Por Paulo Guedes  - O Globo
Sempre houve alternativas visões de mundo.

São os nossos mapas cognitivos, antigos como as mentes. As crenças primitivas, as corrente filosóficas, as religiões, as ideologias e as teorias científicas formulam e transmitem essas diversas visões de mundo. Diferentes grupos humanos adotam crenças distintas para moldar suas práticas sociais e coordenar os esforços de cooperação econômica entre seus indivíduos. Um mecanismo evolucionário de seleção institucional preserva o que funciona e descarta o que ameaça a sobrevivência desses grupos humanos.A queda do Muro de Berlim, há duas décadas, marca o esgotamento e o descarte de uma extraordinariamente influente visão de mundo. Não foi apenas o reconhecimento do colossal equívoco intelectual que forma as pretensões científicas do socialismo. 

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Foi também uma rejeição do socialismo real pelos próprios praticantes mais comprometidos com essa visão de mundo. Diversos grupos humanos rejeitaram simultaneamente o regime socialista exatamente por suas práticas desumanas.

A extinção das liberdades políticas, a supressão das iniciativas econômicas, as violações dos direitos  humanos, a perseguição às religiões, o constrangimento à criatividade científica e a repressão à livre expressão artística empurraram centenas de milhões de indivíduos contra os muros das prisões cognitivas que ameaçavam seu bem-estar material e espiritual, e até mesmo sua existência física.

À exceção de variantes exóticas como a bolivariana — o “socialismo o muerte” de Hugo Chávez —, o que se pode observar em todo o mundo é o ocaso de ideologias radicais. Da mesma forma que o liberalismo clássico dos séculos XVIII e XIX foi politicamente enterrado por sua insensibilidade ao sofrimento humano e às desigualdades sociais, sua antítese socialista fracassou miseravelmente em escala planetária.

Sua vocação totalitária provocou alternativas igualmente ferozes à direita, como o nacional-socialismo e o fascismo, ameaçando também a própria existência das democracias liberais em duas guerras mundiais e no longo inverno da Guerra Fria.

 Após toda a experimentação institucional do século XX, a marca do novo século é exatamente a síntese da Grande Sociedade Aberta, novo paradigma da civilização ocidental. De um lado, temos a herança das democracias liberais, com a democracia representativa, o estado de direito e as economias de mercado. E, de outro lado, uma herança milenar das grandes religiões e, ironicamente, do socialismo que tanto as combateu: a solidariedade, as redes de proteção social por meio da ação descentralizada do Estado.

As ideologias radicais estão superadas por essa síntese. Tanto o liberal-democrata quanto o socialdemocrata estão no centro do espectro político. Para superar a desesperança com o socialismo e a perplexidade ante o capitalismo global em crise, teremos de ir muito além da esquerda e da direita.

 

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