“Os torturadores” da esquerda
por Paulo Diniz Zamboni em 31 de março de 2004

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O coronel da polícia militar Alaor Silva Brandão, 70 anos, serviu durante décadas na Força Pública e depois polícia militar do estado de São Paulo. Por ocasião do Movimento de 1964 era tenente e viveu várias situações de risco durante o auge dos ataques terroristas na capital paulista, inclusive o atentado à bomba contra o QG da PM, em 1968: “Foi uma época difícil, tendo sido descoberta a existência de elementos comunistas infiltrados dentro da própria polícia militar, que faziam circular, inclusive, listas de oficiais que seriam executados caso eles tomassem o poder”, relata o coronel Brandão.

Recentemente, um site esquerdista dhnet.org.br publicou uma lista onde relaciona os nomes de todos os oficias militares brasileiros que fizeram cursos na “Escola das Américas”, na zona do canal do Panamá, classificando-os como “torturadores”.

Ao tomar conhecimento do fato, o coronel Brandão divulgou e-mails onde rechaçava as acusações e defendia a escola. “Todos que me conhecem sabem que não morro de amores pelos norte-americanos, mas a verdade tem de ser defendida. Nenhuma tortura foi ensinada no curso.”

A seguir, o Cel. Alaor relata os detalhes de como foi o curso na Escola, então conhecida como USARCARIB SCHOOL.

***

MSM – Em que ano e sob que circunstâncias o senhor foi para a essa escola?

Alaor Brandão: Bem, primeiro eu gostaria de comentar sobre o site que está divulgando a “lista de torturadores”. Eles pegaram como referência uma lista obtida nos EUA, onde desde a década de 1980 estão sendo liberados documentos para pesquisa após um determinado prazo de arquivamento. O referido site pretende “fichar” e divulgar os “crimes” cometidos pelos ex-alunos dessa escola, e meu nome e de outros companheiros constam nessa lista. No Brasil, o grupo “Tortura Nunca Mais” reproduziu a lista. O fato é que eles, os da esquerda, fizeram um trabalho “interessante”. Eles dizem que a escola era “uma escola de assassinos”, que lá foram dadas aulas de “tortura” e “assassinato”. Entretanto, eu não vi nada disso, o que me deixou extremamente preocupado, porque me senti um “burro”, porque se isso foi ensinado, eu não aprendi nada.

Eu fui enviado para a escola em 1959. Na ocasião, a embaixada dos EUA no Rio de Janeiro colocou à disposição um certo número de vagas, das quais duas para São Paulo, que foram preenchidas através de concurso. Eu fui um dos aprovados, tendo sido mandado para o Panamá em um avião da Força Aérea dos Estados Unidos. Chegando na zona do canal, tivemos aulas sobre polícia militar. É interessante notar que a polícia militar do exército dos EUA era diferente da nossa (na época, Força Pública de São Paulo). A polícia militar deles era destinada ao policiamento de bases militares, que eram verdadeiras cidades, e não cuidavam apenas da disciplina das forças militares, como acontecia no Brasil com a PE (Polícia do Exército).

MSM: O embarque foi direto para o Panamá ou houve alguma escala antes?

ABFomos direto para o Panamá. Estava prevista uma escala antes em Atlanta, mas como aconteceram problemas burocráticos na embaixada dos Estados Unidos, nosso cronograma atrasou, e inclusive não passamos pelo período inicial de adaptação que estava previsto. Uma vez no Panamá, o curso em si tinha muitos pontos que nós já conhecíamos, como táticas de infantaria. Por outro lado, como novidade, tivemos instruções sobre técnicas de investigação e controle de distúrbios civis. As táticas aprendidas com os norte-americanos previam a graduação no emprego da força contra manifestantes, que ia desde a mera exibição da força até o combate aberto. O uso da força deveria sempre ser feito na base da “reação” diante da “ação” empregada pelos manifestantes. Se chegasse a acontecer ataques a tiros contra a tropa, como aconteceu em S. Paulo posteriormente, a reação do efetivo deveria ser à altura. Assim, existia uma técnica para controle de distúrbios de rua, que não era feita da maneira irracional como muitos comentaristas e repórteres levianos que estão por aí dão a entender. Era isso basicamente o que aprendíamos lá. Claro que houve também aulas sobre guerrilha. Estava em “moda” na época essa matéria. Fidel Castro tinha acabado de assumir o poder em Cuba utilizando-se de táticas guerrilheiras contra Batista, guerrilha essa, aliás, que foi apoiada pelos EUA e de repente Castro “muda de lado”, gerando um certo temor que essa guerrilha fosse disseminada pela América Latina. Contudo, não havia ênfase alguma nesse tema, que era uma matéria como outra qualquer na escola, cuja existência era anterior a tomada do poder em Cuba por Fidel Castro, e aproveitava a estrutura construída no local por ocasião da Segunda Guerra Mundial.

