Por Jarbas Passarinho

Esquerdistas, por vezes militantes da insurreição armada de 1967 a 1974, costumam dizer que o Exército de hoje, com o qual convivem bem, não é mais o de ontem. Teria mudado e com ele podem dialogar quase com coincidência de pensamento. Enganam-se. Crente de que a anistia deve ser esquecimento do passado fratricida, o Exército chegou a condecorar José Genoino, com a medalha do Pacificador, dada com parcimônia e inspirada no Duque de Caxias, que de fato pacificou, ao vencer as insurgências regionais, no Segundo Império, sem humilhar os vencidos. O paradoxo reside em merecer condecoração de pacificador quem fora preso participando da guerrilha do PC do B no Araguaia. Mas ele já não era ideologicamente o insurreto do passado.

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Em mais de uma entrevista e no seu livro Repensando o socialismo repudia claramente o marxismo dogmático e postula a revisão dos dogmas optando por socialismo democrático. Não, é certo, igual a François Furet, que escreveu O passado de uma ilusão. Mas sua crença passada foi uma ilusão que sacrificou tantos jovens como ele. Sua facção no PT é anti-revolucionária. Trocou Marx e Lênin pela esquerda professada por Norberto Bobbio, não comunista.

Fernando Henrique Cardoso, de professor marxista a catequizar alunos na USP, aderiu a Max Weber. Justificou-se: “O mundo mudou”. Stedile, em 1997, recusava o etapismo, a etapa da conquista pacífica do socialismo, em aliança com a burguesia progressista. As revoluções, que elogiava como paradigmas, “eram a revolução russa e a revolução chinesa”. Duvido que, conferencista convidado pelo comandante da Escola Superior de Guerra, tenha dito o mesmo, agora, exceto que fez uma universidade para formar invasores de terra alheia.

Em 2000, o Partido Comunista Cubano organizou, em São Paulo, encontro dos partidos comunistas da América Central e do Sul, inclusive as Farc, guerrilha comunista colombiana. Lula fez parte desse Foro de São Paulo, cujo lema era “fazer dar certo o que não deu na Europa do Leste”. Claramente, tratava-se de reeditar o marxismo-leninismo supostamente aperfeiçoado. Ele venerava Fidel Castro e o visitava freqüentemente. Hoje, seu avião sobrevoa Cuba mas não aterrissa lá.

Jacob Gorender, intelectual marxista coerente com seu ideal revolucionário, rompeu com Prestes, que foi contra a luta armada, e fundou o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, enfrentou o Exército de ontem, cuja missão foi exercer a contra-insurreição. Lutou e foi preso. Analisando o colapso do socialismo real em 1991, escreveu Marxismo sem utopia, em que considera o bolchevismo leninista “inapelavelmente condenado pela história e seria vão repeti-lo”.

Todos foram combatidos pelo que eram. Hoje, mudados, dizem que o Exército é que mudou. Nenhuma facção guerrilheira lutou pela liberdade, confessa-o dignamente Daniel Aarão Reis em livro e entrevista: “Nós lutávamos pela ditadura do proletariado”.

Quem parece desejar repetir o leninismo “condenado pela história” é o coronel e presidente Hugo Chávez. Mandou seu povo ler Marx e Engels, que ele certamente não leu. Lênin, nos pródromos da revolução de 1917, bradou: “Todo poder aos sovietes”. Chávez parodia: “Todo poder às comunidades”, que ele criou. Jacta-se de estar fazendo a revolução bolivariana, mas Bolívar, que admirava Napoleão, quando este se fez coroar imperador, desprezou-o. Chávez, ao contrário, é aprendiz de ditador, como exemplo dos ditadores sucessores de Bolívar: os generais Antônio Gusmán Blanco, por 18 anos, e Juan Gómez, por 26. Arma e adestra suas Forças Armadas, o que sugere ir além do que fez Fidel.

O Exército de ontem venceu os revoltosos comunistas, liderados por Prestes, em 1935, ao peso de 200 mortos no Nordeste e pouco menos no Rio de Janeiro. Derrotou guerrilheiros e terroristas comunistas, na luta armada que eles desencadearam, de 1967 a 1974, voltando a perder centenas de vidas dos que juraram “dedicarem-se inteiramente ao serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderiam com o sacrifício da própria vida”. Lutou não só contra guerrilhas, mas contra o terrorismo, a começar pelo atentado no aeroporto Guararapes, no Recife, onde ficou patente a pusilanimidade.

Desejava o terrorista matar indiscriminadamente militares, civis, mulheres e crianças que, por diversos motivos, estavam no aeroporto. Desde que sua vida fosse poupada. Calculando o momento em que desembarcasse o marechal Costa e Silva, colocou no salão do aeroporto uma bomba disfarçada em mala, e a abandonou antes da explosão. Os terroristas no Iraque, posto que imperdoáveis, morrem acionando o explosivo no próprio corpo. No Brasil, voltaram a poupar-se em atentados terroristas sempre covardes, usando carro-bomba ou metralhando pelas costas.

Hoje, alguns desses fanáticos desfrutam do poder como se tivessem sido heróis. Se, por infelicidade, os ventos de Caracas chegarem ao Brasil, o Exército de hoje repetirá o de ontem, instituição permanente que é, fiel aos princípios que forjam o caráter de seus integrantes, generosos para tratar civilizadamente como irmãos os que ontem a combatiam, mas hoje mudaram de convicção. Não importa que eles pensem que foi o Exército que mudou.

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