de bombas de gás lacrimogêneo e, a seguir, os 100 soldados da Brigada Militar e os 400 lavradores partiram para o corpo a corpo.

O que ocorreu em seguida foi uma seqüência crescente de barbarismo. Sob uma nuvem de gás lacrimogêneo, a maior parte dos agricultores saiu em debandada e enfrentava a Brigada Militar com o que encontrava ao alcance da mão. Em fuga, um grupo de cerca de 100 manifestantes enveredou pela Avenida Borges de Medeiros na esperança de conseguir abrigar-se nas dependências de uma repartição mais segura, a prefeitura de Porto Alegre, do prefeito Olívio Dutra, do PT, sigla que mantém laços de consangüinidade com a organização dos sem-terra. Em sua passagem, quebrava vidros de carros e vitrines de lojas. Por volta do meio-dia, parte do grupo de agricultores que se espalhou pela cidade conseguiu se entrincheirar na prefeitura, onde 178 pessoas acomodaram-se no saguão do prédio. Uma comissão dos manifestantes foi recebida pelo prefeito da cidade, Olívio Dutra. Ao meio-dia e quinze, a prefeitura foi cercada por 250 homens da Brigada Militar numa operação que teve lances típicos de uma situação de anarquia. O primeiro diz respeito ao comportamento do prefeito Olívio Dutra, que, apesar de saber que os manifestantes carregavam foices e enxadas, considerou que o "movimento tinha tudo para ser pacífico". Ele também negou-se a permitir que a polícia ouvisse no prédio da prefeitura as testemunhas da morte do soldado Valdeci, ocorrida momentos antes. "Aqui ninguém faz reconhecimento", disse ele.

Mais tarde, Olívio Dutra telefonou ao governador Sinval Guazzelli para lhe pedir que mandasse os soldados embora. Do outro lado da linha, contudo, a mais graduada autoridade do Estado não estava em condições de tornar muitas providências. Assim que soube da notícia da morte do soldado da Brigada Militar, Guazzelli passou mal e foi medicado. Depois, ao ouvir o apelo do prefeito da capital, chegou a transmitir a ordem de retirada para a que ilhava a prefeitura, mas não foi ouvido. Dispostos a sair dali somente depois que fossem entregues os suspeitos da morte de Valdeci, o brigadianos tornaram-se por várias horas um poder autônomo e o seu comandante naquela operação, o major Nivaldo Fraga, um homem bem mais poderoso do que poderia supor por sua patente. "Só com minha ordem eles saem", disse o major. "Nem o Collor mandando eles saem." No dia seguinte, o governo faria o possível para inundar os meios de comunicação e tratou de desmentir oficialmente o ocorrido. Fraga declarou que não havia recebido ordens para retirar as tropas - e por essa razão mantivera o cerco à prefeitura até as dez da noite, quando, após uma negociação delicada, os sem-terra foram embarcados em ônibus especiais que os levaram a um centro esportivo num bairro afastado da cidade. "Não perdemos o controle da situação", diz o secretário da Segurança, José Eichenberg. "Vocês não sabem o que é controlar uma instituição que teve um colega morto. Eles querem Justiça."

Com suas foices, baionetas e autoridades ineptas, a tragédia de Porto Alegre é um desses acontecimentos que produzem o encontro de personalidades com uma situação até parecida - mas que acabam assumindo atitudes opostas. Com apenas 26 anos, preso como principal suspeito pelo assassinato do soldado Valdeci, Otávio Amaral é uma figura típica dos integrantes de movimentos dos sem-terra no Rio Grande do Sul. Filho de um pequeno agricultor em Rincão Seco, região do município de Ibirubá, a 295 quilômetros de Porto Alegre, trabalhava nas terras do pai, que já não davam para o sustento de toda a família. Casado, deixou a mulher com os familiares e integrou-se ao movimento dos sem-terra na esperança de conseguir um terreno para si próprio. Na quarta, por volta do meio-dia, antes de ter sido identificado por qualquer testemunha, Amaral estava recolhido num pronto-socorro, com cortes no braço, provocados por golpes de baioneta, e uma marca nas costas - coronhada. Proclamando sua inocência, ele chegou a assegurar que estava sendo vítima de uma operação destinada a transformá-lo num bode expiatório. 'Fui ameaçado quando cheguei ao hospital por policiais", afirmou. "Eles disseram que eu matei o policial apenas porque querem achar um culpado de qualquer jeito." O que há de verdade e o que não passa de advocacia em causa própria no depoimento de Amaral é uma questão que as testemunhas do crime poderão esclarecer de forma cristalina. É certo, de todo modo, que qualquer esforço para encobrir as responsabilidades por um assassinato fará dos integrantes dos sem-terra representantes legítimos de uma das mais daninhas tecnologias nacionais - aquela que ensina que se perseguem os inimigos de forma implacável e se protegem os aliados na penumbra da impunidade. Na sexta-feira da semana passada, havia sete testemunhas acusando Otávio Amaral - e havia o problema de saber se o que todas elas enxergaram não passou de uma miragem.

