Que será deles amanhã ?
Agência O Globo 
Campanha eleitoral costuma ser época propícia para acenos demagógicos e decisões de fácil trânsito popular, sem qualquer preocupação com o futuro. A atual, no entanto, tem exagerado, e pior num campo minado que é a Previdência Social, um dos mais pesados itens no orçamento público. E, devido à fatalidade demográfica, em constante ascensão.
A lista de irresponsabilidades é farta e pode ser contabilizada em vários bilhões de reais sobre os ombros já arcados do contribuinte: fim do fator previdenciário um freio nas aposentadorias precoces , sem ser colocado outro mecanismo semelhante no lugar; e aumentos reais polpudos para os benefícios superiores aos de um salário mínimo, estes já bastante beneficiados pela política (correta) de ampliação do poder aquisitivo da remuneração básica legal.
O lançamento de novo livro sobre o tema pelo economista Fabio Giambiagi, em coauto ria com Paulo Tafner, funciona como bem-vindo contraponto a toda esta farra inconsequente, sem qualquer atenção à efetiva capacidade de a nação financiar amanhã despesas mastodônticas contratadas hoje em função das urnas.
Em entrevistas em torno do livro Demografia a ameaça visível, os dois economistas têm comparado a questão da Previdência à do meio ambiente: nos dois campos, medidas tomadas ou não hoje afetarão, para o bem ou o mal, as próximas gerações.
Filhos, netos e bisnetos de homens públicos que hoje tratam do assunto sem visão estratégica pagarão alto preço pela imprevidência sem jogo de palavras de pais, avós e bisavós.
As resistências da sociedade, expressas no Congresso, à adequação do sistema previdenciário brasileiro a contingências da vida real tema na agenda de todos os países já se refletem em estatísticas preocupantes.
Algumas delas: enquanto a faixa de mais de 65 anos de idade representa pouco mais de 6,5% da população, os gastos totais previdenciários já ultrapassam os 10% do PIB, índice equivalente ao de sociedades com população bem mais madura que a nossa.
No ano 2000, cita Giambiagi, havia 14 milhões de brasileiros com 60 ou mais anos de idade.
Em 2050, haverá, segundo projeções do IBGE, 64 milhões de pessoas nessas condições. Se hoje os benefícios pagos a aposentados no setor privado e público já absorvem uma renda, em percentual de PIB, como se os brasileiros fossem mais velhos, quanto da renda da sociedade terá de ser destinada a este fim quando de fato o imperativo da demografia tiver transformado o Brasil numa nação bem mais madura? É certo que se os investimentos já são baixos, um dos maiores empecilhos ao crescimento, serão menores ainda, pois parte da poupança irá para a Previdência.
Isso se nada for feito. Os autores do livro defendem a retomada das reformas previdenciárias, a serem feitas respeitando-se os direitos adquiridos, e com a distribuição dos ônus em função da idade e do tempo de permanência no mercado de trabalho. A alternativa é o desastre grego, apenas acelerado pela crise financeira ele ocorreria mais cedo ou mais tarde. Lá também não houve cuidado com a poupança e despesas públicas. Daí os inexoráveis cortes de despesas terem de atingir as aposentadorias. É possível evitar a tragédia futura se a sociedade começar a agir agora.
Como no aquecimento global.
 
Adicionar comentário