Por Jarbas Passarinho

A Quaresma findou sem solução à crise gerada pela insubordinação dos sargentos controladores de vôo. O pedido de perdão eles o fizeram ao povo e não à Aeronáutica, o que não teria cabimento na caserna, onde um IPM pode concluir por transgressão grave ou crime.

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Passada a Páscoa, prefiro especular sobre algo que me parece inevitável: a anistia. A esboçada, já, em favor dos amotinados, mas principalmente a que a nação deve ao Suslov nacional, José Dirceu, vítima de "injustiça clamorosa" do Legislativo passado, como a vê a peremptória declaração do jovem recém-nomeado Advogado Geral da União. Clama pela anistia de seu emblemático amigo. Embora a AGU represente a União, e seja a defensora dos danos ao Executivo de que é consultora e assessora, entende o ilustre advogado que, punido livremente pelo Legislativo, José Dirceu deve ser anistiado, o que não é terreno da AGU, mas do próprio Parlamento.

Assiste-lhe razão, pois a União e José Dirceu são xifópagos. Ou pelo menos eram. Assim, a União que o defenda, já que não o fez antes. Está ele não exatamente no ostracismo e deve voltar a emprestar à União os favores do seu talento. Nunca, porém, esquecer que Aristides, posto em ostracismo, foi anistiado e posteriormente banido da Grécia. Vive Dirceu numa espécie de indesejada semiclandestinidade, mestre que foi da clandestinidade. Agora, porém, dispõe do blog, da internet, para instruir seus numerosos seguidores, de modo a ressarcir-se do tempo perdido em que ninguém com a mesma autoridade representava a União, com a competência de uma réplica do cardeal Richelieu.

Roberto Jefferson disse-o cerne do mensalão, imoralidade que amigos de Dirceu acham incompatível com a sua integridade. Afirmam que ele de nada sabia, como não o sabia o presidente Lula. Teria atribuído os votos ao patriotismo dos nobres parlamentares que colocavam em primeiro lugar, acima de seus próprios interesses, a governabilidade sem a qual o país paralisaria.

Alegando ofensa à sua dignidade, José Dirceu preferiu deixar o governo, voltar à Câmara e nela provar-se caluniado. Mas o Conselho de Ética por duas vezes não aceitou sua defesa, por 13 votos contra 1, no que foi acompanhado pelo plenário da Casa. Dirceu, impoluto para o advogado da AGU, teria sido vítima do despeito que o Padre Vieira já denunciava há centúrias atrás: "Não há maior delito no mundo do que ser o melhor". Teria pago o preço da inveja.

Tudo fazem por ele seus amigos e admiradores. Ouço que um é o presidente da Câmara dos Deputados. Tenho de José Dirceu um julgamento racional não motivado por paixão ideológica. Ele deputado e eu senador, demos uma longa, mas cordial entrevista ao Correio Braziliense há ano não muito distante. Ao fim, coube-nos fazer uma pergunta a cada um. Perguntei-lhe porque preferira a luta armada à conquista democrática do governo, contrariamente a Prestes, que a viu como aventura que só tivera um resultado: prolongar no tempo o regime autoritário. Sua resposta foi sucinta: não pertencera senão por pouco tempo ao Partido Comunista.

Em 2002, Lula venceu as eleições. Atentei para a conduta do poderoso ministro da Casa Civil e aí me vieram sucessivas razões de natureza moral que me chocaram. A primeira quando ele impediu, com decisivo aliado no Senado, a instalação da CPI, para apurar a flagrada e filmada desonestidade de seu amigo íntimo e subordinado Waldomiro Diniz, até hoje totalmente impune. Depois, a suja tática de compra (ou aluguel, pois essa gente não se vende; aluga-se) de votos de desprezíveis parlamentares para apoiar o governo, de que ele era chefe, no exótico parlamentarismo em que Lula fazia o chefe de Estado. Criou, sem deixar impressão digital, mas com irreparável dano moral, o mensalão, razão de sua cassação que se quer reverter. A indecorosa fraude é sabida, mas vale ler o capítulo 4 do livro Memorial do escândalo, de jornalismo investigativo, dos jornalistas Gerson Camaroti e Bernardo de La Peña, que põem Dirceu a nu. Quem discordar solidarize-se com os métodos sórdidos na tentativa de transformar o PT no governo, no PT no poder.

Jarbas Passarinho foi ministro, senador, governador e é escritor
 http://jbonline.terra.com.br/editorias/pais/papel/2007/04/10/  


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