Por Jarbas Passarinho (Correio Braziliense, 01Abr07)
Foi governador, ministro de Estado e senador

Há marxistas decentes que não falseiam o que pretendiam fazer se vencedores fossem. Já haviam sido vencidos em 1935, quando Prestes, acatando orientação do Komintern, de Moscou, liderou a revolta comunista no Nordeste e no Rio de Janeiro. Só no Recife o ataque produziu mais de 700 mortos, segundo o historiador Glauco Carneiro, em História das Revoluções Brasileiras. No Rio, foram 33 vítimas militares, algumas covardemente assassinadas. Em 1964, Prestes era aliado a Jango.

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 No livro que ditou ao jornalista Dênis de Moraes, Prestes diz “que teve vários contatos com Jango e os reportava ao Comitê Central, que o deputado federal Marco Antônio Tavares Coelho fora por ele destacado para as articulações junto a Jango, que aconselhou a demissão dos generais Justino Alves Bastos, do IV Exército, e Amauri Kruel, do II Exército, e que Jango chegava a compreender o papel que a União Soviética desempenhava”. Clara a aliança para a fase da etapa intermediária do Partido Comunista para a conquista do poder. Entre 67 e 74, os contrários ao “etapismo” desobedeceram Prestes e desencadearam a luta armada, que misturou guerrilha clássica com terrorismo. Que pretendiam?

Entre os marxistas sinceros a que me referi, destaco dois guerrilheiros: o então universitário Daniel Aarão Reis e o escritor Jacob Gorender. Em livro e entrevistas, Daniel desmoraliza os que dizem ter lutado pela restauração da democracia: “Nós lutávamos pela ditadura do proletariado”, fiéis a Marx. Jacob Gorender, contrário ao “etapismo”, preferiu a luta armada. No seu livro Combate nas Trevas, capítulo 8º, lê-se: “A pré-revolução e o golpe preventivo”. A revolução comunista estava em curso, pois. Greves políticas, aliança de Jango com Prestes, os motins dos sargentos, em Brasília, e dos marinheiros e fuzileiros navais, no Rio de Janeiro, e a reunião de Jango com os sargentos no Automóvel Clube do Brasil “uma provocação, uma inversão de toda a hierarquia que facilitou o golpe”, assim o definiu Prestes. Golpe preventivo, disse Gorender, ou uma contra-revolução. Todas essas verdades, citadas as fontes dos próprios comunistas, são mentirosamente negadas.

Vencidos, foi-lhes dada anistia, mais ampla que o substitutivo do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) que, estranhamente, não contemplava Brizola e Arraes, e abrangia os crimes conexos. Claro reconhecimento de que, paralelamente às ações militares, havia os crimes típicos da “luta suja”, onde a tortura, se houve, mas não institucional, igualou-se ao terrorismo, esse sim, defendido por escrito por Marighella. A anistia, pois, diferenciou-se da concedida no Chile e na Argentina, que “usaram a tese da obediência devida” para justificá-los, não aceita no Tribunal de Nürenberg.

Nos governos posteriores ao de José Sarney, cresceu progressivamente a acrimônia contra os militares. Vitoriosos, pagaram com suas vidas o preço cruento da contra-insurreição: a execração, e até são processados, enquanto, ao revés, os insurretos de ontem são feitos heróis, recebem indenizações vultosas, a título de ressarcimento dos prejuízos alegados e reconhecidos por uma comissão de que fazem parte ex-guerrilheiros e comunistas irredutíveis. Muitos terroristas, que mataram no aeroporto de Recife e estraçalharam o corpo da sentinela do quartel de São Paulo, vivos recebem homenagens e até compõem, em parte, os governos. Aos vencidos dão-se recompensas pecuniárias milionárias, como se o governo fosse resultado da vitória deles e os que os combateram são odiados, porque não basta reescrever desonestamente a história. Reclamam que “ainda não conseguimos confrontar devidamente o nosso passado recente". Millor, que nunca nos foi simpático, definiu-os bem: “Da luta fizeram um belo investimento”.

Há cientistas políticos de natureza vária, mas os que são facciosos e baseados em fatos não provados, desmerecem a ciência. Como dizia Bobbio, não são cientistas, mas meros formuladores de opinião.

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