Por Alon Feuerwerker - Nas Entrelinhas - Correio Braziliense
A regra nas relações internacionais é o cinismo. Especialmente quando países fortes buscam justificar moralmente seus interesses imediatos. Mas movimentos cínicos e dissimulados também são úteis às nações menores, no equilibrismo que praticam para sobreviver no mundo dominado por outros.

A função dos ideólogos e doutrinários é acessória, subsidiária. Como o genial personagem (“the cleaner”, o limpador) vivido por Harvey Keitel em Pulp Fiction, a obra-prima de Quentin Tarantino. Na política mundial que conta, os homens de ideias são chamados à cena só para dar um jeito na porcaria deixada para trás pelos homens de ação.

Texto completo

O caso de Honduras é emblemático. Vamos recapitular. O presidente constitucional, Manoel Zelaya, ensaiou dar um golpe de estado. Como? Organizando uma consulta ilegal para angariar apoio à convocação de uma Assembleia Constituinte, que por sua vez revogaria a cláusula constitucional impeditiva da reeleição.

Zelaya diz que era só uma inocente “pesquisa de opinião”. Mas pesquisas se fazem por meio de empresas especializadas e gente com prancheta na mão. Não com urnas colocadas em quartéis. Elementar.  

Só que o presidente de Honduras errou no cálculo e tomou o que classicamente é o golpe de estado preventivo. Foi capturado em casa pelos militares e posto de pijama para fora do país. Tempos depois voltou clandestinamente, para abrigar-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Onde está até hoje.

Ao longo destes meses, os dois lados travam uma queda-de-braço. Zelaya tem, em teoria, amplo apoio internacional. Mas a “indivisível” frente mundial zelayista está na verdade dividida. Seus aliados bolivarianos lutam para reinstalá-lo com amplos poderes. Já os Estados Unidos querem recolocar Zelaya na cadeira mas de mentirinha, sem músculos ou hormônios suficientes para retomar o projeto original. O Brasil aceita a saída americana, mas gostaria de salvar as aparências com Hugo Chávez.

Se Zelaya tivesse em Honduras um décimo do apoio que vem de fora, já estaria de volta ao poder, dando as cartas e jogando de mão. Aí o primeiro erro brasileiro no caso. Quando houve o golpe, o Itamaraty superestimou a força do presidente hondurenho e subestimou os adversários  dele. Na diplomacia, como na guerra, tomar decisões sem inteligência (informação) adequada é caminho certo para enrolar-se. E se você não tem informação, aja com cautela.

O Brasil enrolou-se em Honduras. Retirou de lá o embaixador, num gesto tão grandiloquente quanto inútil. E envolveu-se num bate-boca vazio com os golpistas. Como resultado prático, enquanto os Estados Unidos comandam o processo político local em busca de soluções, restou a nós oferecer hospedagem ao mandatário deposto. No que aliás fazemos bem. Melhor coadjuvante do que nada.

Feita a porcaria, agora aparecem os explicadores, “the cleaners”. Teoricamente, nossa posição “rígida” em Honduras decorre de firmes convicções democráticas, da repulsa a soluções autoritárias. Exigimos inclusive que os Estados Unidos promovam um bloqueio econômico àquele país. Ao mesmo tempo que pedimos o fim do bloqueio americano a Cuba, em nome da soberania que cada nação deve ter para conduzir sua política interna.

 A posição brasileira sobre Cuba é plenamente defensável à luz da história diplomática do Brasil e dos nossos interesses nacionais. Já em Honduras, o resultado prático colhido até agora é o enfraquecimento da nossa posição relativa. Se Zelaya voltar com tudo, o vencedor terá sido Chávez. Se retornar desidratado ou se tiver que aceitar fora do poder o resultado da eleição marcada para este novembro, o troféu vai para Barack Obama e Hillary Clinton.

 

Neocons

Como já repisado aqui, os movimentos brasileiros na crise hondurenha servem para cristalizar e legitimar a ideia de que a “comunidade internacional” (as grandes potências) tem o direito de imiscuir-se na economia interna de países que estejam em “déficit democrático”.

Apenas para registro, é o pilar doutrinário central do neoconservadorismo que regeu a orquestra ideológica no governo George W. Bush. Claro que ali a ideia era os Estados Unidos funcionarem como “polícia democrática” do mundo. Mas o conceito é o mesmo. Relativizar a autodeterminação nacional diante da necessidade de expandir a liberdade.
 

Comments powered by CComment

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar