A falta de liderança na ALN

"Justiçamento" de Márcio Toledo Leite

Pela editoria do site    www.averdadesufocada.com

Após a morte de Joaquim Cãmara Ferreira - "Toledo" -, a ALN, sem liderança, tentou recompor-se através de uma Coordenação Nacional Provisória ( CNP) , reunindo alguns coordenadores regionais da ALN. Passaram a compor a CNP, Yuri Xavier Pereira, Marcio Leite Toledo e Carlos Eugênio Sarmento Coelho  da Paz - " Clemente" - representando São Paulo , Arnaldo Cardoso  Rocha, Minas Gerais e  Hélcio Pereira Fortes, a Guanabara.

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Em janeiro a Coordenação Nacional Provisória expediu o documento " Balanço dos três anos"  no qual, através de uma auto crítica, esforçava-se para aproximar-se  das posições do "Grupo dos 28" , ( grupo que, na ocasião , fazia curso de guerrilha em Cuba e divergia das atitudes  da ALN no Brasil ).   A CNP,  procurando solução para o impasse,  por meio de Carlos Figueiredo de Sá, que se deslocou de Montevidéu para Santiago, recontatou os militantes que haviam sido banidos em troca do embaixador suíço e novas normas de ação foram traçadas. Porém, a falta de liderança continuava e ainda nesse mês,  houve problemas no nordeste. A subordinação dos trabalhos daquela área  a uma  coordenação no sul não era aceita. O grupo que lá atuava foi transformado, à revelia da organização, na Frente de Libertação Norte-Nordeste (FLNN). O problema, no entanto, foi  contornado com  a liberdade de atuação tática da FLNN, mas, se mantendo estrategicamente ligada à ALN. A CNP tudo fazia no sentido de manter a unidade da organização .

O amadurecimento das dívergências sobre o "desvio esquerdista" da organização, iniciadas com as contestações do "IlI Exército  da ALN " em Cuba - "Grupo dos 28",

 refletiu no desencanto de Márcio Leite Toledo, que foi destituído da CNP e rebaixado para  um grupo de fogo do GTA.

 O Assassinato de Márcio Leite Toledo

As posições de Márcio  Leite Toledo, contestando a orientação da Coordenação Nacional,  teriam consequências trágicas. Ao tentar se desligar da organização, ele seria "justiçado"  por um' comando da ALN   A manhã de 23 de março de 1971 encontrou o jovem advogado de 26 anos, Sérgio Moura Barbosa, escrevendo uma carta, em seu quarto de pensâo no bairro de Indianópolis, na capital de São Paulo. Os bigodes bem aparados e as longas suíças contrastavam com o aspecto conturbado de seu rosto, que nao conseguia esconder a crise pela qual estava passando.

 Três frases foram colocadas em destaque na primeira folha da carta: "A Revolução não tem prazo e nem pressa"; "Não pedimos licença a ninguém para praticar atos revolucionários"; e "Não devemos ter medo de errar. É preferível errar fazendo do que nada fazer". Em torno de cada frase, todas de Carlos Marighela, o jovem tecia ilações próprias  tiradas de sua experiência revolucionária como ativo militante da Ação Libertadora Nacional (ALN).

Ao mesmo tempo, lembrava-se das profundas transformações que ocorreram em sua vida e em seu pensamento, desde 1967, quando era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e estudante  de Sociologia Política da Universidade Mackenzie, em São  Paulo. Pensava casar-se com Maria Inês e já estava iniciando a montagem de um apartamento na Rua da Consolação.

Naquela época, as concepções militaristas exportadas por Fidel Castro e Che Guevara empolgavam os jovens, e Marighela surgia como o líder comunista que os levaria à tomada do poder através da luta armada.

Impetuoso, desprendido e idealista, largou o PCB e integrou- se ao agrupamento de Marighela, que, no início ,de 1968, daria origem à ALN.

Naquela manhã, a carta servia como repositório de suas dúvidas: "Faço esse comentário a propósito da  situação em que nos encontramos, completa defensiva e absoluta falta de imaginação para sairmos dela. O desafio que se nos apresenta no atual momento é dos mais sérios, na medida em que se está em jogo a própria confiança  no método de luta que adotamos. O impasse em que nos encontramos ameaça comprometer o movimento revolucionãrio brasileiro, levando-o, no mínimo, à estagnação e , no maximo à extinção."