Com 28 anos, que completaria esta semana, o soldado Valdeci pertencia a uma classe de pessoas localizada um degrau acima do de Otávio. Casado com Sônia de Oliveira Lopes e pai de Carina, de 9 meses, ele era um dos oito irmãos de uma família de origem humilde, mas era proprietário de uma modesta casa de um quarto em Porto Alegre e de uma Belina ano 1973, que havia acabado de reformar. Também pertencia àquela estreita faixa dos brasileiros que conseguiram agarrar um diploma de primeiro grau. Com um salário mensal de 19.000 cruzeiros por seis horas de trabalho diário na Brigada Militar, ele complementava o orçamento familiar trabalhando como jardineiro nas horas vagas. Muito calmo, era conhecido no 9o Batalhão, onde servia havia sete anos, como uma pessoa que falava pouco. Na quinta, seu corpo foi conduzido do velório na sede da Brigada Militar ao cemitério João XXIII, acompanhado de um cortejo de cerca de 200 pessoas, a maioria soldados e oficiais da corporação. Valdeci teve ainda a última honra destinada a pessoas de sua classe - foi promovido postumamente a cabo, com direito a um aumento de salário de 4.000 cruzeiros.

OS SEM-EMPREGO E OS SEM-MÉDICO - À primeira vista, os agricultores que se envolveram na baderna de Porto Alegre, na semana passada, por sua índole e aparência, poderiam ser considerados típicos brasileiros do campo. Por sua origem e passado, no entanto, também podem ser encarados de maneira muito diferente. Em primeiro lugar, como integrantes dos sem-terra, pertencem a um dos grupos mais ativos do país, com uma gorda folha de proezas em matéria de confusões.

Em segundo lugar, carregam um pesado contencioso com a Brigada Militar do Estado, com quem já se defrontou em episódios recentes de violência, como na invasão da fazenda Elmira, em 1989, quando descobriu-se no interior dos sem-terra até mesmo grupos armados, como o chamado batalhão Rose, formado apenas por mulheres, que não hesitava em manipular enxadas, facões ou grosseiras espingardas pica-pau. Os sem-terra gaúchos também ocupam um lugar muito particular na história dos problemas fundiários no país pelo tratamento que o governo dispensa a eles.

Verdadeira galinha dos ovos de ouro do populismo nacional, a reforma agrária é mito desses assuntos que, periodicamente, freqüenta os discursos dos políticos. Por um desses mistérios não esclarecidos do país, os governantes convivem muito bem com a maioria dos brasileiros desamparados - e nunca se sentiram na obrigação, por exemplo, de prometer emprego aos sem-emprego, médico aos sem-médico ou escola aos sem-escola. Toda vez que se depara com um sem-terra, no entanto, as autoridades sentem-se no dever de anunciar que serão capazes de transformá-los em com-terra. Por que fazem isso, não se sabe. O que se sabe é que esse costume é antigo, freqüentou o arsenal de todos os governos brasileiros antes e depois de 1964, com resultados sempre idênticos. Anuncia-se que o governo irá dar terra - mais tarde, descobre-se que o governo não tinha terra e muito menos vontade de distribuí-la.