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Categoria: Diversos
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 Reunião dos sargentos em 1963EDITORIAL Jornal do Brasil

MOTIM DOS SARGENTOS 

SEISCENTOS CABOS, sargentos e suboficiais da Aeronáutica e da Marinha amotinaram-se em setembro de 1963. Reagiam à decisão do Supremo Tribunal Federal que confirmara a inelegibilidade dos sargentos para cargos no Legislativo. Tomaram prédios públicos, cortaram as comunicações do Distrito Federal com o restante do país. O levante seria sufocado em 12 horas por tropas do Exército.

Presos, 536 participantes foram transferidos para um barco presídio ancorado na Baía de Guanabara. Comandantes militares também determinaram a captura de líderes do movimento no Rio de Janeiro, São Paulo e no Rio Grande do Sul. Em 19 de março de 1964, 19 sargentos indiciados em inquérito policial-militar foram condenados a quatro anos de prisão.

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Todos contavam com a simpatia do governo do presidente João Goulart, cuja posse haviam defendido em 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros. Configurado o ato de indisciplina, Jango procurou retribuir-lhes o apoio. Além de evitar censuras públicas ao levante, procurou ajuda-los nos bastidores. A leniência do chefe de governo precipitou o movimento militar que levaria à queda de Jango e ao assassinato da democracia.

O que tem a ver o Brasil dos turbulentos anos 60 com o de hoje? Quase nada. O que tem a ver o levante de 1963 com a greve dos sargentos controladores de vôo? Lastimavelmente, existem alguns preocupantes pontos comuns. Um deles é a presença, no centro dos dois episódios, do mesmo Waldir Pires. Consultor-geral da República no governo Jango. Lula, aliou-se aos controladores de vôo desde o começa da crise e, na semana passada, apressou o motim.

Waldir Pires talvez se considere coerente. É apenas incompetente. Ao tratar questões militares com métodos de militante sindical, tornou-se um dos avós do apagão. Poderia ter pagado parte dos pecados com os conselhos que não deu agora ao chefe.

Se tivesse aprendido alguma coisa com os erros do passado, Waldir Pires teria dito a Lula que nada justificava, aos olhos dos comandantes das Forças Armadas, atos de indisciplina explícita, sobretudo quando escancaram a quebra da hierarquia. Os chefes militares deste terceiro milênio se recusam a interferir no jogo político, não pretendem voltar ao poder. Tampouco são influenciados por movimentos civis como os que reivindicavam nas ruas, ostensivamente, a deposição de Jango.

Mas os oficiais militares não podem abrir mão de normas que garantem a sobrevivência das Forças Armadas como instituição. Não podem aceitar que subordinados insatisfeitos com as condições de trabalho — decorrentes, por sinal, de políticas fixadas por governantes civis — recorram a motins e manobras proibidas pela Constituição brasileira.

A Lei Magna nega a militares o direito de greve. Ponto. Os controladores entendem que são muitos os vôos a monitorar? Os equipamentos se tornaram perigosamente obsoletos? A remuneração é baixa? São problemas que o governo precisa resolver. Nem por isso concedem a um punhado de sargentos o direito de desafiar superiores hierárquicos, paralisar o país e atormentar milhares de passageiros inocentes.

Erraram os sargentos amotinados. Errou o presidente Lula ao apoiar os insurgentes, em aliança com o ministro inepto e reincidente. Errou o governo ao desautorizar autoridades que procuravam garantir o cumprimento da lei. Ontem, tardiamente, o próprio Lula criticou a rebelião. É preciso fechar com urgência feridas abertas nas Forças Armadas, sobretudo na Aeronáutica. É fundamental mostrar à nação que a Constituição continua em vigor.