Por Reinaldo Azevedo

"Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos...

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Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas. Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem, em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.

Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério.

Afirmo que descumpririam seu juramento constitucional e demonstrariam deslealdade para com a República os mandatários que, em nome de lealdade ao presidente, deixassem de exigir seu impedimento. No regime republicano a lealdade às leis se sobrepõe à lealdade aos homens.

Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo. Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.

Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.

Afirmo que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas.

Afirmo que as bases sociais do governo Lula são os rentistas, a quem se transferem os recursos pilhados do trabalho e da produção, e os desesperados, de quem se aproveitam, cruelmente, a subjugação econômica e a desinformação política. E que seu inimigo principal são as classes médias, de cuja capacidade para esclarecer a massa popular depende, mais do que nunca, o futuro da República.

Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, nos corações dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo.

Afirmo que, nesse 15 de novembro, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de presidir as comemorações da proclamação da República aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas".

Autoria
O texto acima não é meu. É de Roberto Mangabeira Unger, que vai ocupar, no governo Lula, a Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo. O nome da estrovenga parece uma piada (ver abaixo), mas não é. Quer dizer, é. Mas se trata de piada involuntária.

Depois de ter escrito o que vai acima, aceitar um cargo no governo demonstra que Mangabeira é mesmo o homem certo para integrar a equipe de Lula. Não sei se fui claro. Digo num post abaixo qual é a dele. Ele havia se afastado do presidente e de Ciro Gomes, que chegou a ser uma espécie de pupilo seu. Ciro, como sabemos, é muito sabido para ser pupilo de qualquer um. Os dois se afastaram, mas também já se reaproximaram. O texto acima, em que Unger, tomado de ira santa, cobra uma decisão do Congresso contra Lula, é de15 de novembro de 2005. Menos de seis meses depois, ele já estava engajado na campanha da reeleição. E assume agora uma secretaria.

O homem de US$ 2 milhões
No dia 15 de janeiro de 2006, escrevia Guilherme Barros na própria Folha, de que Mangabeira é colunista:

"A Brasil Telecom vai entrar nos próximos dias com ações na Justiça e com uma representação na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) contra os ex-administradores da empresa (leia-se grupo Opportunity) questionando a contratação e atuação do advogado Roberto Mangabeira Unger, além das quantias pagas a ele na defesa dos interesses da tele. A BrT também prepara ações contra o próprio Mangabeira Unger.

A Folha obteve documentos mostrando que Mangabeira Unger atuava em duas frentes na Brasil Telecom. Foi consultor da empresa e atuou como "trustee" da companhia, recebendo cerca de US$ 2 milhões pelas funções.

O "trustee" é uma figura jurídica que existe nos EUA mas não é reconhecida no Brasil e trabalha para um beneficiário com um determinado fim. O objetivo desse contrato de "trustee", ainda em vigor, era o gerenciamento, por Mangabeira, das ações judiciais da Brasil Telecom contra a Telecom Italia e os fundos de pensão Previ, Petros e Telos.

Nessa função de "trustee", Mangabeira Unger participou de algumas reuniões com a Kroll, que foi contratada pela Brasil Telecom em 2002 para investigar supostas ações irregulares cometidas pela Telecom Italia que teriam causado prejuízos à companhia.

Mangabeira Unger confirmou à Folha as reuniões, mas disse que nunca, nos encontros, se falou de investigações sobre pessoas do governo (leia texto nesta página). Procurado, o grupo Opportunity disse que não irá se pronunciar."
 
 

 

Coluna de Elio Gaspari, publicada no jornal “O Globo”,

em 22 de abril de 2007

 

O corrupto sumiu

 

O professor Roberto Mangabeira tem dois códigos no seu DNA. Um é a impaciência. O outro é o respeito pela opinião alheia, exigido por 37 anos de magistério em Harvard.

Se ele se relacionar com o Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada, o Ipea, com o DNA de Harvard, a administração pública sai ganhando.

Se prevalecer o código da egolatria, vai haver confusão, da boa.

No Ipea é feio um acadêmico sumir com textos que pareceram oportunos quando foram publicados e, com o tempo, tornam-se inconvenientes.

No dia 15 de novembro de 2005, Mangabeira publicou na “Folha de S. Paulo” seu conhecido artigo manifesto intitulado “Pôr fim ao governo Lula”.

Pegava pesado: “Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. (...) Afirmo ser obrigação do Congresso declarar prontamente o impedimento do presidente”.

O professor mudou de opinião, mas não lhe fica bem o sumiço desse texto na coleção de quase 300 artigos que mantém na internet.

 

 

 
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