Esse tom pessimista estava muito longe das esperanças que depositara nos métodos revolucionários cubanos. Lembrava-se de sua prisão, em fins de julho de 1968, quando fora denunciado por estar pretendendo realizar um curso de guerrilha em Cuba.

Conseguindo esconder suas ligaçôes com a ALN, em poucos dias foi liberado. Lembrava-se, também, da sua primeira tentativa para ir a Havana, através de Roma, quando foi detido, em 6 de agosto de 1968, no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Conduzido à  Policia do Exército, foi liberado três dias depois. Finalmente, conseguindo o seu intento, permaneceu quase dois anos em Cuba usando o codinome  de "Carlos". Aprendeu a lidar com armamentos e explosivos, a executar sabotagens, a realizar assaltos e familiarizou-se com as técnicas de guerrilhas urbana e rural. Em junho de 1970, voltou ao Brasil, clandestinamente, retornando suas ligações com a ALN.

Em face de sua inteligência aguda e dos conhecimentos que trazia de Cuba, rapidamente ascendeu na hierarquia da ALN, passando a trabalhar a nível de sua Coordenação Nacional. Foi quando, em 23 de outubro de 1970, um segundo golpe atingiu duramente a ALN, com a morte de seu líder Joaquim Câmara Ferreira, o "Velho" ou "Toledo", quase um ano após a morte de Marighella, em novembro de 1969.

Lembrava-se que, durante 4 meses,  ficou sem ligações com a organização. Premido pela insegurança, não compareceu a vários pontos, sendo destituído da Coordenação Nacional.

Nâo estava concordando com a direçâo empreendida à ALN e escreveu na carta que havia entrado "em entendimentos com outros companheiros igualmente em desacordo com a conducão  dada ao nosso movimento."

No início de fevereiro de 1971 foi chamado para uma discussâo com a Coordenação Nacional e, na carta, assim descreveu a reunião: "Ao tomarem conhecimento de meu contato paralelo, os companheiros de comando chamaram-me para uma discussão a qual transcorreu num clima pouco amistoso, inclusive como o emprego  pelas duas partes de palavras inconvenientes para uma discussão política. Confesso que fiquei surpreso com a reação dos companheiros por não denotarem  qualquer senso de auto crítica e somente entenderem a minha conduta como um simples ato de indisciplina."

Não sabia, o jovem, que a ALN suspeitava de que houvesse traído o "Velho".

Com o crescimento de suas indecisões, não aceitou, de pronto, a função que lhe foi oferecida de ser o coordenador da ALN na Guanabara. Ao aceitá-la, após um período de reflexão, a proposta já fora cancelada. Foi, então, integrado  a um "Grupo de Fogo" da ALN em São Paulo, no qual participara de diversos assaltos, até aquela manhã. Seu descontentamento, entretanto, era visível: "Fui integrado  nesse  grupo, esperando que, finalmente pudesse  trabalhar dentro  de  uma certa faixa de autonomia e aplicar meus conhecimentos e técnicas em prol do movimento. Aí permaneci por quase dois meses, e qual não foi minha decepção que aí também estava anulado.... Tive a sensação de castração política".

 Não sabia o jovem que a ALN estava considerando o seu trabalho no "Grupo de Fogo como desgastante e "ainda somado à vacilação diante do inimigo".

No final da carta, Sérgio, mantendo a ilusão revolucionária, teceu comentários acerca de sua saída da ALN :"Assim, já não há  nenhuma possibilidade  de continuar tolerando os erros e omissões políticas de uma direção que já teve a oportunidade de se corrigir e não o fez."

Em  sã consciência, jamais  poderei ser acusado de arrivista, oportunista ou derrotista.

Não vacilo e nao tenho dúvidas quanto às  minhas convicções. Continuarei  trabalhando pela Revolução, pois ela é o meu único compromisso.".

"Procurarei onde possa ser efetivamente útil ao movimento e sobre isso conversaremos pessoalmente."

Ao final, assinava "Vicente", o codinome que havia passado a usar depois de.seu regresso de Cuba.