MSM – Após a mudança do nome da escola para “Escola das Américas”, na década de 1960, houve alguma alteração na sua estrutura?

ABQue eu saiba não. Essa escola era preferencialmente para latino-americanos – havia cerca de 400 alunos na época em que eu estive lá – com alguns efetivos norte-americanos, sobretudo oficiais, para completar os quadros. O detalhe é que os tratados internacionais da época limitavam os efetivos norte-americanos na zona do canal (do Panamá), assim os alunos latino-americanos eram levados para a área, e como o seu número não era contabilizado nos efetivos totais lá estacionados pelos norte-americanos, funcionavam como uma reserva preparada para qualquer eventualidade em caso de conflito, estando apta a comandar e combater.

MSM – Então o estudo da guerra de guerrilhas era só mais um ítem entre vários?

ABExatamente. Os norte-americanos davam muita importância ao uso de tecnologia no curso, como o Polígrafo, então considerado o que havia de mais moderno em termos de investigação. Funcionava assim: uma pessoa (eram todos alunos) era colocada numa cadeira e se conectavam “sensores” nela. Eram feitas uma série de perguntas ao “suspeito”, e de acordo com a oscilação do gráfico definia-se se era verdade ou mentira o que ele havia relatado. Como “bons brasileiros” resolvemos fazer uma brincadeira e começamos a alternar mentiras e verdades para ver se o detector acusava. Depois a análise atestou que a máquina não havia sido eficiente.

MSM – Esse curso de “guerrilha” foi influenciado por alguma experiência pré-existente? Por exemplo, a guerra de guerrilha na Rússia durante a Segunda Guerra Mundial ou o conflito na Indochina nos anos 50, que envolveu a França, serviram como exemplos?

ABA experiência mais intensa que os americanos tiveram com guerrilhas foi nas Filipinas, durante a Segunda Guerra Mundial, onde muitos militares deles que ficaram isolados após a retirada se organizaram em grupos guerrilheiros. Eles citavam muito esse exemplo no curso. Sobre a Rússia, eles exibiam filmes para os alunos, filmes produzidos pelo exército soviético para treinamento, onde ações da guerrilha soviética durante a guerra eram apresentadas. Mas se limitava a isso. Na minha opinião, uma guerra como a travada pelos guerrilheiros russos contra a Wehrmacht (exército alemão) durante a Segunda Guerra Mundial seria impraticável na América Latina, por razões táticas, topográficas e de clima. Sobre a Guerra na Indochina, ela não foi lembrada em nenhum momento.

MSM – E sobre a tão divulgada “tortura” que teria sido ensinada nesses cursos? Da onde surgiu a idéia de que seu emprego seria necessário e "ensinado" no curso?

ABNunca ninguém tocou nesse assunto. Não se falava em castigos físicos. O máximo que existia, e é preservado até hoje no exército dos EUA, são marchas forçadas para os soldados, com todo o equipamento, como forma de castigo para os indisciplinados.

MSM – A quê, então, o senhor atribui essas afirmações sobre tortura?

AB Eu vou dar um exemplo. O general Galtieri (Leopoldo Galtieri, ex-presidente militar da Argentina) freqüentou essa escola. Ele era oficial de engenharia e foi lá fazer um curso de purificação de água ou construção de pontes. Agora, aparece esse pessoal e fala que ele foi lá “aprender a torturar”. O que ele fez depois de ter saído da escola, se é que ele fez alguma coisa, não tem nada a ver com o que ele aprendeu lá. Por outro lado, esse site cita como aluno o general Pinochet, que nunca esteve lá. E ainda diz o seguinte: “Ele não passou por lá, mas deveria ter passado por causa das suas idéias”. Então, você nota que perde qualquer grau de credibilidade esse tipo de acusação, que assume ares de coisa gratuita, porque não tem base alguma na realidade.

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