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Categoria: Corrupção
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O Globo
A descoberta de um terceiro esquema de mensalão — depois dos construídos no PSDB e no PT —, agora estruturado no DEM, em Brasília, pelo governador José Roberto Arruda, para garimpar dinheiro sujo junto a empresas fornecedoras do poder público e destiná-lo à compra de apoio parlamentar, caixas de campanha e, muito provavelmente, engorda de patrimônio privado, coloca em questão a incapacidade de o país ter uma vida pública dentro de parâmetros éticos aceitáveis. Há comparações emblemáticas desta tibieza.

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 Faz dias que a Suíça concordou em devolver aos cofres do Rio de Janeiro os US$ 28 milhões surrupiados pela quadrilha do propinoduto, montada dentro da Secretaria de Fazenda no governo anterior. Ao decidir repatriar o dinheiro, a Justiça suíça se declara convencida da culpa do ex-subsecretário de administração tributária fluminense Rodrigo Silveirinha e grupo, autores denunciados do golpe. Mas no Brasil o ritmo é outro: o dinheiro deverá desembarcar de volta no Galeão, enquanto Silveirinha e comparsas continuarão livres, sem qualquer execução final de sentença.
Dá-se o paradoxo de um país estrangeiro se convencer da prática de um desfalque contra o contribuinte brasileiro, enquanto aqui pouco ou nada acontece para se punir os culpados.

É fato que a denúncia do Ministério Público contra os 40 supostos componentes da “organização criminosa” que operou o mensalão petista foi aceita pelo Supremo Tribunal Federal. O mesmo aconteceu com o caso tucano de Minas Gerais, em que foi aberto processo, também no STF, contra o senador Eduardo Azeredo, beneficiário de um mensalão ao tentar reeleger-se governador em 1998.

Mas a legislação e a própria execução de penas são um desafio à prática da Justiça neste país. O mal da impunidade não favorece apenas o criminoso de colarinho branco, pois a grande maioria dos homicídios também sequer chega a julgamento, nem vira processo.

A impunidade é combustível infalível do cinismo e da prática continuada de crimes, todos eles. Nesse sentido é de se lamentar que o presidente Lula tenha demonstrando sua proverbial condescendência diante de malfeitorias na política.

Lula já desculpou os mensaleiros petistas e agora considera que as cenas gravadas em Brasília talvez não sejam aquilo que todos entenderam.

Se não quisesse parecer incoerente, silenciasse. Mas admitir que dinheiro de origem no mínimo desconhecida escondido dentro de meias, cuecas, embolsado sem pudor, pode ser algo diferente de um acerto entre corruptos e corruptores chega a ser ofensivo à capacidade de discernimento da nação