Por Carlos Vilmar
 
A greve dos Controladores de vôos mais do que um grito de socorro contra a falta de ação do governo em relação ao transporte aéreo mostra uma nova faceta no comportamento dos militares. Para alguns políticos e imprensa,sempre prontos a tirar proveito das situações, o início de uma revolução.
Para quem conhece a caserna é apenas a indicação que o limite de tolerância de alguns profissionais chegou ao fim, resultado do descaso dos governos com a carreira militar. A miséria e o tratamento desrespeitoso impingido as Forças Armadas e aos militares, nas últimas duas décadas, cedo ou tarde provocaria turbulências no território onde imperam a hierarquia e a disciplina, faz parte da natureza humana se defender contra as agressões. O apagão aéreo, ato contrário às leis e aos regulamentos, não nasceu da idéia de se fazer um motim ou uma revolução, mas sim da alma de quem não quer mais viver sob um estigma do passado e ser rotineiramente menosprezado.

O suporte moral exigido dos membros das Forças Armadas impede que se acredite que o salário diferenciado entre os controladores de vôo tenha sido o estopim para a crise, é mais provável que tenha sido a gota d'água.
 
Talvez a busca do mesmo respeito e da honra que os chefes reclamaram ao exigir a punição dos amotinados, cada qual sabe onde o calo aperta. Os problemas do controle aéreo ou até mesmo o trágico acidente com o avião da gol, fato que ainda entristece o Brasil, não seriam suficientes para provocar uma rebelião, pois os militares são treinados para atuarem em condições adversas. A causa do motim, certamente, esta relacionada a uma ferida mais profunda.
 
Para se ter uma idéia do que levou os militares a fazer a greve, pois para eles o ato equivale a "chutar o balde" e se tornar "personas" não gratas na caserna, é importante que se considere as seguintes perguntas: O que faria homens bem preparados e equilibrados, como exige o cargo de controlador de vôo, a se envolverem em uma revolta? Por que os militares, que cultuam a lealdade e a disciplina como parte de seu trabalho, se dispõem a fazer uma rebelião e correr o risco de serem expulsos da Força?
 
Dá para acreditar que foi um momento de loucura e de apagão mental, que não se pensou nas conseqüências?
 
A desmilitarização do setor e a possibilidade de aumentar significativamente os salários trabalhando como controladores de vôos civis certamente fizeram parte da nova realidade visualizada pelos controladores de vôos (militares), mas a greve reflete, antes de qualquer coisa, o desgosto com a carreira. A frustração profissional e a insegurança em que vivem os militares serviram de alicerce para os sindicatos erguerem as bases do movimento. Sem estes sentimentos a greve não teria acontecido.
 
As vantagens ostentadas para que o governo faça a desmilitarização do setor provavelmente esconda objetivos nada patrióticos, mas isso a Nação, como sempre, só vai perceber quando estiver pagando a conta.
 
Passadas as turbulências causadas pelo apagão aéreo já se vê a elevação no tom das declarações das autoridades civis e militares, se percebe que os controladores de vôos "bandidos e irresponsáveis" serão isolados politicamente e banidos da Força. A quebra da hierarquia e da disciplina, base institucional das Forças Armadas, liquida com quaisquer possibilidades de promoções futuras dos grevistas. Na ativa, as condições de vida destes militares, que já era difícil, vão ficar muito pior.
 
Quando os controladores de vôos cruzaram os braços e impediram que os aviões voassem, sabiam que haveria a revolta dos passageiros e o clamor da opinião pública, a idéia era mesmo chamar a atenção. Existe outro jeito dos militares serem ouvidos no Brasil? Sem perspectivas na carreira, perdidos entre promessas, mentiras e a realidade cada vez mais cruel da caserna, se aventuraram em um vôo às escuras. Foi uma questão de escolha. Conscientes sabiam que a vida militar, para eles, acabava ali naquele ato.

A desilusão e a falta de expectativas impelem até o homem mais sensato a reagir, esperar o contrário das pessoas é querer que vivam como zumbis.
 
A certeza que fica da greve, rebelião ou motim, é que só aconteceu por que os militares estão fragilizados nas suas convicções profissionais. Quando a miséria e a desconsideração se tornam rotinas não há formação moral ou disciplina que consiga manter os homens de caráter imobilizados e amordaçados. Não existe amor pelo Brasil ou pela profissão militar que suporte viver aprisionado entre a miséria e os regulamentos.
 
O vôo solitário e suicida dos Controladores de vôos (militares), em busca da dignidade, mostra que as leis e o temor da punição não são capazes de aprisionar o espírito para sempre. Se o Estado e as Forças Armadas não entenderem o real significado do ato de desespero destes brasileiros, fatos semelhantes voltarão a se repetir no futuro.


O continuado sucateamento das Forças Armadas, nos últimos vinte anos, mudou significativamente as condições de trabalho e as perspectivas dos militares. A maioria destes profissionais, principalmente as praças (Subtenentes e Sargentos), são cidadãos desiludidos, pois não têm no que acreditar. Não existe futuro para eles. Ao analisarem as possibilidades oferecidas pela carreira e o desprezo dos governos (poderes constituídos) para com as Forças Armadas percebem que o almejado futuro tranqüilo junto com a família e uma boa educação para os filhos esta cada vez mais distante. A alternativa para fugir do aviltamento imposto a profissão militar é mudar a atividade profissional. Começar tudo de novo. Grande parte destes brasileiros resiste a triste realidade porque tem família para sustentar, fica em cima do muro torcendo por um milagre. A desilusão se completa quando os militares percebem que estão abandonados neste matreiro jogo político, para o Estado sempre existem outras prioridades.
 
Nos dias atuais cresce o número de jovens Oficiais e Sargentos que saem das Escolas Militares já com a disposição de abandonar a carreira militar.
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