Proprietário diz que grupo estava armado e ameaçou funcionários
Por José Maria Tomazela, SOROCABA

Dando seqüência ao “abril vermelho”, cerca de 150 integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) invadiram ontem a Fazenda São Francisco, em Mirante do Paranapanema, no Pontal do Paranapanema (SP). Segundo o proprietário, Francisco Vila Real, os sem-terra entraram brandindo foices e facões. “Eles cortaram a cerca e foram ameaçando os funcionários.”

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A coordenação regional do MST informou que a ação faz parte da jornada de lutas para acelerar a reforma agrária e as terras da fazenda foram consideradas devolutas. O proprietário contesta. “Não tem nada devoluto aqui, são terras legitimadas há bastante tempo.” Segundo ele, a fazenda, de 700 hectares, possui rebanho bovino de leite e corte e é considerada produtiva. “Tiro mais de 300 litros de leite por dia.”

Vila Real disse que os invasores cortaram a cerca e misturaram as 1.500 cabeças de gado. Os funcionários estão impedidos de tirar leite e alimentar o rebanho. Os sem-terra, segundo ele, também cortaram cerca de 30 eucaliptos que estavam em área de proteção ambiental.

Ele denunciou a invasão à Polícia Civil e à Militar. Vila Real é associado da União Democrática Ruralista (UDR), que deve entrar hoje com um pedido de reintegração de posse.

 

‘ARRASTÃO’

Em Presidente Bernardes, também no Pontal, o proprietário da Fazenda São Luiz, Carlos Frederico Machado Dias, acusou militantes do MST de furto durante a desocupação da área. A fazenda fora invadida na semana passada pela nona vez e a Justiça ordenou a desocupação, ocorrida no fim de semana. Segundo Dias, os 300 militantes fizeram um “arrastão”.

Na denúncia na delegacia da cidade, ele listou o furto de uma bomba de poço artesiano, um reservatório de água, duas caixas de energia elétrica e toda a fiação da casa dos funcionários. E disse que os sem-terra destruíram 5 quilômetros de cerca e levaram o arame, além de matarem 3 bois. “Não é movimento social, mas um bando de vândalos. Fizeram uma destruição desnecessária, o que prova que a última preocupação deles é a reforma agrária.”

O delegado Glauco Roberto Marques Moreira abriu inquérito e espera a perícia para decidir se pede prisão dos envolvidos. O coordenador estadual do MST, Valmir Rodrigues Sebastião, que participou da invasão, não foi encontrado ontem. A assessoria de imprensa do MST foi acionada e não deu retorno.

 

Após invasão, sem-terra 'administram' fazenda com 2,1 mil cabeças de gado

Chico Siqueira, ITAPURA
 

Com 1,7 mil hectares e 2,1 mil cabeças de gado, a Fazenda Lagoão, em Itapura, no interior de São Paulo, foi invadida duas vezes em três dias e passou a ser administrada desde a manhã de ontem pelo Movimento dos Sem-Terra (MST). Os líderes do MST proibiram o administrador e os funcionários da propriedade de realizar seus trabalhos e assumiram as tarefas.

A fazenda foi invadida na sexta-feira por 102 famílias. Ontem, outras 200 famílias aderiram à ocupação. Os sem-terra estão acomodados em duas casas, num grande barracão, numa garagem de implementos agrícolas e em barracas montadas na área da sede da fazenda.

Na manhã de ontem, eles usaram ferramentas agrícolas e dois tratores trazidos pelo movimento para destruir três hectares de plantação de capim colonião que, a partir de maio, serviria de pasto para o gado na seca.

Segundo Reneé Parrem, um ex-padre sueco e líder da invasão, “o capim serve apenas para latifundiários criarem gado e agora vai dar lugar a alimentos”. “Recebemos avisos para só sair para trabalhar acompanhado deles (sem-terra), que agora comandam as atividades que devem ser feitas”, disse ontem Odair de Assis Teixeira, administrador da fazenda.

Pela manhã, Teixeira e outros dois funcionários tinham recebido aviso dos sem-terra para ficar dentro de casa, mas depois foram liberados para trabalhar, desde que acompanhados pelo MST. Os três podem deixar o local se quiserem, mas receberam ordens dos patrões para permanecerem lá. O MST também colocou seguranças que interditam e autorizam entrada e saída de pessoas da sede.

A propriedade pertence ao grupo Piperone Participações, ligado a italianos, de São Paulo. Segundo Teixeira, os donos entraram ontem com pedido de reintegração de posse.

A área é uma das 18 do Estado cujas desapropriações são discutidas na Justiça desde 2004. Em agosto daquele ano, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) pagou R$ 8,06 milhões pela desapropriação, mas os fazendeiros recorreram e o processo parou no Tribunal Regional Federal.

Os sem-terra prometem resistir “até a morte”. “Essas famílias estão acampadas na frente desta propriedade desde 2002. Agora elas não vão sair daqui enquanto a Justiça não julgar o processo e definir se a fazenda será loteada ou não”, explicou Lourival Plácido de Paula, coordenador do MST.
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