Por Gilberto de Mello Kujawski
O Estado de S. Paulo

O Brasil é o país mais original do mundo. É o único que não tem governo nem oposição. Obra de S. Exa. o presidente Lula. Lula não governa porque ainda não desceu do palanque. Faz discursos, bravateia, solta piadas nefandas, promete o mundo e o fundo, mas não governa. Quebra a hierarquia da Aeronáutica, melindra os comandos militares. Faltam a Lula o perfil institucional, a compostura e a liturgia do cargo. Seu perfil é, antes, compadresco.

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O pouco de oposição que ainda resta no País mudou dos partidos para a imprensa. A oposição refugiou-se na imprensa livre. O PT sabe disso e já prepara sua ofensiva contra a liberdade de imprensa, apoiado, agora, pelo profissionalismo de Franklin Martins, recentemente contratado. (Pegou mal. uma pessoa que sabe das coisas me garantiu que não foi um caso de "cooptação", mas de longa e antiga cooperação. Ficará na memória a entrevista de Franklin com seu ex-colega da Bandeirantes Ricardo Boechat, chamando, cerimoniosamente, o entrevistado de "ministro", sem que este perdesse a impassibilidade.) Por suspeitar na imprensa a última chama da oposição é que Lula até hoje não cumpriu a promessa da entrevista coletiva com que acenou no dia em que foi reeleito.

A maior ironia é que com toda a inchação do Executivo, nem assim o presidente consegue governar. Lula não pega nem no tranco. Então, sem governo, sem oposição, como é que o País continua de pé? Conta a lenda, não sei se indiana ou africana, que os elefantes, depois de mortos, continuam de pé por dias ou semanas. A carcaça dos paquidermes resiste por muito tempo à decomposição interna, sem se abalar.


Não sou tão pessimista assim. O Brasil não está morto e continua de pé porque já provou mais de uma vez ser maior do que o buraco (leia-se "governos"). No Brasil, escreve-se certo por linhas tortas. O método é confuso, mas o conjunto da obra nos redime. Talvez seja esta a verdadeira originalidade brasileira.
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