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Categoria: Diversos
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 Até pouco tempo, não mais do que algumas semanas, o presidente Lula não tinha do que se queixar. Só enxergava vento a favor no horizonte. Os ventos, contudo, estão querendo mudar de direção. O tempo pode virar e passar a ventar contra os projetos do presidente. Nada grave, por enquanto. Mas são sinais de que as coisas podem não seguir o plano traçado dentro do gabinete de Lula. Senão, vejamos.

 

 

 

 

 

 

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1) Marina, o fato novo - Lula está preocupado com a disposição da senadora petista em analisar o convite do PV para sair candidata a presidente da República. Até o surgimento da articulação, o presidente cuidava de tirar Ciro Gomes (PSB-CE) da disputa e, com isso, transformar a eleição numa campanha praticamente restrita à sua candidata Dilma Rousseff e o governador tucano José Serra. Marina pode estragar toda estratégia presidencial e garantir a realização de um segundo turno.

2) Senado em crise - Algumas pesquisas já estariam registrando queda na popularidade do presidente Lula e nas intenções de voto da petista Dilma Rousseff. A queda estaria relacionada ao apoio que o presidente e sua ministra da Casa Civil vinham fazendo do aliado José Sarney, presidente do Senado. Se futuras pesquisas confirmarem essa queda, Lula terá de tomar o caminho que não desejava: abandonar, discretamente e progressivamente, o aliado peemedebista.

3) O troco do PMDB - Se tiver de abandonar Sarney para poupar seu capital político e evitar uma sangria na candidatura Dilma, o presidente terá de administrar as mágoas do PMDB. O partido costuma cobrar caro. Não será diferente dessa vez, caso os petistas decidam votar contra Sarney no Conselho de Ética e forçá-lo a deixar a Presidência do Senado para preservar o mandato.

4) Dólar desvalorizado - No momento em que a economia dá sinais concretos de reação, vem uma dor de cabeça na economia. A forte desvalorização do dólar, e consequente valorização do real, que tira a competitividade da indústria brasileira. Resultado: as exportações de manufaturados tendem a cair, prejudicando a economia do país. Pior: por enquanto, ninguém sabe exatamente como resolver o problema.

5) Receita Federal fora de controle - Desde a demissão de Lina Vieira do comando da Receita, o governo se viu refém de um grupo do órgão, alinhado à ex-secretária. Agora, depois das últimas revelações de Lina, de que teria sido convocada por Dilma para agilizar fiscalizações nas empresas da família Sarney, a situação pode ficar ainda pior. O governo terá de compor com os aliados de Lina se não quiser enfrentar dissabores pela frente. Afinal, comandante ou ex-comandante da Receita costuma saber de coisas que podem deixar muita gente mal na foto. E como.

Repetindo, nada de grave, por enquanto. Em todas as situações, contudo, o governo tem (boa) parte da responsabilidade pelos problemas criados. Marina, ex-ministra do Meio Ambiente, deixou o governo depois de ser bombardeada exatamente por Dilma. Sarney chegou à Presidência do Senado com o apoio nos bastidores de Lula. Até aqui, o governo petista pouco fez para reduzir o custo das empresas brasileiras, talvez a forma mais eficiente a ser usada para combater o dólar desvalorizado. E a Receita foi colocada em pé de guerra por conta de uma demissão muito mal administrada de Lina Vieira.

Em outras palavras. Esse é um governo pródigo em causar problemas para ele mesmo. Não fosse isso, a oposição estaria em maus lençóis e poderia dar a batalha pela campanha presidencial como perdida desde já. Mas como o vento costuma virar sem avisar ninguém, principalmente aos incautos, o negócio é esperar a próxima estação e descobrir a quem ela vai beneficiar.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.