´´Ninguém vive impunemente as delícias dos extremos ``
William Shakespeare

 Por Cel Ref Renato Brilhante Ustra 

 

A vida sem sonhos é muito mais fácil, pois nada nos pertence mais que nossos próprios sonhos. Como jovens, diante de um horizonte tão longínquo, nos permitimos sonhar e estabelecer metas com caminhos a percorrer, verdadeiros desafios a nós mesmos. Então, abrindo meu coração cheio de saudades, falo aqui sobre o desafio que representa para todos nós a busca do sonho de ser pára-quedista e de compartilhar da mística que envolve o grupo.

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 Estes soldados magnânimos em francês são conhecidos como les paras, em alemão, die jallschimjäger, em espanhol, como paracaidistas, em inglês, como paratroopes e como pára-quedistas em português.

Estamos acostumados a ver em noticiários internacionais o emprego desta tropa de elite em épocas de dificuldades, quer estas ocorram em países localizados em continentes distantes, quer aqui no nosso Brasil.

Cada nação sabe que precisa dispor do poder coercitivo do Estado, através de tropas operacionais integradas por militares altamente adestrados e disciplinados. Nicolau Maquiavel, em 1513, em seu livro ´´O Príncipe´´, comentou: ``Não é possível haver boas leis onde não há armas boas``.  

A mística que paira sobre as tropas pára-quedistas de outros exércitos também está arraigada entre nós.

Aqui como lá, o fruto da coragem, da determinação e um duro treinamento servem para incutir em cada soldado um senso de responsabilidade, uma extraordinária e arrogante confiança. Para eles, a vida não pode ser apenas um hábito!!

Por que pára-quedista? Desde os primeiros contatos com estes militares tão ufanos de sua capacidade de intervir no combate, sente-se que além deste valor prático da tropa aeroterrestre, existe uma tremenda mística psicológica que é criada em torno dos que treinam sob pressão para arriscarem suas vidas saltando de aeronaves em vôo, em Zonas de Lançamento às vezes hostis.

A mística não é mais que uma mudança sofrida pela personalidade daqueles que enfrentam a exaustão  física e psicológica, na hora do preparo de seu futuro pára-quedista.

Na Área de Estágio, berço da formação aeroterrestre, onde figura a frase ´´Aqui se aprende a ser pará-quedista``, tem lugar o árduo ritual de iniciação,  calcado na ´´ Disciplina, Coragem e Determinação``.

Ao efetuar os saltos iniciais, tomado de apreensão, o soldado sai desta experiência com orgulho, confiante e levando esta lembrança para o resto de sua vida. É inegável o contínuo reforço deste status, no seguir dos seus dias de caserna.

Ostentar no peito as asas da prata e o uso da boina bordeaux, peculiar aos pára-quedistas do mundo inteiro, além de calçar os boots (coturnos  marrons), herança  de uma pioneira formação no US ARMY, faz do nosso soldado um vitorioso, cheio de vaidades por ter granjeado, por razão exclusiva de suas qualidades, o destaque e o orgulho de exibir publicamente sua impecável farda de integrante da Brigada Pára- quedista.

Já dizia o General Augusto Cezar de Castro Moniz de Aragão, Cmt da Bda Pqdt, após ter aprovado o uso da boina bordeaux e colocada  perante a tropa formada, “Eu quero poder divisar uma pára-quedista ao longe ou no meio da multidão”.

Um dos pontos impregnados na alma do nosso pára-quedista é a canção “Eterno Herói”, sempre cantada com enorme vibração pela tropa em solenidades ou qualquer  tipo congraçamento. Reunião de Pqdt tem que ter ´´Eterno Herói``. Para os mais antigos, o canto refaz energias e leva a tempos remotos, seja qualquer o lugar em que estejam, desde que na companhia de guerreiros alados.

O cântico  deste hino revela o sentimento possuído por todos nós, que assim o interpretamos:

 

   “Cumprindo no espaço a missão dos condores”,

    Valente e audaz, não vacila um instante”

 

As forças aeroterrestres representam ´´carta - marcada`` do poder nacional. Sempre prontas para emprego - são inapelavelmente dissuasórias, como quem diz “se o inimigo é forte, alie-se a ele”. Nas ações operacionais, precedem os  elementos de combate a  empregar, preenchem lacunas estratégicas e interditam o inimigo através do envolvimento vertical. 

