Por Alon Feuerwerker -Correio Braziliense
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A operação política para salvar Battisti decorre de ele ter origem na esquerda. Fosse um militar argentino condenado por crimes na ditadura, estariam os mesmos exigindo, já, sua extradição para Buenos Aires

 A polarização política no caso Cesare Battisti está bem delineada. Desde o início. A mesma liberdade que teve o ministro da Justiça para negar a posição do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) devem ter os críticos para considerar que foi politicamente motivada a concessão do refúgio por sua excelência. E daí saíram a buscar-se as razões jurídicas.

Uma parte da esquerda brasileira luta com firmeza para que Battisti continue aqui -e não volte à Itália para cumprir pena. O raciocínio é objetivo. Os crimes de que o acusam são políticos, ainda que hediondos. E o Brasil deve manter a tradição de oferecer abrigo quando criminosos politicamente motivados vêm ao Brasil em busca de proteção.
Isso em tese. Se não for meticulosamente procurada, a simpatia pelas circunstâncias da história de Battisti não aparece.

O governo brasileiro vem operando para segurar Battisti aqui porque a trajetória do italiano relaciona-se à esquerda. Especialmente à esquerda armada, cujos herdeiros estão solidamente instalados no atual sistema de poder. Estivesse ligada à direita, o quadro seria diferente.

Vamos supor que descubram dia destes no Brasil um militar argentino dos anos terríveis, com condenações nas costas. Os mesmos que hoje se levantam em defesa de Battisti levantar-se-iam para exigir a devolução do dito cujo a Buenos Aires, para que ali pagasse pelos seus crimes.

A esta altura o leitor já percebe que a coluna enveredou por um caminho pouco habitual. O da suposição, da inferência. É verdade, mas os passos são dados sobre terreno sólido.

Os mesmos órgãos estatais e forças políticas que militam na linha de frente a favor de Battisti defendem posição oposta em outro assunto relacionado, a anistia aos torturadores. Como Battisti tem origem na esquerda, merece ser defendido e não deve pagar pelos seus crimes. Como os torturadores torturavam para defender um regime de direita, é inaceitável que se considere terem sido benefiados pela Anistia de 1979 e pelos textos legais que a aperfeiçoaram, já na democracia.

Menos mal que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) tenha sido técnica. Ainda bem.

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