O GLOBO – CADERNO PROSA E VERSO - 07/04/2007

GENERAL VALDESIO GUILHERME

Por Evandro Éboli

Ministro do Superior Tribunal Militar (STM) e general da reserva, Valdesio Guilherme de Figueiredo quebra o silêncio da cúpula do Exército e com tom direto reage às recentes manifestações de apoio à punição de militares envolvidos em tortura durante o regime. Ele defende o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de "apenas torturar", e diz que há ministro do governo Lula que "já matou".

O general Guilherme, como é conhecido, avisa também que o Exército não mudou, apenas se recolheu. E que irá intervir "se algum doido decidir se perpetuar no poder". Sobre os desaparecidos políticos, ele diz que o governo já gastou dinheiro demais "à procura de osso" e que a culpa é dos próprios guerrilheiros, que deixaram os corpos lá "para a onça comer".

Texto completo


BRASÍLIA

O GLOBO: Setores do governo, familiares de perseguidos políticos e movimentos de direitos humanos defendem punição aos militares do governo militar. O que o senhor acha disso?

GENERAL GUILHERME: A Lei de Anistia foi sancionada pelo último presidente do ciclo militar e quem cometeu delito está usufruindo dela. E bem. Estão bem remunerados. Agora, quem cometeu delito do outro lado o fez sob a égide de uma Constituição, de 1967. Se comparar a pensão do presidente da Repú­blica (R$ 4,5 mil) com a pensão dos pais do Mário Cozel Filho (soldado que morreu num atentado) é ridículo. Hoje, aqueles que cometeram delitos estão sendo premiados. Agora, não se pode dizer que o Exército é torturador, isso e aquilo. Meia dúzia de malucos faziam isso.

O senhor considera revanchismo esses assuntos, como revisão da Lei de Anistia, aparecerem agora?

GENERAL GUILHERME: Como isso parte da cabeça de pessoas inteligentes, não acredito em isolamento, mas sim em estratégia. Existe uma motivação. Qual é, eu não sei. Não quero ser um complicador da política do Brasil, cada vez mais complicada. Agora, a soberania vai ter que ser defendida de qualquer  jeito. Essa conversa de que o Exército mudou é conversa fiada. As Forças Armadas não mudaram nada, porque não mudam nunca. Apenas se recolheram. Agora, se tiver que intervir, claro que vão intervir. É missão constitucional, a garantia da lei, da ordem e das instituições. Vem um doido aí e re­solve dar uma de presidente da Venezuela e querer se per­petuar no poder. Quer dizer ... Se o Congresso mudar a Constituição, vamos bater palmas. Se não mudar, aí não pode. É lógico que tem que haver uma defesa das instituições.

• Uma família de ex-militantes do PCdoB está processando o coronel Brilhante Ustra, para que ele seja considerado oficialmente um torturador. O que o senhor acha disso?

GENERAL GUILHERME: Vai se preocupar com Ustra?! Por que não se preocupar com tanto ministro que  está aí e que fez pior que o Ustra? Tem ministro aí que matou. Enquanto o Ustra dizem apenas que torturou. Não consta que ele tenha matado ninguém.

• O senhor receia que o processo contra o coronel Ustra abra um precedente?

GENERAL GUILHERME: Numa ditadura se faz o que quer independentemente da lei. E não sei se agora estamos numa ditadura. Faça uma lei e revogue a Lei da Anistia! Não é mais simples? Processar, pode processar quem quiser. O Ministério Público está aí. Oferece a denúncia e o juiz aceita se qui­ser. Deveríamos estar preocupados não com o coronel Ustra mas com a  economia, com o desemprego, com a falta de equipamentos nos hospitais públicos, com a má qualidade do ensino.

• Os familiares reclamam da falta de informações sobre localização das ossadas dos desaparecidos. Acha possí­vel que esses restos mortais sejam encontrados?

GENERAL GUILHERME: A reivindicação é muito justa. Por outro lado, se alguém ti­nha obrigação de fazer sepultura de quem morreu, eram os guerrilheiros. Os militares que morreram em combate não estão desaparecidos não. Es­tes têm seu lugarzinho lá, arrumadinho. Agora, se largam o cara no meio do mato para a onça comer, é problema deles, não é das Forças Armadas. O que já se gastou de dinheiro atrás de osso!

Adicionar comentário