Terminada a redação, pegou o seu revólver calibre .38 e uma lata cheia de balas com um pavio à guisa de bomba caseira e  saiu para "cobrir um ponto"  com um militante da ALN. Não sabia que seria traído. Não sabia, inclusive, que o descontentamento da ALN era tanto que ele já havia sido submetido a julgamento, e condenado  por um "Tribunal Revolucionário".

No final da tarde circulava, pelas ruas do Jardim Europa, tradicional bairro paulistano, procedendo aos costumeiros  desvios para despistar possiveis agentes dos órgãos de seguranças.

Na altura do número 405 da Rua Caçapava aproximou-se um Volkswagen grená com dois ocupantes que dispararam mais de 10 tiros de revólver .38 e pistola 9mm. Um Gálaxie, com 3 elementos, dava cobertura à ação. Apesar da reação do jovem, que chegou a descarregar sua arma, foi atingido por 8 disparos. Morto na calçada seus olhos abertos pareciam traduzir a surpresa de ter reconhecido seus assassinos. Da ação faziam parte seus companheiros da direção nacional da organização subversiva Yuri Xavier Pereira e Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, "Clemente", este último o autor dos disparos fatais. Participaram,  ainda, da ação, dando-lhes cobertura,: Antonio Sérgio de Matos, Paulo de Tarso Celestino da Silva e José Milton Barbosa.

Havia sido condenado pelo "Tribunal Revolucionário"  e excutado sem direito a defesa. Ao lado do corpo,  foram jogados panfletos, nos quais a ALN assumia a autoria do "justíçamento"  com o seguinte comunicado:

"A  Acão Libertadora Nacional (ALN) executou , no dia 23 de março de 1971, Márcio Leite Toledo. Esta execução teve o fim de resguardar a organização

 Uma organização revolucionária , em guerra declarada, não pode permitir  a quem tenha uma série de informações como as que possuía, vacilações dessa espécie, muito menos uma defecção deste grau em suas fileiras

 Tolerância e conciliação tiveram funestas consequências na revolução brasileira.

Tempera-nos saber compreender o momento que passa a guerra revolucionária e nossa responsabilidade diante dela  é nossa palavra de ordem revolucionária.

Ao assumir responsabilidade na organização cada quadro deve analisar sua capacidade e seu preparo. Depois disso não se permite recuo.

 A Revolução não admitirá recuos."

O jovem não era "advogado" e nem se chamava "Sérgio Moura  Barbosa", "Carlos" ou "Vicente".  Seu nome verdadeiro era Márcio Leite Toledo

Enterrado dias depois em Bauru, seu irmão mais velho, então Deputado Federal por São Paulo, declarou saber que ele havia sido morto pelos próprios companheiros comunistas.

 O assassinato de Márcio Leite Toledo gerou uma onda de protestos dentro da organização. A CNP,  desgastada, foi modificada com a substituição  de Yuri e "Clemente".

 Em uma tentativa de apaziguação da CNP com o "III Exército da ALN" , que se preparava para voltar ao Barsil, Yuri Xavier Pereira foi a Havana , em maio, para tentar manter a união da ALN com o chamado "Gupo dos 28," que ameaçava se separar da ALN, o que acabou ocorrendo, ocasionando o surgimento do Movimento de Libertação Popular - MOLIPO, em meados de maio de 1971.  Além do grupo , a ALN ainda perdeu  a maior parte da Frente De Massa da Coordenação Regional/ SP.

 Com o "racha" do "III Exército da ALN " e da Frente de Massas da CR/SP, não se justificava mais o afastamento de Yuri e " Clemente " da Coordenação Nacional, ficando Yuri como responsável pelas ligações da organização com o exterior.

Enquanto os elementos do "Grupo dos 28" que voltavam ao Brasil aglutinavam-se em torno do Molipo, os que permaneceram no exterior, sob a liderança de Rolando Fratti, Argonauta Pacheco da Silva e Ricardo Zarattni - que ainda em Cuba se afastara do "Grupo dos 28"-,  propunham reformulaçõesa na linha polltica da organização.  Esta facção intitulou-se Tendência Leninista da ALN (TL/ALN) e, sem se afastar da organização, ganharia praticamente todo o esquema da organização no exterior.

 

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