Brasil das bestas
Por Carlos Marcelo - Correio Braziliense - 01/10/2010 
“Meu amor, minha vida. Sonhei com você essa noite. Um sonho lindo, fazendo amor contigo, melhor ainda, porque naquele dia foi show. Na última vez foi quando você realmente virou mulher. Sabia? Você foi uma loucura. E atendendo ao seu pedido, vou botar R$ 1.000 na conta da sua mãe, beleza?” O diálogo acima faz parte de uma ação policial, a Operação Mãos Limpas. Consta no inquérito da Polícia Federal que investiga os envolvidos em denúncias de corrupção no Amapá.
Segundo a PF, o responsável pelas declarações é o presidente do Tribunal de Contas do Estado, Júlio de Miranda, 53 anos, em conversa telefônica com uma adolescente de 14 anos.
Som e imagem. Desde que a dupla passou a ser utilizada em profusão nas investigações policiais realizadas nos últimos anos, o Brasil tomou conhecimento de detalhes aterradores da intimidade de autoridades aparentemente acima de qualquer suspeita.
Julgando-se acima do bem e do mal, muitos ultrapassam os limites da ética e da moral com total desembaraço e ruborizam até os que acham que já viram tudo nessa vida. Pior: fazem isso com dinheiro público, obtido por meios escusos. Desvio de verbas, superfaturamento de licitações, propinas e outras formas de burlar as autoridades e esvaziar os cofres. E se não houvesse dispositivos tecnológicos capazes de flagrá-los? Continuariam cometendo barbaridades respaldados pela presunção da impunidade.
Quando o cineasta pernambucano Cláudio Assis apresentou no Festival de Brasília o seu segundo longa-metragem, Baixio das bestas, a reação do público foi da perplexidade à revolta. Cenas fortíssimas de exploração sexual de menores causaram indignação e incômodo. Muitos acusaram o diretor de fetichismo, outros diziam que não precisavam ir ao cinema para se deparar com tanta monstruosidade. O que ninguém poderia imaginar é que, em pleno século 21, os fatos do noticiário político-policial conseguissem suplantar a imaginação dos mais experientes roteiristas. O Brasil que se deixa enxergar a cada operação policial ainda causa mais horror do que o Brasil retratado na tela. A realidade por aqui, infelizmente, ganha de goleada da ficção.
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