 

´´ Nas asas de prata, ao roncar dos motores

   Vai a sentinela da pátria distante ``

 

O perfeito e admirável trabalho conjunto com a Força Aérea Brasileira nos habilita a atuar em qualquer ponto do País onde, em poucas horas, poderá se fazer presente a autoridade  do governo brasileiro, na defesa dos valores preconizados pela nossa Constituição Federal.

 

´´Chegando o momento, descendo dos céus,

   Num salto gigante, surgindo do anil,

   Vai ele planando no templo de Deus

   Lutar em defesa do nosso Brasil``

 

O fator surpresa é requisito básico para o sucesso das operações, por isto o envolvimento vertical, caracterizado por lançamento em local estrategicamente selecionado, faz com que o pára-quedista, na tranqüilidade e no silêncio das nuvens, experimente a tensão e o temor dos duros combates que o esperam.

 Com flexibilidade e adestramento para ser lançada simultaneamente em áreas distintas, esta tropa de elite representa um fator relevante na defesa do território nacional e na reafirmação da soberania pátria.

 

 

  “Pára- quedista!

   Guerreiro alado vai cumprir sua missão

   Num salto audaz,

   Vai conquistar do inimigo a posição”

 

O salto promove a autoconfiança, a autodeterminação, a auto dependência, a habilidade e a coragem que fazem do pára-quedista um soldado agressivo por natureza, particularmente quando a cólera o avassala.

E o medo? Ele existe sempre, porém está sob controle, misturado ao espírito indomável, à liberdade e à arrogante demonstração de coragem que o salto proporciona. O medo está adormecido na consciência do pára-quedista, a única coisa que lhe passa pela cabeça é “Vamos sair!” e “Vamos Saltar!” Já!!!

Um fato interessante ocorreu comigo. Após 11 anos afastado das lides aeroterrestres, retornei a Bda Pqdt. Ao realizar meu primeiro salto da aeronave C-130 (Hércules), confesso que naquele dia senti um desconforto e aquela angústia – no popular - ´´cagaço``, quando decolamos. Assim pensei: ´´ Bem feito, quem manda ser exibido. Agora só tenho que sair por aquela porta``. Ao aterrar, quando recolhia meu pára-quedas, um soldado se aproximou e perguntou: ´´Major o senhor está bem``? Respondi afirmativamente e muito tranqüilo ele comentou: ´´ Eu estava com tanta pena do senhor, pois o senhor estava com cara de medo e eu me preocupei``. Agradecido, sorri e constatei que a solidariedade existe independente da hierarquia e se constitui num dos pilares da mística Pqdt. Quatro dias depois, ao efetuar o segundo salto, o fiz lépido e fagueiro e me senti sabendo tudo, tal qual uma´´puta velha``, como dizem lá no Rio Grande... É como andar de bicicleta, não se desaprende.

  

 

  “Pára – quedista

   No entrechoque das razões sempre será

   O eterno herói

   Que no avanço da luta ninguém deterá.

   Hurra... Hurra!”

 

 

Sir Winston Churchill disse: “O preço da grandeza é a responsabilidade”. Imbuídos de atender as decisões superiores, o cumprimento da missão é algo determinante para esta tropa altaneira que tem consciência de seu valor operacional.   

A profissão de fé dos pára-quedistas alemães, plenamente acolhida entre nós, está assim resumida: ´´ Seja tão ágil quanto o galgo, tão rijo quanto o couro e tão duro quanto o aço cru.... render-se nunca. Para nós, a morte ou a vitória devem ser ponto de honra``.

 

No amanhã há sempre um pouco de ontem, pois o passado não conhece o seu lugar e está sempre presente. Ao aproximar-se o 50º ano como pára-quedista, tenho ainda marcado em minha memória a dureza do treinamento para concretizar um sonho e relembro, com saudades, os longos anos vividos no seio desta tropa tão cheia de carismas.

Lembrando Boris Pasternack, “Nós que fomos homens, hoje, somos uma época”, gosto de sentir o entusiasmo com que nós, guerreiros alados já marcados pelo tempo, cantamos a nossa canção “Eterno Herói”; quando nos sentimos rejuvenescidos pela lembrança e pelo recrudescimento de momentos inesquecíveis, vividos plenos de alegria e de orgulho na tropa pára-quedista. No cântico, às vezes, ao meu lado, ouço vozes embargadas pela emoção e vejo lágrimas que correm, umedecendo rostos cansados da vida, mas ainda vibrantes, como se estivessem prontos para “a morte ou vitória, como ponto de honra”.   

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