Por Jarbas Passarinho
O resquício do poder reverencial da burguesia pela Monarquia empresta títulos nobiliárquicos a quem quer homenagear o talento que distingue dos demais. A Fernando Henrique Cardoso chamavam de “príncipe” dos sociólogos brasileiros, ou inteligência privilegiada, preferência dos usuários do lugar-comum. É, indiscutivelmente, marco da cronologia da sociologia no Brasil, que, fosse ele francês, figuraria na cronologia dos intelectuais, em ensaio de Michel Winock, que obteve o Prêmio Médicis, na França, em 1997. Antes que os inimigos figadais da memória do presidente Emílio Médici se indignem, supondo apressadamente que o prêmio seja uma bajulação ao vencedor das guerrilhas comunistas de 1967 a 1974, no Brasil, convém cautelarmente esclarecer que se trata do nobre renascentista Lourenço de Médicis, a quem Maquiavel dedicou o famoso livro O Príncipe, muito citado e pouco conhecido, em geral, dos políticos brasileiros. Winock estudou através dos anos a história dos intelectuais durante um século, seus embates, suas idéias, seus admiradores, suas amizades e seus ódios. Exatamente como se deu com Fernando Henrique, que de “príncipe” da sociologia, pelos admiradores, virou, para seus desafetos, desprezível “neoliberal”, ao trocar Marx por Weber, porque “o mundo mudou”.
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Claro que o Brasil, um país in situ, não é infenso às mudanças. Ao contrário, no último quartel do século 20, o mundo dividiu-se ideologicamente em dois hemisférios: o comunista, liderado pela União Soviética, e o que Churchill chamava de mundo livre, à testa os Estados Unidos da América. Foi o longo período da guerra fria. O Brasil optou pelo mundo livre, quando a expansão do comunismo se ampliava num arco mundial que, da Europa, passara à Ásia, à África e chegara ao Caribe, fazendo de Cuba a ponta-de-lança revolucionária para conquistar a América do Sul, onde guerrilhas comunistas já atuavam nos países de nossa vizinhança andina. Che Guevara encontrou a morte na Bolívia, com que uns poucos desatentos dizem não termos fronteira.

Os militares, gente de ação, foram tirados de seus quartéis pelo povo - Igreja e intelectuais inclusive. Modernizaram o Brasil, com a cooperação decidida de prestigiosos técnicos, ainda que por aqui apelidados de tecnocratas. Aos generais, fascinaram. Na economia, escolheram nomes que figuravam nos píncaros da reputação na profissão que Hélio Beltrão chamava de “ciência da repartição da escassez” e Galbraith, de “gente de instinto tribal, clubístico, que nega a existência do que é profissionalmente desvantajoso admitir”. Roberto Campos, Mário Simonsen, João Paulo Velloso e Delfim Netto, os dois primeiros, infelizmente, prestando contas ao Senhor, já faz tempo; os dois últimos, para gáudio nosso, prestigiados pelos generais, que em toda a História, do Império à República, jamais haviam imitado os congêneres feitos ditadores em toda a América do Sul. Aceitavam, agradecidos, os planos de desenvolvimento de João Paulo e a direção inconteste de Delfim, que oposicionistas invejosos chamavam de czar da economia.

Mas, nos albores deste século, mudou o Brasil. Aliam-se, agora, com novos senhores, antigos contendores, na união dos contrários. Especialmente o talentoso Delfim chega a ver no presidente Lula um estadista, de quem Churchill dizia que, enquanto os políticos pensam na próxima eleição, os estadistas pensam na próxima geração. Como se vê, o que Lula faz justifica a distinção. Sarney repete Bernardo Pereira de Vasconcelos, o exemplo histórico, mas não igual. De presidente da Arena, braço político do autoritarismo militar, vem a ser conselheiro do presidente petista, perdoados deste, nobremente, os agravos de outrora. A Maluf, o passar do tempo vingou. Agora é o PT que conjuga o verbo “malufar”.

E Lula? Condenava rudemente, no ciclo militar, as restrições das liberdades individuais. O presidente Geisel, assessorado pelo ministro Golbery, emendou a Lei de Segurança Nacional. O Superior Tribunal Militar recebeu francos elogios de advogados de presos de natureza política, por ter absolvido ou reduzido mais de 2 mil sentenças de primeira instância. Um preso, na luta armada, assassinou um subtenente inexperiente que lhe algemou a mão esquerda com a sua direita ao entrarem no jipe. O preso, sentado à direita do algemado, livre a mão direita, sacou a pistola que o militar tinha às costas e lhe desferiu um tiro na nuca, enquanto outro dirigia a viatura. Assim chegaram à unidade militar que determinara a diligência. Condenado, e duas vezes comutadas as penas, fugiu na antevéspera da libertação. Hoje é magistrado!

Para compatibilizar as liberdades individuais com as restrições legais, Geisel baixou decreto - logo apelidado de “decretão” - proibindo greve de serviços essenciais sem garantia de funcionamento reduzido. Abrangia profissionais do serviço de saúde - especialmente médicos -, bancários, professores e outras profissões que, se parassem, prejudicariam o povo. O decreto fez parte das “leis que não pegaram”, a partir da Nova República, em 1985. Leio, agora, que “o governo quer limitar greve de servidor”. Para o ministro Paulo Bernardo (do Planejamento), há segmentos que nem devem ter “direito a cruzar os braços”. Creio ter pensado nos controladores de vôo que cruzaram os braços, aproveitando o trágico desastre do Boeing da Gol que matou 154 pessoas. Leio, também, que uma forte facção do PT, para servir certamente aos interesses do povo, proporá um plebiscito, convocado só pelo Executivo, para emendar a Constituição e permitir a reeleição mais de uma vez, a exemplo da Venezuela de Chávez. De fato, só assim um estadista terá tempo para as novas gerações...
 
Jarbas Passarinho, ex-presidente da Fundação Milton Campos, foi senador pelo Estado do Pará e ministro de Estado
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