Jorge Maranhão - O Globo 
Já disse uma vez o presidente Lula que, se fosse governar o Brasil, Jesus teria que fazer aliança até com Judas. Deixando a esfera religiosa e ficando apenas com a política, nosso chefe de governo na verdade foi apenas mais um a justificar acordos com políticos de conduta no mínimo duvidosa para assim levar adiante uma alegada "governabilidade".
Recente reportagem do GLOBO mostrou de forma cabal o quanto está enraizada em nossos costumes políticos a lamentável prática de misturar ética e pragmatismo, sobretudo nas duas principais candidaturas cujos partidos têm tentado justificar a busca de apoio e votos a qualquer preço, ou, no mínimo, para garantir mais tempo de televisão
 Ou seja, fazem uso do argumento maroto de que em política se deve - para usar uma palavra muito em moda - "flexibilizar" a questão ética.Flexibilizar não pode significar adotar o princípio maquiavélico de que os meios justificam os fins. E fazer uma má leitura da diferença conceitual entre o que Max Weber chamou de "ética de responsabilidade", pertinente à atividade política, e a "ética da convicção", própria da conduta privada do cidadão. Quando não se trata de uma escolha excludente entre dois princípios éticos que se complementam.
Se Maquiavel pensou a política num contexto monárquico despótico do século XV, Weber a pensou num estado democrático do século XX. Onde se exige dos políticos que assumam as consequências por afrontar os princípios morais da sociedade. Sua alegação de pragmatismo não os exime da responsabilidade pelas promessas feitas e muito menos pelas consequências de suas escolhas.
Campanhas de vale-tudo, com alianças duvidosas, por conivências espúrias e até omissão em relação aos notórios delinquentes que pululam na vida política nacional, são escolhas que terão consequências pois para o cidadão eleitor prevalecerá o velho adágio popular: "Diga-me com quem andas e te direi quem és." E políticos que fazem qualquer tipo de aliança não terão, uma vez eleitos, a necessária autonomia para cumprir com as reformas prometidas, como, por exemplo, a reforma política. Como irão pautar questões de fundo, como a fidelidade partidária, o sistema eleitoral, a cláusula de barreira, o financiamento público de campanhas, o fim dos suplentes não eleitos, o recall, o voto livre? Como irão propor, discutir, votar e aprovar questões relevantes para a melhoria da qualidade da representação política com o rabo preso com delinquentes, caciques e oligarcas de plantão? Estas serão apenas algumas das perguntas que os cidadãos eleitores farão muito em breve, quando do início do debate público.
JORGE MARANHÃO é diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão.
 

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