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Categoria: Diversos
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 Por Ruy Fabiano
Publicado no Jornal da Comunidade, Brasília, 24/02/2007

Dizem que os poetas são uma espécie de antena da raça humana. Captam o que, embora ainda não perceptível aos olhos, já circula no ar. Mais ou menos como os profetas, que, no momento não têm compromissos com a métrica e o ritmo.

Texto completo


O poema que adiante reproduzo é de autoria de Paulo César Pinheiro, poeta e parceiro de todos os gigantes da MPB nos últimos 40 anos (Baden Powell, Tom Jobim, Edu Lobo, Dori Caymi, Pixinguinha, Rafhael Rabello etc.). Foi gravado pelo compositor e percussionista Wilson da Neves há 14 anos, num CD que é hoje raridade. Foi escrito há uns 16 anos.

É um retrato premonitório do que está acontecendo hoje no Rio de Janeiro e nas principais cidades brasileiras. A guerra civil não declarada. Ou, para quem, como Paulinho Pinheiro, tem “olhos de ver” (plagiando a linguagem bíblica), declaradíssima.

Nome do samba: “No dia em que o morro descer e não for carnaval”. Pena não ser possível transpor para o papel a bela melodia e a voz de Wilson das Neves. Este escriba a dedica ao presidente Lula, ao Congresso Nacional e ao Poder Judiciário.

Nenhum projeto ou iniciativa no campo da política e da economia fará sentido, nos tempos que correm, se não levar em conta a realidade que o poema expressa. Ei-lo:

 

O dia em que o morro descer e não for carnaval

Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final

Na entrada, a rajada de fogos, para quem nunca viu,

Vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil!

( É a guerra civil...)

 

O dia em que o morro descer e não for carnaval

Não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral

E cada uma ala da escola será uma quadrilha

A evolução vai ser de guerrilha

Que a alegoria é um tremendo arsenal

O tema do enredo vai ser a cidade partida

No dia em que o couro comer na avenida

Se o morro descer e não for carnaval.

 

O povo virá de cortiço, alagado e favela

Mostrando a miséria sobre a passarela

Sem a fantasia que sai no jornal.

Vai ser uma única escola, uma só bateria

Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria

Que desfile assim, não vai ter nada igual.

 

Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga

Nem autoridade que compre essa briga

Ninguém sabe a força desse pessoal

Melhor é o poder desenvolver pra esse povo a alegria

Senão todo o mundo vai sambar no dia

Em que o morro descer e não for carnaval.