Por Jorge Geisel 
Um dos maiores equívocos nascidos do discurso urbano enxerido em assuntos da terra, foi a substituição da "colonização" pela "reforma agrária". A primeira, visava ocupar os grandes vazios do território brasileiro de forma ordenada, concentrando recursos privados, em parceria com projetos de infra-estrutura e de desenvolvimento regionais de interesse integrativo do Governo central. No processo colonizador, toda uma coletividade pioneira participava, com seus agricultores, criadores, profissionais liberais, serviços em geral, e as novas e promissoras cidades nasciam. Os exemplos estão aí, espalhados pelos melhores brasis do mapa que dispomos. A segunda, nasce da obsessão ideológica de tirar a propriedade de quem tem para dar a qualquer um que se diga "agricultor sem terra"...

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Ora, como todo sujeito sem profissão definida é sempre qualificado, pela mania tradicional da casta burocrática interiorana, de "lavrador", muita gente acaba se convencendo que tem uma profissão, sem nunca a ter exercido... Tecnicamente, "agricultor sem terra" é aquele que pratica a "hidroponia"... Financeiramente, o que tenha perdido sua propriedade, hipotecada sob as cláusulas leoninas do crédito bancário da usura oficial...

Dizem os peritos ideológicos que a terra sem uso ou sem utilidade social, é identificada pela pouca produtividade e deve ser "ocupada" pelos invasores de plantão, para a promoção judicial de sua desapropriação sumária, pelo Estado Onipotente. Onde e quando não interessa. Seria interessante adotar o mesmo raciocínio para o segmento produtivo urbano... Fábricas para os industriários-sem-indústria...Lojas para comerciários- sem-loja. Bancos, para bancários-sem-banco etc... E , que tal, Governo para eleitores-sem-governo? Não há qualquer consideração lógica por parte do Estado no acatamento à revolução em marcha de enxadeiros e foiceiros - as desapropriações são esparsas, sem qualquer estudo de viabilidade econômica. "Tudo pelo social !" As pessoas acantonadas, são organizadas em massa através de arrastões de cunho ideológico totalitário, confessado e difundido, num planejamento de mobilização disciplinada, com apoio logístico digno de qualquer exército profissional. A terra em si, a grande sofrida, não entra em consideração. Trata-se, apenas, do suporte físico da alquimia ideológica...Por incrível que possa parecer, até agora, ninguém no exercício público da Política, levantou a lebre de que estamos implantando núcleos formadores, em progressão aritmética, de futuros "sem-terra", infindáveis, com os recursos suados e progressivos do Contribuinte. A subdivisão sucessória das pequenas propriedades concedidas com os subsídios sociais, não poderá oferecer terra suficiente para todos os herdeiros. As opções serão, a vida miserável e coletiva no minifúndio, ou a continuação da aventura dos pais, dos avós, sucessivamente- sempre na agitação promovida, indo e vindo, em movimentos de sem-tetos e de sem-terras por conta da enganação ao Contribuinte escorchado e sem retorno de benefícios concretos.Pelos aspectos apresentados, podemos concluir dois pontos cruciais e imediatos: a reforma agrária é um instrumento preparatório para a formação de um campesinato, até agora inexistente no país, que ,desalojado de seus sonhos de propriedade rentável, marchará para a invasão organizada das cidades. O segundo ponto é muito interessante, porque demonstra que os líderes ideológicos das invasões, estão conseguindo aquilo que pareceria impossível a qualquer partido político: crescer o número de filiados, de forma automática, sempre fabricando mais e mais adeptos, até a conquista final do Poder, e por conta do Contribuinte assaltado, ufa!Curiosamente, muitos organismos internacionais prescrevem a reforma agrária para países como o Brasil. Na Colômbia, a receita foi obedecida e os pequenos plantadores se multiplicaram, sem renda e sem mercado suficiente para levar a vida que sonhavam, passaram a plantar a coca. O reformismo agrário veio nos tempos de Jango, contaminou os ciclos presidenciais posteriores e nunca ninguém disse, sem medo de errar, que a área agropastoril dos brasis está muito mais distribuída do que nos Estados Unidos da América. Em 1980, pelo IBGE, existiam 5.159.000 de propriedades rurais tupiniquins. Pois bem, em 1981, o número de fazendas nos EEUU era de 2,4 milhões, para uma população que seria quase o dobro da nossa. Enquanto nos aconselham a aumentar o número de propriedades, os algodoais acima de dez mil hectares crescem ainda mais no Sudoeste americano. Os canadenses e os australianos seguem firmes no caminho da produção capitalista, a das grandes escalas, em busca dos mercados mundiais, com qualidade e preço. No Brasil, a hipocrisia do falso interesse agrário, movida pelos juros e custos internos de usura, provocou a importação do algodão, desempregando cerca de 400 mil pessoas, que se transformaram em desempregados urbanos ou em núcleos de invasores a regiões, como o Pontal de Paranapanema.A riqueza dos campos depende da geração de renda das cidades. Sem renda, não há consumo e inibe, destrói ou aposenta uma extensa cadeia produtiva. E o problema agrícola brasileiro é o da formação de renda rural, só possível mediante maior e melhor consumo. Não há falta de produção, os agricultores e criadores são competentes e estão ancorando até hoje o Plano Real - pagando a mula roubada do milagre. A ampliação de uma produção para abastecimento interno, conforme imaginado pelos que pregam a reforma agrária, só traria a redução da renda agrícola e, portanto, não passa de uma medida política socialmente predadora.Os preconceitos ideológicos tomaram conta das mentes formadoras de Opinião Pública e estão sendo consolidados em nosso dia-a-dia, pela burocracia competentemente retrógrada desta república federativa degradada. Nada se faz para o desenvolvimento das cidades de nosso vastíssimo interior. É lá que precisamos gerar empregos e rendas, nas ocupações alternativas dos agronegócios, na indústria da transformação, reduzindo a migração da mão-de-obra desalojada pela tecnificação dos campos. Mas preferem deslocar o eixo das grandes verdades, centralizando recursos e providências em Brasília, na cumplicidade criminosa de promoverem politicamente a maior farsa agrária de todos os tempos.

Publicado no site Ratio Libertas

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